Com o aproximar do inverno, Putin tem uma nova tática

CNN , Opinião de John Lough
1 nov, 10:00
Putin

OPINIÃO | Com as noites mais pequenas à medida que o inverno se aproxima, as luzes apagam-se por toda a Ucrânia

Com as noites mais pequenas à medida que o inverno se aproxima, as luzes apagam-se por toda a Ucrânia.

Esta semana, a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Iryna Vereshchuk, alertou os cidadãos que fugiram do país, aquando da invasão da Rússia, para não regressarem a casa este inverno, pois há apagões causados por ataques à rede elétrica.

"Temos de sobreviver a este inverno", disse ela, acrescentando que "[se as pessoas voltarem] a rede elétrica poderá falhar".

O racionamento da eletricidade tornou-se a nova realidade sombria da guerra, à medida que a Rússia tenta destruir a capacidade económica da Ucrânia e forçar os seus líderes a sentarem-se à mesa das negociações.

Uma mulher olha pela janela durante uma falha de energia em Borodyanka, região de Kiev, no dia 20 de outubro. Os ataques aéreos cortaram o fornecimento de energia e água a milhares de ucranianos no início da semana.

A Rússia atingiu infraestruturas críticas da Ucrânia com uma série de ataques com mísseis e drones nas últimas semanas. Trinta por cento das centrais elétricas do país foram destruídas, segundo o Presidente Volodymyr Zelensky.

O ministro da Energia avisou que a Ucrânia pode precisar de importar eletricidade para sobreviver ao inverno, quando até há pouco tempo exportava eletricidade para a União Europeia (UE).

Aumento da pressão

O fraco desempenho do exército russo no campo de batalha, particularmente nos últimos meses, fez com que Vladimir Putin e os seus generais mudassem de tática. À medida que as forças ucranianas continuam a avançar para recuperar a cidade estrategicamente importante de Kherson, a campanha militar russa passou a privar civis de eletricidade e aquecimento.

Enquanto os ucranianos se abastecem de velas e lenha em preparação para cortes de energia durante as temperaturas de inverno que regularmente caem abaixo de 20 graus negativos, os líderes ocidentais têm de ponderar sobre o que podem fazer para impedir Putin de atingir civis ucranianos e criar uma catástrofe humanitária.

Para os países europeus, existe o receio de que a devastação das infraestruturas energéticas da Ucrânia possa afetar muito a economia e aumentar drasticamente o número de refugiados rumo ao ocidente. Estima-se que oito milhões de ucranianos tenham fugido para países da UE para fugir à guerra, segundo os dados dos vistos Schengen.

Cada vez mais Putin terá de combater a guerra com novos meios assimétricos, porque o fraco exército russo corre o risco de perder no campo de batalha e de se tornar ainda mais desmoralizado. A retirada das forças destacadas no nordeste da Ucrânia, em setembro, foi um indicador da fragilidade dos militares russos.

Em contraste, o exército ucraniano continua a mostrar uma resistência maior à que o Kremlin esperava. Os países ocidentais forneceram equipamento e formação suficientes para que a Ucrânia criasse uma forte contraofensiva e ameaçasse recuperar todo o território capturado desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro.

A recente mobilização da Rússia de cerca de 300 mil soldados aparenta ser desordenada, havendo relatos de que alguns foram enviados para a linha da frente sem equipamento adequado ou sem treino. Estes reforços tornar-se-ão rapidamente uma desvantagem e não uma mais-valia se não estiverem motivados para combater.

Para a população russa, a mobilização inicial significa que o conflito na Ucrânia já não é uma abstração vista na televisão sob a forma de uma "operação militar especial", como Putin continua a chamar-lhe. Em vez disso, é uma guerra em que se espera que os russos morram por razões que não são claras nem convincentes.

A energia como uma arma de guerra

O facto de Moscovo atacar centrais elétricas é uma clara violação do direito internacional. O seu objetivo é provocar sofrimento à população civil e persuadir os ucranianos de que o preço de continuarem a combater é demasiado elevado.

Nos primeiros meses da guerra, os ataques com mísseis russos destruíram a maior refinaria de petróleo da Ucrânia e muitas das suas instalações de armazenamento de combustível. O objetivo era impedir que o exército ucraniano movesse os seus veículos. Apesar do transtorno inicial que levou à escassez de gasóleo e gasolina em Kiev e noutras grandes cidades, a Ucrânia encontrou fornecimentos alternativos de vários países da UE que até agora se mantiveram firmes.

A Alemanha - a maior economia europeia que importou 55% do seu gás da Rússia antes da guerra - tem agora gás suficiente armazenado de outras fontes para suportar o inverno sem grandes perturbações.

Como o Ocidente deve responder

Para enfrentar a mais recente escalada de Putin, os governos europeus têm de estar prontos para aceitar mais refugiados a curto prazo. Ao mesmo tempo, os países da NATO devem fornecer mais armamento para reforçar as defesas aéreas da Ucrânia, bem como fornecer os recursos necessários para ajudar os engenheiros ucranianos a reparar os danos causados às centrais elétricas.

Putin está numa corrida desesperada contra o tempo. Quanto mais tempo a guerra durar, maior o risco de as perdas económicas e humanas da Rússia enfraquecerem o seu poder. O apoio à guerra está a diminuir e as sanções ocidentais sem precedentes estão a fazer-se sentir.

A China e a Índia, os aliados mais importantes da Rússia, também expressaram preocupação face às ações de Putin.

Moscovo tenta intimidar o Ocidente com a possibilidade de poder lançar uma arma nuclear na Ucrânia, mas escolheu uma estratégia convencional para tentar inverter a sua sorte no campo de batalha.

Até agora, a Ucrânia lidou bem com os efeitos económicos da guerra. Os serviços básicos, incluindo os transportes e as telecomunicações, continuaram no ativo e, apesar de uma desvalorização de 30%, a moeda não entrou em colapso.

No entanto, o défice orçamental do país está a disparar e prevê-se que atinja os 40 mil milhões de dólares até ao final do ano, o equivalente a 30-40% do PIB.

Com a Rússia focada em destruir o sector energético, a necessidade da Ucrânia de ter apoio macrofinanceiro por parte dos seus aliados ocidentais pode aumentar drasticamente.

O verdadeiro teste do compromisso ocidental com a Ucrânia está por vir. Para que a Ucrânia seja a vencedora desta guerra, os governos ocidentais terão de fornecer ao país os recursos militares e financeiros de que necessita para continuar a combater.

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