Isabel II, a rainha inesperada de um longo reinado que começou no topo de uma árvore (obituário)

8 set, 20:12
Rainha Isabel II (Associated Press)

Filha do segundo sucessor ao trono britânico, Isabel não nasceu para reinar - mas viveu para reinar. Foram 70 longos anos de um reinado que começou no topo de uma árvore

Nasceu princesa, morreu rainha - a rainha com o segundo reinado mais longo em toda a História mundial. Foram 70 anos literalmente coroados dos seus 96 anos de vida, uma vida longa que hoje chegou ao fim, cumprindo a promessa feita aos 21 anos, em 1947:

“Declaro diante de todos vós que toda a minha vida, seja ela longa ou curta, será dedicada a servir-vos e a servir a nossa grande família imperial, à qual todos nós pertencemos”.

Três meses depois de receber o amor do povo britânico nas cerimónias do Jubileu de Platina, e dois dias depois de ter indigitado a 15.ª primeira-ministra do Reino Unido do seu reinado, Liz Truss, Isabel II morreu em Balmoral, na Escócia, ladeada pela família. Uma família marcada por histórias conturbadas a que sempre se dedicou. Isabel II casou por amor com Philip de Edimburgo em 1947. Tiveram quatro filhos, oito netos e 12 bisnetos que, ao longo dos anos, os acompanharam não só em eventos familiares mas também em atos oficiais por toda a Commonwealth.

A pequena Lilibeth

A primogénita dos Duques de Iorque, batizada com o nome Elizabeth Alexandra Mary, nasceu a 21 de abril de 1926 e foi batizada a 29 de maio desse ano, sendo a terceira na sucessão ao trono, a seguir ao tio e ao pai. A pequena Lilibeth – como era carinhosamente tratada pela família - vivia com a família em Picadilly, longe dos holofotes da realeza.

Até que pacata vida dos duques de Iorque foi interrompida pela morte do rei George V, avô da princesa, em janeiro de 1936.

Subiu ao trono o filho herdeiro, o rei Eduardo VIII, ainda em 1936. Mas 326 dias de reinado depois, sem nunca chegar a ser coroado, o monarca abdicaria do trono por amor. Eduardo tinha-se apaixonado por Wallis Simpson, uma mulher divorciada, e deixou as obrigações reais por ela, assim transformando a vida da família do príncipe Albert, pai de Isabel, que nunca esperou vir a ser rei. Mas foi.

O Príncipe Alberto, mais tarde Rei Jorge VI, senta-se orgulhosamente com a sua pequena filha e futura monarca, Isabel.

Em 1937, o pai da princesa Isabel subiu ao trono como rei George VI, com as duas filhas – Isabel e Margaret – presentes na coroação na Abadia de Westminster. Inesperadamente, a princesa Isabel tornava-se primeira na linha de sucessão ao trono britânico.

Após a coroação do pai, a princesa Isabel foi educada maioritariamente em casa sob a supervisão da mãe, a rainha Isabel, e das governantas, tendo recebido aulas de Henry Marten, vice-presidente da universidade de Eton, e do Arcebispo da Cantuária.

Quando, em setembro de 1939, o Reino Unido entrou na II Guerra Mundial, a princesa Isabel e a família permaneceram no Castelo de Balmoral, na Escócia, até ao Natal, altura em que viajaram para Sandringham, em Norfolk. Em maio de 1940, a família mudou-se para Windsor, onde viveriam nos cinco anos seguintes.

A primeira vez que a princesa falou ao país

Foi em 1940 que a princesa herdeira falou pela primeira vez ao país. Com 14 anos, Isabel participou na Children’s Hour, da BBC, dirigindo-se a outras crianças que tinham sido retiradas das suas cidades.

“Estamos a tentar fazer tudo o que pudemos para ajudar os nossos valentes marinheiros, soldados e pilotos, e também estamos a tentar suportar a nossa quota de perigo e de tristeza da guerra. Cada um de nós sabe que, no fim, tudo ficará bem”.

Três anos depois, a princesa Isabel fez a sua primeira aparição pública a solo ao visitar os Grenadier Guards, infantaria da qual tinha sido nomeada coronel em 1942.

O facto de o sucessor ao trono ser uma mulher e não um homem fez com que a Casa Real tivesse de alterar várias leis. Uma delas foi a que permitiu à princesa Isabel atuar com Conselheira de Estado caso o rei ficasse incapacitado ou estivesse no exterior, como aconteceu durante a sua visita a Itália em 1944.

Em fevereiro de 1945, a princesa ingressaria no Serviço Territorial Auxiliar do Exército Britânico, onde teria formação como motorista e mecânica.

O fim da guerra

A II Guerra Mundial chegou ao fim a 2 de setembro de 1945. A princesa Isabel e a irmã, a princesa Margaret, eram então jovens. Assim que foi declarado o fim da guerra, as irmãs saíram para a rua e misturaram-se com a multidão que festejava o Dia da Vitória em Londres.

“Pedimos aos nossos pais se podíamos sair e ser nós mesmas. Lembro-me de que estávamos aterrorizadas por podermos ser reconhecidas. Lembro-me de várias pessoas desconhecidas de braços dados a caminhar por Whitehall... todos inundados por uma onda de felicidade e alívio”, contou Isabel mais tarde numa entrevista.

Dois anos depois, em 1947, a princesa Isabel acompanhou os pais numa viagem à África do Sul, onde fez a declaração que o mundo nunca mais esqueceria.

“Declaro diante de todos vós que toda a minha vida, seja ela longa ou curta, será dedicada a servir-vos e a servir a nossa grande família imperial, à qual todos nós pertencemos”

 

Amor real

Uma história de amor começara antes. A chispa ateara-se em 1934, quando a princesa Isabel e o príncipe Philip se conheceram no casamento da princesa Marina da Grécia com o Duque de Kent, respetivamente prima do príncipe e tio da princesa. O casal viria a reencontrar-se em 1937 e depois em 1939, no Real Colégio Naval de Dartmouth. Após o terceiro encontro, Isabel, com apenas 13 anos, revelou que se tinha apaixonado por Philip. Os dois começaram a corresponder-se por carta.

O noivado seria oficialmente anunciado a 9 de julho de 1947, gerando uma primeira controvérsia: afinal, Philip era estrangeiro e não tinha fortuna. O casamento seria celebrado a 20 de novembro de 1947 na Abadia de Westminster perante 2500 convidados, mas sem a presença do antigo rei Eduardo VIII e das três irmãs do príncipe Philip.

Foi um casamento simples para os standards reais, uma vez que o Reino Unido ainda se recuperava da guerra. A princesa Isabel recolheu cupões de racionamento para conseguir comprar o vestido, como se fosse uma noiva normal, e os noivos passaram a lua de mel em Broadlands, Hampshire, na casa do Lord Mountbatten, e em Birkhall, em Balmoral. O casal real iniciou a vida a dois em Windlesham Moor, perto do Castelo de Windsor, até que a 4 de julho de 1949 passou a viver na Clarence House, em Londres. Foi em Windlesham Moor que Isabel e Philip foram pais pela primeira vez.

O primogénito do casal, e sucessor do trono britânico, o príncipe Carlos, nasceu a 14 de novembro de 1948. Seguir-se-ia a princesa Anne, em 1950, altura em que os príncipes viviam em Malta (1949 – 1951), onde Philip era oficial da Marinha Britânica.

A árvore que representou a subida ao trono

A 6 de fevereiro de 1952, o rei George VI morreu após doença prolongada. A princesa Isabel encontrava-se em visita de Estado ao Quénia, acompanhada pelo príncipe Philip, quando soube da notícia, tendo regressado a Londres já na condição de Rainha Isabel II.

Isabel foi a primeira princesa a tornar-se rainha estando em território estrangeiro. De acordo com o caçador britânico e guarda-costas da família real, Jim Corbett, foi também a primeira pessoa a subir a uma árvore princesa e a descer dela como rainha.

“Pela primeira vez na história mundial, uma jovem rapariga subiu a uma árvore num dia como princesa (…) e desceu-a no dia seguinte como rainha”, escreveu o guarda-costas da então princesa, no livro de visitas do hotel Treetops, onde a comitiva real estava alojada.

O hotel Treetops – construído nas árvores do Quénia – viria a tornar-se então famoso por ter sido o local da proclamação da rainha.

Uma coroação para o mundo ver

A coroação aconteceu a 2 de junho de 1953, na Abadia de Westminster, e foi a primeira cerimónia real a ter transmissão televisiva.

Com a subida ao trono, o casal real mudou-se para o Palácio de Buckingham com os filhos Carlos e Anne. No entanto, ao contrário do que era normal, a família não adotou o nome do príncipe, mas sim da Rainha. A Casa Real continuou a ser a de Windsor e apenas os descendentes sem títulos reais usariam o sobrenome Mountbatten-Windsor.

O terceiro filho da Rainha, o príncipe Andrew, nasceu em 1960, e o quarto, o príncipe Eduard, em 1964. Os dois foram as primeiras crianças a nascer numa monarquia reinante desde a rainha Vitória.

A família real

A família foi sempre a base da Rainha e do Duque de Edimburgo. Depois dos filhos criarem as próprias famílias, tradições como o Natal em família em Sandringham, em Norfolk, mantiveram-se.

Em 2002, no ano do Jubileu de Ouro, a monarca agradeceu à família o apoio que tinha recebido após a morte da Rainha-Mãe e da princesa Margaret, sua irmã, que ocorreramno mesmo ano.

“Aproveito esta oportunidade para mencionar a força que recebi da minha família. O duque de Edimburgo teve uma contribuição imensurável na minha vida ao longo dos últimos 50 anos, assim como para tantas organizações em que está envolvido. Temos ambos um lugar especial nos nossos corações para os nossos filhos. Quero expressar a minha admiração pelo príncipe Carlos e por tudo o que ele tem feito por este país. Os nossos filhos, e toda a minha família, têm-me dado muito amor e ajuda ao longo dos anos e, especialmente, nos meses mais recentes”.

Em 2007, a Rainha e o Duque de Edimburgo tornaram-se no primeiro casal real a celebrar as Bodas de Diamante (60 anos). Num discurso sobre o seu casamento, a rainha Isabel não poupou elogios ao marido, que foi um forte pilar na vida da monarca ao longo dos 75 anos de um casamento:

“Ele é alguém que não aceita facilmente os elogios. Ele tem sido, muito simplesmente, a minha força, e continua a sê-lo em todos estes anos”.

Novo annus horribilis

1992 e 2022: dois annus horribilis para Isabel II. 

Em 1992, a monarca teve de lidar com a separação do príncipe Andrew, o divórcio do princesa Anne, o suicídio do príncipe Albrecht, a publicação de fotos da duquesa de Iorque em topless, a publicação do livro da princesa Diana onde era revelado o affair do príncipe Carlos com Camilla Parker Bowles, assim como a publicação de conversas íntimas entre a princesa Diana e James Gilbey. No mesmo ano, a rainha foi recebida com ovos em Dresden, na Alemanha, e o Castelo de Windsor, uma das residências oficiais, sofreu um incêndio a 20 de novembro.

Já 2020 ficou marcado pela oficialização do Brexit e também pelo... Megxit. Enquanto a Europa assistia à saída do Reino Unido, a família real via o príncipe Harry e a mulher, Meghan Markle, renunciarem à realeza para se mudarem para os Estados Unidos, e não poupando ninguém na entrevista que viriam a dar um ano depois.

Mas os problemas não se ficaram por aqui. 2020 foi também o ano em que rebentou o escândalo sexual que envolveu o príncipe Andrew, o mundo viveu uma pandemia e a rainha Isabel abandonou o palácio de Buckingham, tendo-se resguardado no castelo de Windsor que, pela primeira vez desde 1748, recebeu uma mini-parada Trooping The Colour para uma rainha solitária no jardim interior do Castelo.

Foi também em Windsor que a rainha Isabel II viria a dizer adeus ao amor da sua vida, o príncipe Philip. O duque de Edimburgo morreu "tranquilamente" no Castelo de Windsor, a 9 de abril de 2021, depois de ter passado várias semanas internado no hospital para tratar um problema cardíaco pré-existente, e a morte do duque deixou a rainha "perdida nos seus pensamentos" e sem aquele que foi o seu companheiro e amparo de uma vida.

Sem Philip a seu lado, Isabel II viu nascer mais duas bisnetas - Lilibet, nascida a 4 de junho, e Sienna, nascida a 18 de setembro -, mas viu também o filho Andrew ser processado por abuso sexual de menor de idade no caso Epstein.

O ano de 2022 ficaria ainda marcado pelas comemorações do Jubileu de Platina de Isabel II, em junho, onde a rainha marcou presença em apenas dois dos dias por motivos de saúde, tendo sido substituída por elementos da família real nos diversos eventos.

Não era a primeira vez que a rainha, com 96 anos, falhou eventos por motivos de saúde. Em maio, o príncipe Carlos, herdeiro ao trono, tinha substituído, pela primeira vez, a mãe na abertura oficial do ano parlamentar britânico. Isabel II falhou outros compromissos ao longo do ano e reduziu ao mínimo os encontros presenciais, reservados apenas a figuras de Estado, como o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, ou a demissão do primeiro-ministro e a indigitação da nova primeira-ministra, naquele que foi o derradeiro evento público da monarca.

Morreria "em paz" em Balmoral, na tarde de 8 de setembro - Isabel II, a rainha inesperada. 

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