Navios russos com cereais ucranianos roubados estão a ser recusados nos portos do Mediterrâneo - mas há uma exceção

CNN , Tim Lister e Sanyo Fylyppov
13 mai, 22:00
O cargueiro Matros Pozynich é visto no porto sírio de Latakia.

Um navio mercante russo carregado com cereais roubados na Ucrânia foi rejeitado em pelo menos um porto do Mediterrâneo e está agora no porto sírio de Latakia, segundo fontes marítimas e autoridades ucranianas.

A CNN identificou o navio como o cargueiro Matros Pozynich.

A 27 de abril, o navio atracou na costa da Crimeia e desligou o seu transmissor. No dia seguinte, foi visto no porto de Sebastopol, o principal porto da Crimeia, segundo fotografias e imagens de satélite.

O Matros Pozynich é um dos três navios envolvidos no comércio de cereais roubados.

A Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, produz pouco trigo devido à falta de irrigação. Mas as regiões ucranianas ao norte, ocupadas pelas forças russas desde o início de março, produzem milhões de toneladas de cereais, todos os anos. As autoridades ucranianas dizem que milhares de toneladas estão a ser transportadas para a Crimeia.

Kateryna Yaresko, jornalista do projeto SeaKrime da publicação online ucraniana Myrotvorets, disse à CNN que o projeto reparou num aumento acentuado nas exportações de cereais de Sebastopol - para cerca de 100.000 toneladas em março e abril.

De Sebastopol, de acordo com as imagens de satélite e dados de rastreamento revistos ​​pela CNN, o Matros Pozynich transitou pelo Bósforo e seguiu para o porto egípcio de Alexandria. Estava carregado com quase 30.000 toneladas de trigo (ucraniano), segundo as autoridades ucranianas.

Mas os ucranianos estavam um passo à frente. As autoridades dizem que o Egito foi avisado de que os cereais eram roubados; a carga foi recusada. O Pozynich seguiu em direção à capital libanesa, Beirute, onde obteve o mesmo resultado.

O Matros Pozynich voltou a desligar o seu transmissor a 5 de maio, mas imagens do site Tankertrackers.com e da Maxar Technologies mostram que viajou para o porto sírio de Latakia.

O regime sírio tem uma relação estreita com a Rússia e é frequente os militares russos estarem em Latakia. Na verdade, o Matros Pozynich tem o nome de um soldado russo morto na Síria em 2015.

Mikhail Voytenko, editor-chefe do Boletim Marítimo, disse à CNN que os cereais podiam ser transferidos para outro navio, em Latakia, para camuflar a sua origem. “Quando o porto de destino começa a mudar sem um motivo sério, é mais uma prova de contrabando”, disse ele.

Vista aproximada do Matros Pozynich no porto de Latakia. O navio foi batizado em homenagem a um soldado russo morto na Síria em 2015.

Nos primeiros comentários sobre a exportação ilícita de cereais ucranianos, o gabinete de informações do Ministério da Defesa disse na terça-feira que “uma parte significativa dos cereais roubados da Ucrânia está em navios que navegam sob bandeira russa nas águas do Mediterrâneo.”

“O destino mais provável da carga é a Síria. Os cereais podem ser contrabandeados de lá para outros países do Médio Oriente”, disse.

Os dados de expedição mostram que o Matros Pozynich é um dos três cargueiros registados sob uma empresa chamada Crane Marine Contractor, com sede em Astrakhan, na Rússia. A empresa não está sob sanções internacionais.

Foram infrutíferos os esforços da CNN para contactar a empresa.

Yaresko diz que o projeto SeaKrime identificou os verdadeiros proprietários dos três navios como uma das 29 empresas sob a égide de uma grande corporação russa, cujas outras entidades foram sancionadas pelos Estados Unidos logo após a invasão russa.

Mais roubos de cereais

O Ministério da Defesa da Ucrânia estima que pelo menos 400.000 toneladas de cereais tenham sido roubados e retirados da Ucrânia desde a invasão. Mykola Solsky, ministro da Política Agrária e Alimentação da Ucrânia, disse esta semana que são “enviados de forma organizada para a Crimeia. É um grande negócio que é supervisionado por pessoas do mais alto nível.”

A CNN informou na semana passada que camiões com matrículas da Crimeia roubaram 1500 toneladas de cereais de silos de armazenamento em Kherson. Em Zaporizhzhia, camiões com o símbolo do “Z” branco dos militares russos foram vistos a transportar cereais para a Crimeia, depois de o principal silo de cereais da cidade ter sido completamente esvaziado.

Esta semana, as autoridades ucranianas relataram mais roubos de cereais por parte das forças de ocupação. O gabinete de informações ucraniano disse que, numa zona de Zaporizhzhia, os cereais e as sementes de girassol armazenados estavam a ser preparados para serem transportados para a Rússia. Uma coluna de camiões russos que transportavam cereais deixou a cidade de Enerhodar - também em Zaporizhzhia – escoltados por militares russos, afirmou o gabinete.

Enquanto os navios russos são aparentemente capazes de transportar os cereais ucranianos em alto mar, os agricultores ucranianos têm grandes dificuldades em exportar os seus produtos. Uma grande parte partiria de Odessa. Embora ainda esteja sob o controlo dos ucranianos, Odessa foi alvo de frequentes ataques de mísseis e uma boa parte do Mar Negro está interdita aos navios mercantes.

Os exportadores ucranianos desviaram alguns cereais por via ferroviária para a Roménia, como a CNN informou na semana passada. Mas esta dificilmente é uma solução para aquela que se está a tornar uma crise de abastecimento que já afeta os mercados mundiais.

Samantha Power, administradora da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, publicou esta semana no Twitter: “A guerra de Putin está a causar o caos no abastecimento de alimentos; a Ucrânia é o 4º exportador mundial de milho e o 5º exportador de trigo.”

Habitualmente, a Ucrânia e a Rússia fornecem cerca de 30% das exportações mundiais de trigo, muitas das quais vão para os países mais pobres do mundo. Os preços globais dos alimentos atingiram um recorde em março, segundo as Nações Unidas, impulsionados em grande parte pela guerra na Ucrânia. A seca nas áreas de cultivo de trigo em França e no Canadá ameaça agravar uma situação de oferta já complicada.

O presidente Volodymyr Zelensky disse na terça-feira que “sem as nossas exportações agrícolas, dezenas de países de diferentes partes do mundo já estão à beira da escassez de alimentos.”

No mesmo dia, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, esteve em Odessa com o primeiro-ministro ucraniano Denys Shymal, a observar as enormes quantidades de cereais armazenadas no porto.

Publicou fotografias no Twitter, dizendo: “Vi silos cheios de cereais, trigo e milho prontos para exportação. Estes alimentos tão necessários estão retidos por causa da guerra russa e do bloqueio dos portos do Mar Negro. As consequências são dramáticas para os países vulneráveis.”

A Trading Economics sublinhou na quarta-feira que “os preços do trigo estão 31% mais altos do que antes da invasão russa, pois as exportações interrompidas no Mar Negro reduziram significativamente o abastecimento mundial.”

Quanto aos russos, parecem prontos para se adaptarem às novas realidades dos mercados mundiais. O Sindicato de Cereais da Rússia tem uma conferência marcada para junho. Uma das sessões, segundo a conta do Instagram do sindicato, é: “Restrições das sanções - como o setor dos cereais se está a adaptar à nova realidade e porque está o estado a reagir a uma mudança da situação a uma velocidade sem precedentes.”

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