"Aproxima-se um outono muito intenso". Como a Ucrânia se está a preparar para a guerra no inverno

30 ago, 07:00
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

Há mais de um mês que Kiev prepara o campo de batalha de forma a ser mais fácil lançar uma ofensiva numa situação mais vantajosa

Durante anos foi reconhecido por muitos como o general mais poderoso da Rússia, fazendo alguns dos exércitos mais temidos do mundo cair a seus pés. Agora, quando se aproxima uma nova fase da guerra na Ucrânia, muitos temem o reaparecimento do “General Inverno”. Com duas forças habituadas a lutar no frio, o inverno pode levar ao congelar do conflito, mas, até lá, a guerra pode intensificar-se, com a Ucrânia a querer reconquistar o máximo de território antes da queda das primeiras neves.

“Antes de chegar ao inverno, aproxima-se um outono muito intenso. Os dois lados vão querer fazer avanços antes da chegada do frio. Vamos ter uma intensificação do conflito nestes dois meses de setembro e outubro. O objetivo será tomar pontos importantes nos próximos meses”, antecipa à CNN Portugal o major-general Agostinho Costa.

As temperaturas médias do inverno ucraniano costumam atingir em média os -10º C. Nesta altura, em que a neve é bastante intensa, manter uma posição defensiva é muito mais favorável, uma vez que a capacidade de abastecer os soldados e de realizar ataques com veículos blindados fica mais limitada. No início na ofensiva russa, no final do mês de fevereiro, as temperaturas que se faziam sentir foram o suficiente para que dezenas de soldados russos fossem gravemente feridos com queimaduras de frio, que obrigaram a que tivessem de amputar as partes do corpo atingidas.

Estes fatores levam a um grande desgaste das forças durante ações militares. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal destacam também que um inverno rigoroso vai restringir também o emprego de meios aéreos e dos ativos de vigilância e controlo de fogo como os drones (utilizados pela Ucrânia com grande eficácia).

“O período mais crítico é o pico de inverno. Convém perceber que inverno vamos ter pela frente. Tradicionalmente, neva bastante. Vai ter muita influência na mobilidade no terreno e o emprego dos meios aéreos e dos ativos de vigilância, por causa das condições meteorológicas”, explica à CNN Portugal um consultor da área da Defesa que não quis ser identificado.

Este cenário faz com que a Ucrânia queira recuperar território o mais rápido possível, particularmente numa altura em que se multiplicam as vozes no Ocidente que questionam os efeitos do apoio a Kiev nos preços da energia, que não param de subir. “A Ucrânia precisa de uma vitória decisiva e clara para apresentar aos parceiros ocidentais. Precisam de mostrar resultados no campo de batalha para justificar as dificuldades que estes estão a sentir economicamente”, refere a fonte.

E parece ser isso mesmo que as forças ucranianas começaram por fazer esta segunda-feira de manhã. Corriam as primeiras horas da manhã e a Ucrânia começavam a surgir os primeiros relatos de uma operação militar na região de Kherson, no sul do país, após várias semanas de ataques na retaguarda, com particular destaque aos vários depósitos de munições atingidos pelo sistema de lança-foguetes múltiplos, HIMARS. As forças de Kiev terão levado a cabo um ataque em quatro direções na frente sul e garantem que, em pelo menos uma direção, romperam a primeira linha de defesa russa. 

A provar-se uma contra-ofensiva em larga escala e a obter sucesso no terreno, pode tornar-se um golpe fatal para as aspirações de Moscovo no terreno. Para os especialistas, um um possível colapso das forças russas a sul pode mesmo acabar por representar “um problema existencial para o regime russo”.

“A Ucrânia está a tentar aproveitar e dar seguimento ao que tem vindo a fazer nas últimas semanas. Há mais de um mês que tem vindo a preparar o campo de batalha de forma a ser mais fácil a lançar uma ofensiva numa situação mais vantajosa. É isso que os ucranianos têm vindo a fazer nos últimos meses com o HIMARS. Depósitos de munições, linhas de comunicações e meios aéreos, como o ataque ao aeroporto de Saki”, refere.

Segundo o governo russo, “esta nova tentativa de operações ofensivas do inimigo falhou miseravelmente" e "unidades do Exército ucraniano sofreram pesadas perdas devido à defesa ativa das tropas russas".

Tudo isto antes da descida abrupta das temperaturas. Mas antes da chegada do “General Inverno”, há a Rasputitsa, a época das chuvas que antecede o inverno (e também o sucede) e que torna o terreno da Ucrânia num pesadelo lamacento. As estradas de terra batida tornam-se autênticos obstáculos, com os pesados veículos blindads a ficarem enterrados na lama, gerando avarias e incapacitando os restantes veículos de passar. Um problema para os dois lados, mas que, nesta fase da guerra, pode afetar mais a Ucrânia, que precisa permanentemente de material de guerra.

“A Ucrânia tem um problema: tem as pessoas, mas falta-lhe o material. A Rússia tem material, mas falta-lhe o pessoal. Se a Ucrânia receber mais recursos pode colocar a Rússia numa posição muito difícil”, sublinha o consultor da área da Defesa.

Inverno, uma pausa operacional?

Quando a neve é muito intensa e atinge uma altura considerável, a infantaria fica obrigada a utilizar esquis ou sapatos próprios para a neve de forma a conseguir manter a mobilidade. Para os soldados, passa também a ser mais difícil escavar e construir posições defensivas, uma vez que o chão se torna mais duro e obriga ao uso de explosivos para abrir trincheiras.

Os dois lados querem chegar a esta fase da guerra com as suas posições bem definidas e com as suas trincheiras bem preparadas. Por isso, é esperado que, nesta fase, os ataques aos centros de abastecimento se tornem uma prioridade por parte dos dois lados, de modo a enfraquecerem a capacidade de lutar do outro lado através da falta de munições, alimentos e combustível.

“O inverno vai ter impacto. Se as partes atingirem os seus objetivos é possível ver uma pausa no inverno. A Ucrânia não quer que os russos deem mais um passo e não quer que eles se preparem. Até lá, vão fazer este tipo de ações, como esta operação em Kherson”, defende o major-general Agostinho Costa.

Para o comentador da CNN Portugal, é provável que os russos tentem ocupar o resto da província de Donetsk ou tentem chegar até à Transnístria, antes do início do inverno. Porém, o major-general levanta sérias dúvidas quanto ao sucesso dessas ofensivas, uma vez que a defesa ucraniana “tem tido uma excelente capacidade de dificultar as operações militares russas”.

Assim que chegue o clima mais adverso, Agostinho Costa antecipa um cenário em que os dois lados solidificam as suas posições e preparam-se para uma guerra de trincheiras e para uma possível ofensiva no princípio da primavera.

“No início, tivemos um cheirinho do que poderá ser a guerra no inverno. A ideia que tenho é que o grau e a intensidade dos combates vão reduzir-se. Os dois lados podem aproveitar o inverno para solidificar as linhas, mas só se atingirem os objetivos a que se propõem. Ambas as partes vão tentar atingir vitórias operacionais até ao inverno, para depois entrar numa guerra de posição”, considera.

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