Faziam "engolir pimenta" a quem denunciava os abusos sexuais dentro da Igreja portuguesa (e uma das vítimas contou a sua história depois de ouvir declarações públicas de Marcelo)

13 fev, 18:20

Os relatos fazem parte do relatório final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa e mostram como membros da Igreja a trabalhar em escolas católicas tiravam partido dos momentos de confissão (e não só) para abusarem de menores. Os traumas ficam para a vida ESTE ARTIGO CONTÉM CONTEÚDO EXPLÍCITO QUE PODE CHOCAR OS LEITORES

“Festas na mão, na cara, nas costas, dentro das minhas cuecas”: abusada pelo padre e castigada com pimenta pela madre

A história acontece num colégio de freiras, perto de uma grande cidade do centro do país. Na preparação para a primeira comunhão, a rapariga nascida nos anos 1960, à altura com oito anos, viu a turma ser dividida em grupos. A dela foi enviada para a capela, para que se pudessem confessar.

Mas, à medida que as colegas vinham do confessionário, “vinham coradas, nervosas, estranhas”.

“Quando chegou a minha vez percebi porquê. As palavras suaves do padre, as festas na mão, na cara, nas costas e a seguir dentro das minhas cuecas. E sempre com palavras suaves. Senti-me mal, aquilo não era normal, era esquisito, falso e desconfortável”, recorda.

O episódio foi comentado com as colegas. E, poucas horas depois, acabou por ser chamada ao quadro pela Madre. Diante da turma toda disse que a vítima do abuso era uma “mentirosa, pecadora e que devia ser castigada”.

“Mandou-me ir à cozinha buscar uma colher de sopa cheia de pimenta em pó”. E aplicou o castigo: “Fez-me engolir tudo de uma vez diante da turma inteira. Porque era uma pecadora e mentirosa e tinha de ser castigada. Em público. Ainda sinto a sensação de quase morrer asfixiada com a pimenta na garganta, nariz, pulmões, olhos, ouvidos. Senti-me violentada pela segunda vez no mesmo dia.”
 

Sentou-se no colo do professor: acabou abusado e ameaçado com uma faca

O autor da denúncia tem hoje 51 anos mas, quando foi abusado num colégio religioso de Lisboa, tinha apenas nove anos. O agressor não era padre mas era “um membro ativo da comunidade da ordem”. Organizava atividades com os alunos dentro e fora da escola. Era tão influente que até tinha direito a um gabinete próprio. E foi aí que se deram os abusos.

“Tinha um gabinete próprio, coisa que julgo que apenas o diretor do colégio tinha, e era normal chamar alunos ao gabinete para conversas mais pessoais, muitas vezes com o pretexto do clube; da Fé; dos comportamentos, etc”, recorda a vítima.

Olhando para trás, o homem reconhece que confiou no professor porque tinha perdido o contacto com o pai, teria “fragilidade ou carência de atenção masculina”. Daí ter “cedido facilmente à aproximação afetiva deste homem”.

Quando entrava no gabinete trancava a porta à chave e guardava-a no bolso. “Certo dia, sentou-me ao colo dele, num ato afetuoso e aparentemente inofensivo”.

“Lembro-me que comigo ao colo ‘prendia’ os meus pés por trás das pernas dele (na zona dos gémeos), abria-me o fecho das calças, deixando-as acima dos joelhos, e masturbava-me lentamente. Eu não sabia bem o significado daquilo porque não deveria ter ainda uma noção clara da componente sexual daquele ato. Mas sabia que era estranho e por isso fui guardando para mim”, descreve.

Repetiu-se pelo menos três vezes. “Da última vez mostrou-me a faca de cortar papel que tinha sobre a secretária, em tom de aparente brincadeira, mas evidentemente com um fim intimidatório, de forma a que eu não falasse mesmo no assunto. Comecei a ter muito medo e o silêncio passou a ser insuportável.”

O caso acabou por ser descoberto porque a vítima teve uma crise de choro na casa do melhor amigo, contando-lhe tudo. A mãe do amigo apercebeu-se de que algo não estava bem e acabou por ouvir toda a história. “Ela ligou à minha mãe e deixei de ir ao colégio.”

Mas, apesar desta decisão da família, o caso acabou abafado: “O professor começou por negar e o colégio exigiu que eu fosse a um psiquiatra para termos a confirmação da veracidade do meu testemunho. Uma vez confirmado, o diretor pediu aos meus pais que, por favor, não falassem no assunto e que o colégio se comprometeria a afastar o professor das instituições de ensino da ordem. Os meus pais consentiram, provavelmente para me pouparem a muita exposição, mas também porque nessa época a vergonha falava mais alto e os silêncios eram mais facilmente consentidos”.

O homem, que recorreu ao apoio de psicanalistas e psiquiatras, diz que não faz deste episódio um “tabu”. Contudo, “nunca quis” apresentar queixa ou instaurar um processo.

“O comportamento do padre era do conhecimento geral”: confissão ao colo com toques e carícias (e um caso denunciado devido ao que Marcelo disse)

O caso passou-se num colégio católico numa cidade portuguesa. A vítima nasceu nos anos 1980. Frequentou entre os seis e os 14 anos um colégio de “inspiração cristã”. Nesse colégio havia uma disciplina de “Iniciação Cristã” dada por um sacerdote.

Se as aulas decorriam com normalidade, o problema eram as sessões de confissão num gabinete do colégio que “pareciam durar horas”.

“O padre aproveitava esses momentos para contactos impróprios com as crianças que confessava. Eu fui uma delas. Pedia que deitássemos a cabeça sobre o seu colo. Pegava-nos, beijava-nos, acariciava-nos, tocava-nos. Não eram abusos sexuais per se, pelo menos visíveis, mas eram contactos íntimos, altamente impróprios entre um homem de, na altura, cerca de 40 anos e crianças em idade de escola primária”, descreve a vítima, do sexo masculino.

A mãe do rapaz descobriu porque o rapaz lhe disse que o padre tinha feito um comentário sobre o peso dele. Foi aí que soube que o padre pedia às crianças para se sentarem no seu colo. A mãe pediu de imediato ao filho que se recusasse a fazê-lo se a situação se repetisse.

“Houve outras denúncias. Percebi mais tarde que o comportamento do padre era do conhecimento geral na escola. Apesar disso, o padre não foi denunciado nem afastado completamente — apenas deixou, a certo ponto, de praticar as confissões”, escreveu.

Segundo a vítima, foram as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa que o fizeram denunciar o caso à comissão independente criada para este efeito: “As declarações de ontem do Presidente da República fizeram-me reponderar o meu silêncio. Realmente 424 casos são muito poucos. Porque acredito que, como eu, muitos dos que sofremos algum tipo de abuso – a maioria, provavelmente – optaram por manter-se calados”.

“Ia roçando o pénis nas nossas cabeças”

As aulas de Português num colégio católico da região Norte eram o palco dos abusos que aconteciam à vista de todos. A denúncia é feita por uma antiga aluna nascida na década de 1970, à altura com 10 anos. O padre e professor mandava ler um texto e ia passando entre as mesas.

“Punha-se por trás das nossas cabeças, metia a mão dentro das nossas blusas/camisolas e apalpava-nos as maminhas. Ficava claramente excitado e ia roçando o pénis nas nossas cabeças. Outras vezes, em simultâneo metia os dedos - que tresandavam a tabaco - nas nossas bocas e ia mexendo dentro na nossa boca e na nossa língua.”

Os alunos arranjaram “estratégias”, desde camisolas de gola alta até aos colegas rapazes começarem a fazer perguntas para obrigar o professor a responder e a parar.

Ainda hoje, mesmo em relações sexuais consentidas, esta mulher rejeita que lhe toquem no peito.

O caso foi contado aos pais e a outros familiares, sem qualquer efeito prático. “Não sei se faziam de conta que não percebiam ou se simplesmente achavam aceitável.”

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