O heroísmo de Zelensky está a esbarrar nas linhas vermelhas do Ocidente (análise)

CNN , Análise de Stephen Collinson
8 mar, 17:25
O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky
(AP Photo/Markus Schreiber)

 O Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky é uma espécie de consciência moral do Ocidente, com os seus comentários diários em vídeo em que destaca o heroísmo do seu país na resistência a uma invasão russa que degenerou em ataques sanguinários contra civis.

Mas enquanto Zelensky vai tornando impossível desviar o olhar da agonia do seu país, está cada vez mais a avançar de cabeça contra a dura realidade da guerra: o presidente Joe Biden e os líderes europeus veem-se perante linhas vermelhas políticas e geopolíticas que simplesmente não preocupam o presidente russo Vladimir Putin, um tirano armado com armas nucleares, no exercício da sua incessante destruição.

O aumento do preço do petróleo também está a interferir na equação implícita da guerra: irá a pressão ocidental estrangular a economia russa e forçar Putin a agir antes que a Ucrânia e o seu povo sejam destruídos ou levados a um êxodo de refugiados em massa? E durante quanto tempo conseguirá a opinião pública nos EUA e na Europa manter-se firme?

Os apelos comoventes de Zelensky levaram legisladores nos EUA e na Europa a chorarem durante videochamadas, ressuscitaram o Ocidente da sua letargia pós-Guerra Fria e cativaram o mundo com a sua defesa da democracia. Ele é a antítese da crueldade de Putin. Se alguma vez houve um homem que mudou o mundo, poucos o terão feito tão rapidamente como Zelensky.

Num dos seus recentes vídeos, na sua campanha de quase três semanas de inspiração e pressão para que o Ocidente salve um país que não faz parte da NATO, Zelensky deixou o seu abrigo e apareceu de forma provocatória no seu gabinete governamental, elogiando os ucranianos que têm protestado contra as tropas russas.

“(Eles dizem), 'Estou aqui, é minha, e não vou abrir mão dela. Da minha cidade. Da minha comunidade. Da minha Ucrânia”, disse Zelensky na mensagem transmitida na segunda-feira à noite.

Os episódios diários deste ator de comédia transformado em herói trágico que narram a tentativa de Putin de destruir a Ucrânia têm sido importantíssimos para o esforço global de transformar a Rússia num Estado pária, o qual tem sido mais intenso e mais rápido do que qualquer pessoa previa. Zelensky tem atraído de forma eficaz o Ocidente para uma guerra por procuração contra Moscovo, com os EUA e os aliados a enviarem mísseis antitanque e antiaéreos para a Ucrânia. As sanções internacionais têm pulverizado a economia russa, levaram a moeda do país, o rublo, a uma desvalorização recorde e poderão dar origem a alguma insatisfação em relação a Putin dentro da Rússia e comprometer a sua capacidade de abastecer e reforçar as suas tropas na Ucrânia. Os oligarcas em redor do líder russo já viram os seus jatos, superiates e fortunas serem apreendidos pelo Ocidente numa tentativa de aumentar a pressão no seio do regime do líder russo.

Mas quase duas semanas após o início da invasão, a questão para o Ocidente prende-se com as opções ainda existentes para intensificar a pressão económica que vai aumentando sobre a Rússia, ao mesmo tempo que procura evitar uma escalada militar paralela.

E há sinais crescentes de que, apesar de todo o seu heroísmo, Zelensky possa estar a esbarrar contra a prudência do Ocidente que deseja evitar espoletar o pior dos cenários e desencadear uma terceira guerra mundial.

Mas Zelensky ainda não desistiu de pressionar o presidente dos EUA, dizendo numa entrevista no programa “World News Tonight with David Muir” da ABC na segunda-feira: “Tenho a certeza de que o Presidente pode fazer mais. Estou certo de que sim, e gostaria de acreditar nisso. Ele é capaz.”

“Todos pensam que estamos longe da América ou do Canadá. Não, estamos numa zona de liberdade”, disse Zelensky na entrevista, fazendo notar que a guerra na Ucrânia pode vir a afetar em breve o resto do mundo. “E numa altura em que os limites dos direitos e liberdades estão a ser violados e pisados, nós temos de nos proteger. Porque nós seremos os primeiros a cair. Vocês serão os segundos. Porque quanto mais esta besta comer, mais vai querer comer.”

A zona de exclusão aérea não levanta voo

Mas os repetidos apelos de Zelensky para uma zona de exclusão aérea têm sido rejeitados pelas potências ocidentais desesperadas em evitar um confronto direto com as forças russas.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, durante uma visita aos estados-membros da NATO no Báltico, explicou categoricamente na segunda-feira porque é que uma missão de proteção do espaço aéreo ucraniano não pode avançar.

“Isso significa termos de abater um avião russo que viole a zona declarada como interdita. E esse gesto acarreta um risco considerável de criar um conflito direto entre os nossos países e a Rússia e, por conseguinte, uma guerra mais alargada, algo que não é do interesse de ninguém”, disse.

O plano alternativo de Zelensky apelava a que os antigos estados do Pacto de Varsóvia fornecessem aviões militares da altura da Guerra Fria que os pilotos ucranianos soubessem pilotar. Ele implorou aos legisladores americanos no fim de semana para que enviassem jatos.

Mas esse plano pode estar a perder força perante o medo de que a fúria de Putin contra os caças da era soviética a dispararem contra as tropas russas possa arrastar para a guerra os membros da NATO na Europa de Leste. A chancelaria do primeiro-ministro polaco disse num tweet no domingo que “a Polónia não enviará os seus caças para a #Ucrânia” nem permitirá que o país use os seus aeroportos. E a assessora de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, na segunda-feira minimizou a ideia de que os EUA poderiam “reabastecer” rapidamente a Força Aérea Polaca com os seus próprios jatos se Varsóvia decidisse enviar jatos para a Ucrânia.

“Existe uma base aérea da NATO na Polónia. Se tivermos aviões a partir de lá, isso pode dar azo a uma situação complicada. Que outras opções é que existem?” disse Psaki. “Não estamos, obviamente, a impedir, a bloquear ou a desencorajar a Polónia. Mas a questão não se trata apenas de movimentar alguns aviões.”

Os comentários de Psaki foram o último sinal de que, embora o Ocidente tenha imposto sanções extremas à Rússia numa tentativa de salvar a Ucrânia, os seus líderes continuam cautelosos relativamente ao desencadeamento de uma guerra que poderia transformar-se num desastroso conflito nuclear.

O embargo à exportação de energia enfrenta dificuldades na Europa

Outra opção discutida nos últimos dias para apertar o cerco em torno de Putin tem sido o embargo às exportações russas de petróleo e gás. Paradoxalmente, as sanções que ajudaram os preços do petróleo a subir estão a enviar mais dinheiro para os cofres de Moscovo e a ajudarem a Rússia a fazer a guerra e, pelo menos, a minorar algum do impacto dessas mesmas sanções. Deste modo, a ideia de uma proibição de comprar petróleo russo é altamente atraente para Washington, especialmente porque o petróleo russo representava menos de 2% de todas as importações de petróleo dos EUA em dezembro.

Zelensky fez o seu próprio apelo a um boicote à energia russa. Tinha pedido, “em particular, a rejeição do petróleo e dos produtos petrolíferos da Rússia” numa declaração em vídeo na segunda-feira. “A isto pode chamar-se um embargo. Ou apenas moralidade - recusar simplesmente dar dinheiro a um terrorista”, disse.

Mas o seu apelo parece obrigar a um passo demasiado grande para a Europa, que tem sido fortemente criticada em Washington por décadas de políticas que a tornaram dependente do gás e petróleo russos e vulnerável à extorsão num momento de alta tensão internacional.

O chanceler alemão Olaf Scholz está a traçar uma linha. O novo líder tinha anteriormente agradado aos líderes americanos com a sua disponibilidade para transformar décadas de política externa de Berlim no sentido de punir a invasão russa da Ucrânia - inclusive enviando armas de ataque para uma zona de conflito e interrompendo o funcionamento do gasoduto Nord Stream 2.

Mas Scholz disse na segunda-feira que a energia russa era um “imperativo essencial” para a Europa. A Hungria também disse que não irá apoiar um embargo ao petróleo e gás russos. Moscovo representa 40% das necessidades de gás da União Europeia e 27% das suas importações de petróleo.

Existe um forte apoio no Congresso para a elaboração de legislação que proíba a importação de petróleo da Rússia para os EUA. Mas qualquer ação unilateral será provavelmente apenas simbólica, a menos que a Europa se junte.

A uniformização das sanções relativas ao petróleo russo poderia ser uma medida crucial, pois impediria a sua utilização por parte de países de todo o mundo que não quisessem entrar em conflito com essas determinações. Mas dada a dimensão da produção petrolífera da Rússia - e a dependência da Europa - as consequências financeiras e políticas podem ser enormes.

Biden reavalia lista de párias dos EUA para punir Putin

O dilema relativamente ao petróleo russo levou o governo de Biden a considerar reorganizar a sua lista de párias a nível mundial na sua obstinação em punir Putin.

Natasha Bertrand, da CNN, relata que as autoridades norte-americanas estiveram na Venezuela durante o fim de semana para conversações com vista a permitir que uma nação debaixo de sanções por atropelos à democracia possa vender o seu petróleo nos mercados internacionais, com o intuito de aliviar o aumento dos preços. Um possível novo acordo nuclear internacional com o Irão -- que substituísse o que foi rasgado pelo ex-presidente Donald Trump -- poderia ter um efeito semelhante. E Biden poderá ter de viajar este ano para a Arábia Saudita, um país importante ao nível da produção de petróleo, depois de ter mantido o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman à distância na sequência das acusações que penderam sobre o reino relativas ao assassinato e desmembramento do colunista do Washington Post Jamal Khashoggi em 2018.

Cada uma destes encontros tem a sua lógica interna. Mas a importância destas nações na produção global de petróleo deu-lhes uma nova relevância e uma nova abertura após a invasão russa da Ucrânia.

Biden e os líderes europeus confrontados com os preços elevados da energia têm restrições políticas a nível interno. Nos Estados Unidos, o preço da gasolina atingiu um valor recorde de 4,14 dólares por galão [3,79 litros] na segunda-feira - um patamar perigoso para Biden e outros democratas num ano com eleições intercalares. Embora as sondagens tenham indicado um forte apoio às sanções contra a Rússia, o gigantesco aumento no preço dos combustíveis irá ser posto à prova da opinião dos americanos.

Embora os republicanos tenham apoiado em grande parte a linha dura de Biden sobre Putin, não o têm poupado na questão do preço dos combustíveis, argumentando que Biden preparou os EUA para o fracasso, ao tentar fazer a transição para uma política amiga do clima com baixas emissões de carbono.

Aproveitaram ainda as sugestões de que os EUA poderiam estar a falar com os seus inimigos numa tentativa de persuadi-los a produzir mais petróleo e assim isolar ainda mais um inimigo maior, Putin.

O senador Rick Scott, da Flórida, que está a comandar a campanha dos republicanos no Senado, disse na segunda-feira: “Temos de parar de importar petróleo russo, ponto final. E não devíamos estar a ir para a Venezuela. Quando é que vamos aprender que não podemos confiar nestes bandidos?”

A crescente controvérsia em Washington é um sinal de alerta para Zelensky, e também será observada em Moscovo.

Quanto mais longa for a guerra na Ucrânia, maior será a probabilidade da pressão política e estratégica se vir também a acumular em capitais de países membros da NATO. O destino da Ucrânia poderá resumir-se a uma pergunta amarga: Quem aguentará mais tempo, o povo corajoso da Ucrânia e o seu presidente, a economia russa, ou a opinião pública ocidental e a tolerância dos seus líderes para uma tensão elevada com um presidente russo que faz ameaças nucleares?

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