EUA acusam Coreia do Norte de tentar ocultar carregamentos de munições para a Rússia

CNN , Kylie Atwood e Katie Bo Lillis
2 nov, 18:58
Soldados, sentados num veículo que transporta foguetes, seguram as suas armas ao passarem pelo posto com o líder norte-coreano Kim Jong-un durante um desfile militar que assinalava o 105º aniversário de nascimento do pai fundador do país, Kim Il-sung, em Pyongyang, a 15 de abril de 2017

Os EUA acusam a Coreia do Norte de fornecer secretamente à Rússia material de artilharia para a guerra com a Ucrânia, ocultando o local para onde está a ser transportado, de acordo com informações recentemente reveladas. 

As autoridades norte-americanas acreditam que os carregamentos sub-reptícios da Coreia do Norte - juntamente com drones e outro armamento que a Rússia adquiriu ao Irão - são mais uma prova de que mesmo os arsenais convencionais de artilharia de Moscovo diminuíram durante os oito meses de combate. Os serviços secretos dos EUA afirmam que a Coreia do Norte está a tentar esconder os carregamentos, dando a entender que as munições estão a ser enviadas para países do Médio Oriente ou do Norte de África.

Esta informação de última hora chega cerca de dois meses após os serviços de inteligência dos EUA terem afirmado que a Rússia estava a meio do processo de compra de milhões de rockets e cartuchos de artilharia da Coreia do Norte para uso no campo de batalha, informação que foi relatada pela CNN e por outros meios de comunicação na altura. 

“Em setembro, a RPDC (República Popular Democrática da Coreia) negou publicamente que tencionava fornecer munições à Rússia”, referiu o coordenador do Conselho Nacional de Segurança para as comunicações estratégicas, John Kirby, numa declaração à CNN. “No entanto, as nossas informações indicam que a RPDC está a fornecer secretamente à guerra da Rússia na Ucrânia um número significativo de artilharia, ao mesmo tempo que omite o verdadeiro destino dos carregamentos de armas, dando a crer que estão a ser enviados para países do Médio Oriente ou do Norte de África.”

As autoridades não forneceram provas para apoiar as novas acusações. As informações reveladas também não forneceram pormenores sobre o número de armas que estão nos carregamentos, ou como seriam pagas.

“Continuaremos a controlar a situação para saber se estes carregamentos estão a ser recebidos”, afirmou Kirby, ressaltando que a Rússia tem continuado a recorrer a intervenientes como a Coreia do Norte e o Irão para manter a sua guerra agressiva na Ucrânia “no seio da escassez de abastecimento e da eficácia das sanções internacionais”.

Esforço contínuo para reabastecer a artilharia russa

No entanto, as autoridades governamentais americanas, referiram publicamente o alegado acordo como prova de que a Rússia está a ficar sem armas para continuar a guerra.

Ainda há duas semanas, o Diretor da Inteligência Nacional (DNI), Avril Haines, argumentou que “os controlos de exportação estão a forçar a Rússia a recorrer a países como o Irão e a Coreia do Norte para obter fornecimentos, incluindo UAV, cartuchos de artilharia e rockets”.

Kirby afirmou na quarta-feira que o apoio do Irão e da Coreia do Norte “não vai mudar o curso da guerra”, sendo que os EUA continuam empenhados em fornecer à Ucrânia assistência contínua em matéria de segurança.

Mas os carregamentos podem agora ajudar a Rússia a reforçar uma parte importante do seu esforço de guerra: uma luta de artilharia excruciante na linha da frente.

“Pode ser um desenvolvimento significativo porque um dos desafios para a Rússia tem sido manter a sua artilharia em ação”, explicou Michael Kofman, o diretor do Programa de Estudos da Rússia no Centro de Análises Navais, que enfatizou que não tinha conhecimento da inteligência subjacente. “O exército russo provavelmente já deve ter gastado milhões de cartuchos por esta altura.”

A Rússia tem estado “a compensar um défice de mão-de-obra com uma produção muito superior de fogo”, disse Kofman, uma estratégia que, segundo o mesmo, “provavelmente tem sido muito dispendiosa no fornecimento de munições” e deixou a Rússia, tal como a Ucrânia, à procura de países com fornecimentos de artilharia de calibre soviético compatíveis com os seus sistemas, a fim de sustentar a guerra.

Nas semanas antes de se ter conhecimento desta nova informação, alguns militares e oficiais dos serviços secretos começaram a acreditar que a Coreia do Norte estava a recuar no seu acordo de fornecer armamento à Rússia, explicaram diversas fontes governamentais americanas à CNN.

Algumas entidades começaram a acreditar numa vitória da estratégia da administração Biden em revelar, de forma seletiva, e divulgar algumas informações confidenciais sobre a prossecução da guerra pela Rússia, acreditando que, quando os Estados Unidos deram a conhecer o acordo, lançaram uma atenção indesejada sobre uma transação que Pyongyang não queria que fosse divulgada.

Mas agora as autoridades norte-americanas afirmam que, embora a Coreia do Norte negue, acreditam que o regime desleal avançou com o seu apoio a Moscovo, uma vez que a guerra parece estar prestes a entrar no seu segundo ano.

As autoridades norte-americanas argumentaram publicamente que a Rússia foi forçada a recorrer à Coreia do Norte e ao Irão para o armamento, porque queimou as suas reservas num conflito que se prolongou por muitos mais meses do que o previsto, bem como porque os controlos de exportação norte-americanos e ocidentais tornaram mais difícil para a Rússia adquirir os componentes tecnológicos de que necessita para reconstruir as suas reservas por si só.

As autoridades dos EUA afirmaram que irão trabalhar no sentido de expor e contrariar os carregamentos para a Rússia provenientes do Irão e da Coreia do Norte e chegar às redes que permitem esses carregamentos, mas não deixaram claro de que maneira tencionam fazê-lo.

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, afirmou na terça-feira que os militares norte-americanos “se empenharam em interdições” de carregamentos de armas no passado, mas não forneceu mais informações sobre se estão agora a ser consideradas interdições neste fluxo de armas para a Rússia.

"Estão ansiosos por munições, de onde quer que elas venham"

A recente informação de que a Rússia está a adquirir munições de artilharia da Coreia do Norte sugere que as suas carências são mais profundas do que apenas munições mais sofisticadas e munições guiadas de precisão, que os EUA e os oficiais ocidentais têm já vindo a dar a entender que são um ponto fraco no arsenal russo. Isto estende-se também à artilharia de base.

“Os russos, segundo muitos relatos, estão realmente a desgastar-se no que diz respeito a alguns desses elementos de que necessitam para prosseguir a sua guerra contra a Ucrânia”, referiu Price na terça-feira, apontando para controlos de exportação e sanções que privaram a Rússia dos meios para fabricar determinadas armas.

O estado concreto dos stocks de munições convencionais da Rússia não é conhecido publicamente, mas a Rússia está “a queimar dezenas de milhares de munições por dia”, afirmou Adam Mount, o diretor do Projeto de Postura de Defesa da Federação de Cientistas Americanos, especializado na Coreia do Norte. “Eles estão ansiosos por munições, de onde quer que elas venham.” 

Durante o verão, a Rússia conseguiu fazer alguns progressos em certas partes da Ucrânia, através de uma campanha de artilharia punitiva. Mas, desde então, a artilharia fornecida pelo Ocidente tem contribuído para uma contraofensiva bem-sucedida por parte da Ucrânia, que recuperou grandes extensões de território anteriormente ocupado pela Rússia.

A Coreia do Norte seria provavelmente capaz de fornecer à Rússia cartuchos de artilharia de 122 ou 152 milímetros e artilharia tubular ou artilharia de lança-foguetes múltiplos que seriam compatíveis com os sistemas da Rússia, afirmou Bruce Klingner, um antigo analista coreano da CIA que está agora na Heritage Foundation.

Mas, por enquanto, não é claro o impacto que os cartuchos de artilharia da Coreia do Norte terão para a Rússia no campo de batalha.

Em 2010, a Coreia do Norte disparou 170 cartuchos de 122 milímetros na ilha Yeonpyeong da Coreia do Sul. Menos de metade atingiu a ilha, e dos que atingiram, cerca de um quarto não detonou - uma elevada taxa de falhas que “sugere que algumas munições de artilharia fabricadas pela RPDC, especialmente (vários lançadores de foguetes) as redondas, sofrem de um controlo de qualidade deficiente durante o fabrico ou que as condições e padrões de armazenamento são deficientes”, de acordo com um relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de 2016.

“A última vez que fizeram uso destes sistemas ficou-se a saber que eles eram bastante imprecisos”, referiu Mount. “Seria de esperar que estes sistemas da era soviética estivessem a envelhecer e que, por isso, vão começar a deixar de funcionar.”

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados