"Frigoríficos transformados em fornos" e ataques até em Portugal: hackers deixam Europa em alerta. "Tudo o que está ligado à Internet será alvo, mais cedo ou mais tarde"

Há 16 min
Os hackers utilizaram um sistema de IA autónomo para levar a cabo ciberataques contra Taiwan, no que os especialistas consideram ser o primeiro ataque totalmente autónomo conhecido contra agências governamentais. Thana Prasongsin/Moment RF/Getty Images
Os hackers utilizaram um sistema de IA autónomo para levar a cabo ciberataques contra Taiwan, no que os especialistas consideram ser o primeiro ataque totalmente autónomo conhecido contra agências governamentais. Thana Prasongsin/Moment RF/Getty Images

Uma série de ciberataques atingiu dezenas de supermercados europeus na última semana, incluindo sete lojas Intermarché em Portugal. Os incidentes expõem falhas de segurança em equipamentos que nem sempre recebem atualizações e reacendem o debate entre especialistas sobre a dimensão da ameaça informática e o papel da inteligência artificial

Os ataques de hackers parecem ser cada vez mais comuns. Há alguns meses, as principais empresas de inteligência artificial começaram a anunciar, quase numa competição, que os modelos que estavam a desenvolver já conseguiam atuar de forma autónoma para explorar vulnerabilidades em sistemas informáticos. Mais recentemente, sistemas de refrigeração em diversos países europeus foram invadidos remotamente, tal como aconteceu com sistemas informáticos de bancos de sangue em França. A situação parece estar a tornar-se cada vez mais frequente e divide os especialistas, como noticiou o Guardian.

"Existem tantas vulnerabilidades por aí que… se poderia dizer que estão à espera de serem exploradas", afirmou Richard Horne, diretor do Centro Nacional de Cibersegurança do Reino Unido (NCSC, na sigla em inglês), citado pelo jornal britânico. "O risco mais grave que enfrentamos a curto prazo é simplesmente um aumento enorme no volume de incidentes… e penso que provavelmente se poderia apontar para os últimos meses e dizer que já começámos a ver isso."

As empresas de inteligência artificial demonstraram que estas vulnerabilidades podem estar mais expostas do que nunca. Em julho, a OpenAI foi a primeira a divulgar que um modelo de IA conseguia realizar ataques informáticos explorando estas falhas de segurança, em determinadas condições. Posteriormente, modelos da Anthropic e da Google demonstraram capacidades semelhantes.

Em outubro, foi divulgado que a linguagem de programação PHP, utilizada por cerca de 70% dos websites, continha uma importante falha de segurança, que poderia permitir ataques informáticos. Inúmeros sites chegaram a ser retirados do ar para evitar riscos.

Tudo isto aconteceu antes do incidente mais recente. Na última semana, a Europa foi afetada por uma série de ataques que atingiram sistemas de refrigeração de supermercados. A situação foi reportada por empresas na Irlanda, na Bélgica, nos Países Baixos, em França e em Portugal. Em território nacional, o Intermarché confirmou que sete lojas foram afetadas.

"O Grupo Mosqueteiros confirma que foram identificadas ocorrências relacionadas com um ataque informático em sete lojas Intermarché em Portugal, que terá visado um prestador de serviços externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração", disse o Grupo Mosqueteiros à SIC Notícias.

Alerta nuclear e o "momento Wuhan"

Na Ucrânia, um ataque informático ao sistema de alerta de emergência do país enviou aos cidadãos um aviso falso sobre o risco de uma explosão nuclear. "Olá, em toda a Ucrânia vai ocorrer agora uma explosão nuclear", dizia a mensagem.

Para Azeem Azhar, empresário do setor tecnológico, o mundo está a atravessar um novo "momento Wuhan", como referiu o Guardian. A afirmação foi feita num texto publicado por Azhar na plataforma Substack, no qual compara o avanço das tecnologias de inteligência artificial com o início da pandemia de covid-19.

"É como se estivéssemos novamente em janeiro de 2020", começa. "Algo está a alastrar-se rapidamente. A maioria das pessoas ainda não se apercebeu, e as que se aperceberam estão preocupadas."

A análise de Azhar não é especialmente pessimista. Depois de citar Matthew Prince, diretor-executivo da Cloudflare, que afirmou à Reuters que "vamos passar por uns anos em que, todas as semanas, vamos ter a sensação de que o céu está a cair", o empresário refere que "as coisas vão piorar antes de melhorar". No entanto, "a Internet que surgirá do outro lado será mais segura e menos aberta do que aquela que construímos".

Não há, contudo, consenso de que o mundo esteja efetivamente a viver um momento de viragem na segurança na Internet. Ciaran Martin, primeiro diretor-executivo do NCSC, referiu ao Guardian que já houve momentos semelhantes no passado que não resultaram em ameaças estruturais. "É uma fase difícil, mas não é algo sem precedentes", considera. "A ideia de que estamos a viver um 'momento Wuhan' não é verdadeira. Estamos a passar por uma daquelas ondas de incidentes que ocorrem de poucos em poucos anos."

Outro especialista citado pelo Guardian, Tal Be'ery, refere que os modelos de inteligência artificial são capazes de identificar vulnerabilidades existentes na Internet, mas isso não está a traduzir-se num aumento proporcional do número de ataques ou em ataques mais lucrativos para os hackers. Mesmo assim, nas últimas semanas, dezenas de empresas em diversos países foram atingidas pelos ataques aos sistemas de refrigeração.

Estes ataques destacaram um fator importante que possibilita estas ações ilegais: os atacantes estão a aproveitar vulnerabilidades de equipamentos antigos que não recebem atualizações de segurança.

"Estes atacantes são, na sua maioria, oportunistas", diz Samuli Bergström, vice-presidente da empresa finlandesa de cibersegurança WithSecure, também citado pelo jornal britânico. "Quando veem algo que está exposto à Internet, é provável que o ataquem. Se tiver um dispositivo ligado à Internet, tem de partir do princípio de que será atacado, mais cedo ou mais tarde."

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