Vamos esclarecer os comentários de Lavrov sobre Hitler

CNN , Anthony D. Kauders
6 mai, 14:07
"Se a minha memória não me falha, Hitler também tinha origem judaica". Declarações de Lavrov geram indignação em Israel

OPINIÃO Historiador analisa as perigosas provocações do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Há três questões em jogo: a representação da Ucrânia por Lavrov; a sua caracterização de Hitler; e a sua concepção de identidade judaica

Anthony D. Kauders é professor de história moderna na Universidade Keele, no Reino Unido, especializado em história judaico-alemã. As opiniões expressas neste comentário são suas.

Os comentários do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, sobre a identidade judaica do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, causaram choque, consternação e indignação. Numa entrevista a uma estação de televisão italiana, Lavrov defendeu a fotografia que o seu país faz da Ucrânia como a de um estado "nazi", apesar do passado de Zelensky. "E daí se Zelensky for judeu?", perguntou. "O facto não nega os elementos nazis na Ucrânia." O próprio Hitler tinha “sangue judeu”, acrescentou, e “os antissemitas mais ardentes geralmente são judeus”, disse ainda.

O apresentador do programa, não inesperadamente, declinou contestar estas afirmações, delegando a tarefa noutros jornalistas, em políticos internacionais e no público em geral.

Algumas das reações foram previsíveis. O ministro das Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, publicou um tweet dizendo que “a Rússia de hoje está cheia de ódio contra outras nações". O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, condenou as "mentiras insidiosas" de Lavrov. O porta-voz do governo da Alemanha, Steffen Hebenstreit, sugeriu que tal propaganda "absurda" dispensa comentários.

Em Israel, as provocações de Lavrov tocaram um nervo particularmente sensível, levando os líderes do país a abandonar a posição de equilíbrio diplomático. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Yair Lapid, rejeitou as declarações como sendo indesculpáveis ​​e historicamente errôneas. “Os judeus não se mataram no Holocausto”, disse, acrescentando que seria "o nível mais baixo de racismo contra os judeus culpar os próprios judeus pelo antissemitismo". Dani Dayan, chefe do Centro de Memória do Holocausto de Israel Yad Vashem, denunciou o relato de Lavrov como sendo "absurdo, delirante, perigoso e merecedor de condenação".

(Na quinta-feira, o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, disse que o presidente russo, Vladimir Putin, pediu desculpas pelos comentários de Lavrov.)

Quaisquer que sejam as intenções de Lavrov, é importante contrariar a sua versão dos acontecimentos. Há três questões em jogo: primeiro, a sua representação da Ucrânia; segundo, a sua caracterização de Hitler; e terceiro, a sua concepção de identidade judaica (ou qualquer outra).

O antissemitismo não é desconhecido na Ucrânia moderna. Dezenas de milhares de judeus perderam a vida após a Primeira Guerra Mundial, quando a violência antissemita se tornou uma "resposta aceitável aos excessos do bolchevismo". Os ucranianos não foram os únicos a perpetrar esses crimes: polacos e tropas russas brancas foram igualmente implicados. Pogroms e assassinatos em massa voltaram com força total duas décadas depois.

Antecipando o restabelecimento de um Estado independente, os nacionalistas do oeste da Ucrânia colaboraram com os nazis, às vezes como membros da força de polícia auxiliar, às vezes como guardas dos campos de concentração. Mais uma vez, eles não foram os únicos a tirar vantagem dos avanços alemães contra a União Soviética.

A Ucrânia atual tem o seu quinhão de extremismo de direita. Milícias atacaram manifestantes antifascistas e políticos municipais, bem como estudantes estrangeiros e ciganos. Ainda assim, nas eleições parlamentares do país em 2019, uma coligação de partidos de extrema-direita garantiu pouco mais de 2% dos votos, número que empalidece em comparação com os sucessos de racistas noutras partes da Europa Ocidental e de Leste.

Por mais que a memória coletiva russa possa ter prejudicado a representação de Lavrov da Ucrânia, é evidente que a chamada "desnazificação" é apenas um pretexto para "desucrainizar" um território que, tanto para Lavrov como para o presidente russo, Vladimir Putin, carece de legitimidade histórica.

Hitler não era judeu. Até hoje, o seu avô paterno é desconhecido, o que levou alguns a especular sem qualquer evidência de que o misterioso antepassado do ditador pode ter sido judeu - e o antissemitismo de Hitler seria uma forma de autoaversão que o teria induzido a exterminar os judeus europeus.

Segundo a lenda, a avó de Adolf, Maria Schicklgruber, trabalhava como cozinheira para os Frankenbergers de Graz, onde engravidou de um membro da família, possivelmente o filho de 19 anos. Os contos são como são, e este é especialmente fantástico. Não há evidências de que Maria tenha trabalhado ou morado em Graz. Não há provas de que uma família Frankenberger lá tenha morado. E certamente não há documentação de uma família judaica Frankenberger em Graz.

De facto, os judeus foram expulsos da cidade no século XV, sendo autorizados a regressar décadas depois do suposto caso Schicklgruber-Frankenberger. A fonte da lenda deveria ter levantado as sobrancelhas no início.

Hans Frank, o notório governador-geral do território polaco ocupado pelos nazis, inventou a história como parte das suas memórias enquanto aguardava a execução em Nuremberga. A fabricação incluiu tantos outros erros factuais que nenhum historiador sério jamais considerou o registo de Frank como sendo fiável.

Deixando de lado essas falsidades, o aspeto mais interessante da polémica de Lavrov está relacionado com os seus comentários avulsos ​​sobre Zelensky. Por um lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia está certo: a ascendência judaica do presidente da Ucrânia não diz nada sobre até que ponto os ucranianos têm certas opiniões. Zelensky não concorreu à presidência em nome do povo judeu. Os ucranianos elegeram-no por várias razões, tendo a sua etnia desempenhado, na melhor das hipóteses, um papel marginal. Pelo que sabemos, alguns votaram nele apesar de sua origem judaica.

Para dar outro exemplo bem conhecido: Bruno Kreisky, nascido de pais judeus em 1911, serviu como chanceler austríaco de 1970 a 1983, numa época de níveis excecionalmente altos de antissemitismo no país. Nem o "judaísmo" determinou a política de Kreisky de maneira significativa, nem predisse as preferências políticas dos seus partidários. O recente candidato presidencial francês Éric Zemmour é mais um caso. Zelensky, Kreisky e Zemmour, por outras palavras, são judeus, mas nada decorre automaticamente desse facto.

Por outro lado, Lavrov está claramente errado, contrariando o seu próprio princípio ao sustentar que muitos antissemitas eram judeus. De acordo com essa lógica, as origens judaicas de Zelensky são irrelevantes no que diz respeito à política ucraniana, mas bastante pertinentes no que diz respeito aos sentimentos antissemitas. Não sabemos quem o ministro dos Negócios Estrangeiros russo tinha em mente quando se referiu aos antissemitas judeus – além do não-judeu Hitler.

O que sabemos, no entanto, é que os comentários de Lavrov são um recurso retórico familiar no arsenal dos perseguidores de judeus de então e de agora. Os antissemitas sempre acharam útil citar o estranho judeu descontente com a sua genealogia, ou explorar passagens bíblicas num esforço para documentar a malevolência judaica.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia pode ter estado ciente dessa tradição quando disse o que disse. Pode até estar ciente das inconsistências nas passagens citadas acima. Afinal, a propaganda russa hoje tem tudo a ver com espalhar falsidades e deturpações, tanto que a falta de compromisso com a consistência é neste momento a única característica fiável das comunicações de Moscovo.

É uma pena, no entanto, que o moderador da televisão italiana se tenha recusado a acusar Lavrov de estar a fazer mais um jogo perigoso.

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