Tapetes de ioga, heavy metal e ataques relâmpago. Como a Ucrânia troca as voltas às tropas russas

11 set, 08:30
Ucrânia (AP Images)

Recursos militares da Rússia e da Ucrânia são muito desiguais, mas Kiev está a encontrar formas bastante originais de equilibrar as forças no campo de batalha

A guerra faz-se de táticas complexas e do movimento coordenado entre soldados, blindados e força aérea, mas não só. Às vezes os truques mais simples são o suficiente para desorientar o adversário e obter a vantagem necessária ou equilibrar as forças no campo de batalha. Da utilização de tapetes de ioga para fugir à identificação térmica, à utilização de drones para distrair radares de forma a destruir valiosos alvos militares, o exército ucraniano tem recorrido a alguns métodos pouco convencionais que estão a apanhar a Rússia desprevenida.

Heavy metal para interferir nos sinais de rádio

Percebeu-se depressa nos primeiros dias da guerra que o poderoso exército russo poderia ter mais lacunas do que se pensava. Anos de investimentos em tecnologia de ponta na área dos mísseis balísticos e poderosos tanques cativaram a imaginação do público, mas, no momento da ação, alguns dos aspetos mais básicos e fundamentais de um exército não estavam presentes. Foi esse o caso das comunicações encriptadas.

Os exércitos modernos precisam de um elevado nível de coordenação entre todo o tipo de unidades, para evitar acidentes e para receber e dar ordens. A maior parte dos exércitos modernos fazem-no através de rádios portáteis encriptados, que permitem que ninguém consiga escutar ou interferir nas comunicações que podem colocar em risco a vida dos soldados.

Soldados ucranianos com comunicações portáteis na frente de combate (Getty Images)

Em alguns casos, os soldados russos utilizaram mesmo walkie-talkies comerciais, que permitem a qualquer pessoa interferir na frequência do dispositivo, motivando algumas situações curiosas. No início da operação, surgiram vários relatos de unidades militares russas a serem “bombardeadas” com música heavy metal durante o combate.

As Forças Armadas ucranianas chegaram mesmo a partilhar publicamente as gravações de algumas destas comunicações, acabando por ser traduzidas online por voluntários. Algumas podem ser propaganda ucraniana, com alegados oficiais russos a afirmarem que os seus soldados estão a morrer de queimaduras de frio, a falar sobre a falta de meios ou sobre a artilharia russa disparar contra os próprios soldados. Porém, várias comunicações aparentam ser legítimas.

Tapetes de ioga na cabeça

E se a diferença entre a vida e a morte estiver dependente da colocação de um tapete de ioga sobre a cabeça? Pode parecer estranho, mas para muitos soldados esta técnica ajudou-os a escapar ilesos, uma vez que campo de batalha está cada vez mais repleto de tecnologia de ponta e a utilização de câmaras com capacidade de captar o registo térmico.

Estas câmaras são muito utilizadas quer por drones que fazem o reconhecimento do terreno quer por forças especiais que operam no escuro da noite e detetam a presença de soldados através do calor que estes emitem. Os soldados ucranianos encontraram uma forma tão original quanto eficaz para combater esta desvantagem ao utilizar os tapetes de ioga, cuja espuma esconde a assinatura térmica nestas câmaras.

Tanque russo destruído nos arredores de Kiev (Getty Images)

Nos primeiros dias da guerra, um soldado ucraniano contou ao jornal Financial Times que ele e os seus colegas movimentavam-se em pequenos grupos à noite com tapetes de ioga por cima da cabeça, aproximavam-se dos veículos blindados russos e disparavam as armas antitanque fornecidas pelos Estados Unidos sem que os russos se apercebessem da sua presença. Esta técnica foi fundamental para travar o avanço russo junto da capital, Kiev.

Mudar as placas de sinalização

É uma táctica antiga e foi muito utilizada durante a Segunda Guerra Mundial. Corriam os primeiros dias da invasão e as autoridades ucranianas apelaram a toda a população para retirar as placas das estradas e todos os sinais públicos que pudessem dar informação útil aos invasores. Estas ações levaram vários grupos de militares russos mais inexperientes a perderem-se e ficarem completamente desorientados.

Quando um exército inimigo está a progredir no interior de um território que não conhece, muitas vezes o único instrumento que tem ao seu dispor para guiar a ofensiva é um mapa. Nesse ambiente estranho, é particularmente importante conseguir identificar o nome de ruas e aproveitar os sinais da estrada para orientar o próximo passo. A Ucrânia soube aproveitar bem este conhecimento, mas houve quem fosse mais longe.

Passadas as primeiras horas da invasão as autoridades apelaram à retirada de todas as placas e sinais úteis aos russos. "Vamos fazer todo o possível para limpar a Ucrânia do ocupante russo o mais rápido possível!", apelou o ministério da Defesa ucraniano.

Mas, para alguns ucranianos, simplesmente mudar as direções e tirar as tabuletas que identificam os nomes das ruas não era suficiente e começaram a surgir alguns sinais de trânsito com mensagens menos simpáticas para com o exército invasor.

Réplicas de Madeira

Desde que entraram no teatro de operações, os sistemas de lança-foguetes múltiplos guiados HIMARS passaram a ser um dos principais alvos do exército russo. E não é caso para menos. Estas armas permitiram ao exército ucraniano atacar com elevado grau de precisão alvos que antes estavam fora do seu alcance, bem no interior do território controlado pelos ocupantes russos. O resultado foram mais de 50 depósitos de munições destruídos, mais de uma dezena de postos de comandos, radares e instalações militares.

Esse cenário levou as mais altas patentes russas a não pouparem esforços num jogo de gato e rato, com o objetivo de descobrir e destruir estas armas. Porém, o exército ucraniano está a utilizar uma velha tática militar para enganar o exército russo e levá-lo a gastar milhões durante o processo. A Ucrânia construiu uma frota de réplicas de HIMARS de madeira com o propósito de confundir os russos.

Sistema de lançamento de mísseis HIMARS (AP)

Segundo fotografias analisadas pelo jornal The Washington Post, os ucranianos estão a utilizar réplicas destes sistemas quase indistinguíveis aos olhos dos operadores dos drones russos encarregados de descobrir estes alvos. Assim que os russos detetam a localização de um destes sistemas, disparam um míssil cruzeiro de alta precisão para o destruir, desperdiçando milhões de euros no processo. O míssil mais utilizado pelas tropas russas, o Kalibr-M, que é lançado dos navios da frota do Mar Negro, tem um preço estimado em 6,5 milhões de euros.

“Quando os drones veem a bateria, é como um alvo de elevada prioridade”, disse um alto funcionário ucraniano ao jornal norte-americano, referindo-se a veículos aéreos não tripulados que têm como função encontrar réplicas de artilharia de longo alcance.

Após várias semanas de utilização no terreno, estes falsos HIMARS já precipitaram o exército russo a disparar pelo menos 10 Kalibr, o equivalente a 65 milhões de euros, contra algumas tábuas de madeira em forma de lançador de foguetes.

A dança dos drones

Em abril, a Ucrânia conseguiu uma das suas maiores vitórias, do ponto de vista militar. Contra todas as expectativas, contrariou o total domínio russo no Mar Negro e afundou a joia da coroa da marinha russa na região, o cruzador Moskva, libertando a pressão que se fazia sentir na cidade de Odessa, numa altura em que ainda se temia uma invasão naval. Porém, a forma como as Forças Armadas ucranianas o fizeram, foi ainda mais notável.

O exército ucraniano utilizou dois drones Bayraktar TB-2 para distrair o sistema de radar do navio, obrigando os sistemas antimíssil de longo alcance a ficar focados nas aeronaves. O resultado foi devastador. As duas explosões causaram um grande incêndio, acabando por detonar várias munições que se encontravam a bordo.

Cruzador Moskva a navegar nos arredores de Sevastopol (Getty Images)

O navio, que tinha um preço aproximado de 750 milhões de euros, tinha também um papel fundamental em proteger a restante frota no mar Negro, uma vez que possuía um dos maiores sistemas antimísseis. Mas isso não foi suficiente para proteger a embarcação de ser atingida de forma espetacular por dois mísseis Neptuno, de produção ucraniana.

Este navio tinha, além disso, um forte peso simbólico, uma vez que foi a embarcação que esteve envolvida na rendição dos soldados na Ilha das Serpentes, que motivou a célebre resposta dos soldados ucranianos ao pedido de rendição russo: “Navio de guerra russo, vai-te foder.”

Ataques-relâmpago com motas elétricas

A capacidade de saber onde está o inimigo e de o surpreender é um dos aspetos mais importantes que um exército moderno pode ter. Três meses depois do início da invasão russa, as forças armadas ucranianas receberam uma máquina que ajudou a garantir o tão desejado “elemento surpresa”: uma moto elétrica produzida no próprio país, com baterias feitas com os restos de cigarros eletrónicos.

Os soldados ucranianos já estão a utilizar estas motas elétricas fabricadas pela empresa Eleek. São descritas como o instrumento perfeito para missões de reconhecimento por serem pequenas, leves, rápidas e, acima de tudo, muito silenciosas. Mas a sua versatilidade também é uma mais valia e algumas unidades que as receberam utilizam-nas para entregar medicamentos na frente de batalha ou em ações de desminagem.

Também há comandantes ucranianos a defender que estes veículos são perfeitos para serem utilizados pelos seus atiradores furtivos, que precisam de movimentar-se rapidamente, em silêncio, alternando de posição a cada cinco minutos, antes que as tropas inimigas identifiquem as suas posições. Além disso, o facto de não ser uma mota com um motor de combustão interna, faz com que sejam perfeitas para não serem detetadas pelas câmaras térmicas dos drones russos.

Os primeiros exemplares foram mesmo fabricados no interior de um bunker, onde criaram uma bateria com baterias de lítio que ainda estavam em stock. Quando estas acabaram, recorreram a uma campanha nas redes sociais para recolher cigarros eletrónicos utilizados para conseguir os componentes que faltavam.

O produto final é uma máquina de cor verde militar que atinge os 88 quilómetros por hora, com uma autonomia de 150 quilómetros. A versão entregue ao exército não tem espelhos retrovisores, nem piscas, por serem considerados desnecessários para as funções que vão desempenhar.

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