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Este misterioso pilar de ferro está exposto aos elementos há mais de 1.600 anos. Porque é que nunca enferrujou?

CNN , Poonam Binayak
19 mai, 19:00
Pilar de Ferro Nova Deli Índia (Allen Brown/Alamy Stock Photo)

Pode uma estrutura de ferro aguentar-se 1.600 anos sem ferrugem, apesar de estar exposta aos elementos?

Parece implausível, considerando a suposta ausência de tecnologia na altura da sua construção.

Contudo, dentro do complexo Qutb Minar que é património da UNESCO, em Nova Deli – e que consiste numa coleção de monumentos e edifícios históricos erigida no início do século XIII no sul da cidade, no distrito de Mehrauli – uma misteriosa estrutura é testemunho deste mesmo enigma.

Quem visita o pátio da mesquita Quwwat-ul-Islam no complexo repara imediatamente num pilar imponente de ferro com seis toneladas e 7,2 metros de altura com uma cúpula decorada que é ainda mais antiga do que o próprio complexo.

De forma notável, o pilar está hoje em condição tão pristina quanto no dia em que foi forjado, desafiando quer a idade quer as adversidades ambientais, incluindo as intensas temperaturas da capital indiana e a crescente poluição na cidade. Datado do século V, a sua resiliência extraordinária continua a cativar os viajantes até hoje.

Como tem desafiado a corrosão durante tanto tempo?

A mesquita de Quwwat-ul-Islam integra o complexo Qutb Minar, que é património da UNESCO (Anders Blomqvist/The Image Bank Unreleased/Getty Images)

Normalmente, as estruturas de ferro e ligas de ferro expostas ao ar ou à humidade oxidam ao longo do tempo, ficando cobertas de ferrugem a menos que estejam protegidas contra isso com camadas de uma tinta especial, como é o caso da Torre Eiffel. Cientistas da Índia e estrangeiros começaram a estudar o pilar de ferro de Deli em 1912 para tentarem perceber porque é que não tem sido corroída.

Só em 2023 é que especialistas do Instituto de Tecnologia da Índia (IIT), na cidade de Kanpur, no norte, desvendaram o mistério, revelando a resposta no jornal especializado Current Science.

Os cientistas descobriram que o pilar, principalmente composto de ferro forjado, tem um elevado teor de fósforo (cerca de 1%) e não contém enxofre nem magnésio, ao contrário do ferro moderno. Para além disso, os artesãos da antiguidade usavam uma técnica chamada “soldadura por forja”.

Isso significa que aqueciam e martelavam o ferro, mantendo intacto o elevado teor de fósforo, um método pouco comum nas práticas modernas.

O arqueo-metalurgista R. Balasubramaniam, autor do relatório, diz que esta abordagem pouco convencional contribuiu para a força duradoura do pilar.

Uma fina camada de “misawite”, um composto de ferro, oxigénio e hidrogénio, também foi encontrada na superfície do pilar, adianta. Esta camada é formada cataliticamente pela presença de um elevado teor de fósforo no ferro e pela ausência de cal, aumentando assim a durabilidade do pilar.

Balasubramaniam elogia os metalúrgicos pelo seu engenho, descrevendo o pilar como “um testamento vivo das antigas proezas metalúrgicas da Índia”.

A sua durabilidade é comprovada por relatos históricos, incluindo de um incidente no século XVIII quando uma bala de canhão disparada contra o pilar não o conseguiu quebrar, demonstrando a impressionante robustez do monumento antigo.

Hoje, o pilar serve de emblema a organizações científicas como o Laboratório Nacional Metalúrgico e o Instituto Indiano de Metais.

Mitos e lendas em torno da origem do pilar 

Imagem de detalhe das inscrições no Pilar de Ferro (Stuart Forster/Shutterstock)

Para além da intriga metalúrgica, a origem do Pilar de Ferro também está envolta em mistério. Um dos relatos mais difundidos remete-o para o tempo do Império Gupta, em particular sob o reinado de Chandragupta II, também conhecido como Vikramaditya, por volta dos séculos IV e V.

De acordo com essa história, o pilar foi erigido no Templo Varah das Grutas de Udayagiri, perto de Vidisha, em Madhya Pradesh, como um monumento de vitória dedicado à divindade hindu Lorde Vishnu. Diz-se que, em tempos, terá ostentado no seu topo uma estátua de Garuda, a mítica águia montada por Vishnu, embora esta figura tenha ficado perdida na história.

Outra teoria, proposta pelo educador e ativista do património Vikramjit Singh Rooprai, sugere que pode ter sido comprada por Varāhamihira, renomado astrónomo da corte do Rei Vikramaditya.

“Um dos seus livros, o ‘Surya Siddahnta’, detalha os métodos para calcular as posições celestes, eclipses e outros fenómenos da astronomia – e crê-se que ele terá usado um pilar alto nos seus cálculos”, diz Vikramjit.

“Por esse motivo, quando migrou de Vidisha para Mihirapuri (agora Mehrauli), onde fundou um observatório, é provável que tenha trazido o pilar com ele para continuar a usá-lo nos seus estudos e cálculos.”

Para além disso, alguns registos históricos atribuem a figuras notáveis como Raja Anangpal da dinastia Tomar, e governantes muçulmanos como Iltumish e Qutbuddin Aibek, a relocalização do pilar para o completo de Qutb.

O pilar também é mencionado nas artes. No poema épico “Prithviraj Raso”, da autoria de Chand Bardai, um cortesão da dinastia Chahamana sob o Rei Prithviraj Chauhan, o Pilar de Ferro detém uma importância significativa.

“Bardai descreve o Pilar de Ferro em Raso como um prego que segura a Terra no casco de Sheshnag, o rei serpente da mitologia hindu”, diz Vikramjit.

“Raso conta como Raja Anangpal tentou arrancar este prego, apesar dos avisos dos Brahmins das consequências nefastas de o fazer. Quando foi arrancado, revelando uma base vermelha que se acreditava ser o sangue de Sheshnag, instalou-se o pânico, temendo-se a destruição da Terra. Anangpal rapidamente ordenou que fosse reinstalado, mas não foi devidamente fixado, o que fez com que se soltasse. Assim, Bardai sugere que este incidente inspirou o nome coloquial ‘Dilli’ para Deli, que é um trocadilho com a palavra ‘dhilli’, que significa ‘solto’ em hindi.”

Importância cultural e esforços de preservação

O complexo de Qutub Minar é batizado em honra desta torre de arenito vermelho (Ravi Pratap Singh/iStockphoto/Getty Images)

Segundo uma lenda, se se ficar de costas para o pilar e se envolver os braços à volta dele, certificando-se de que os dedos se tocam, o seu desejo realizar-se-á – uma tradição que confere ao pilar um significado espiritual para além do seu valor histórico.

Contudo, o Archeological Survey of India (ASI) decidiu colocar uma vedação em torno do pilar para minimizar o impacto humano.

A arquiteta de conservação e especialista em património Pragya Nagar considera notável a preservação do pilar dentro do complexo, apesar da demolição e reconstrução da sua envolvente ao longo dos anos.

“Se observarmos a técnica usada para criar o pilar sob uma nova perspetiva, para além do mero reconhecimento das suas origens antigas, podemos descobrir caminhos para aproveitar métodos semelhantes no desenvolvimento de materiais alternativos sustentáveis, considerando os danos ambientais associados a processos como a extração de metais”, diz à CNN.

“É imperativo olhar para a história para lá das relíquias e monumentos que simplesmente precisam de ser conservados e admirados, antes como repositórios de conhecimentos tradicionais e práticas indígenas. Esta abordagem holística tem o potencial de preparar o caminho para um futuro mais sustentável.”

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