“Há um homem que pode acabar a guerra amanhã com um telefonema” - que não é Putin nem Zelensky. Eis as razões por que esse telefonema não acontece

João Guerreiro Rodrigues , Luís Bispo (mapa)
24 out, 07:00
Borodyanka

Vladimir Putin esperava uma guerra rápida, mas, passados oito meses, teme-se que sejam mais - eis os motivos

Era praticamente consensual: a diferença de forças era de tal forma grande que, em poucos dias, os ataques russos vindos do ar, do mar e da terra iam levar ao total colapso das forças ucranianas. Passados oito meses, não só a guerra não acabou como se está a tornar cada vez mais intensa, com cada um dos lados a acreditar que a vitória é possível.

Com uma contraofensiva a produzir sucessos e com promessas de apoio ocidental, a Ucrânia acredita que pode recuperar o território ocupado pelas tropas russas, mas com isso arrastará a guerra por mais tempo. Esse cenário, considera o major-general Agostinho Costa, é dos mais benéficos para o principal aliado de Kiev. “Os Estados Unidos estão indiscutivelmente a ganhar esta guerra. A guerra só acabará quando os EUA entenderem que atingiram os seus objetivos. E os objetivos políticos desta guerra estão a ser atingidos”, afirma o major-general, que acredita que o objetivo de Washington é obrigar Moscovo a desviar todos os seus recursos para a guerra e a cortar relações diplomáticas com o mundo, enfraquecendo o poder do Kremlin a longo prazo.

Para o investigador e professor universitário José Filipe Pinto, especialista em diplomacia e relações internacionais, o apoio ocidental não deve ser tomado como garantido - e aponta que, com o aumentar dos preços devido à crise energética, as populações dos países ocidentais podem exigir um fim ao apoio devido ao designado “cansaço de ajuda”. “Nós presenciamos uma série de manifestações de descontentamento devido ao aumento do custo de vida um pouco por toda a Europa. Esse aumento é um reflexo direto da crise na Ucrânia. Esta pressão vai proporcionar o cansaço - o cansaço da ajuda.”

Este cenário explica o porquê de a Ucrânia querer recuperar território o mais rapidamente possível, particularmente numa altura em que se multiplicam as vozes no Ocidente que questionam os efeitos do apoio a Kiev - nomeadamente os custos da energia, que não param de subir. “A Ucrânia tem de mostrar resultados no campo de batalha para justificar as dificuldades que os ocidentais estão a sentir economicamente”, acrescenta José Filipe Pinto.

Mas um final do conflito terá sempre de passar pela mesa de negociações e a palavra final passará sempre pelos Estados Unidos. “Acabar a guerra está nas mãos dos Estados Unidos. Há um homem que pode acabar a guerra amanhã com um telefonema: Joe Biden. Mas para os Estados Unidos dá jeito que os russos continuem dentro da Ucrânia”, considera o major-general Agostinho Costa.

A maior parte dos soldados não chega a ver o inimigo. "Mas isso tem uma consequência"

Para Kiev, a capacidade de continuar a guerra depende do apoio militar do ocidente. Quanto maior for a ajuda ocidental à Ucrânia, pior será a situação no terreno para Vladimir Putin, que terá de canalizar exclusivamente para a guerra mais recursos de uma economia já bastante fragilizada e com extrema dificuldade em ter acesso a diversos equipamentos e materiais.

“Em termos analíticos, a Ucrânia tem vantagem no que toca ao acesso a capacidade industrial para suster a guerra, mas depende de o ocidente estar suficientemente unido. Nós não estamos a ver uma mobilização da base tecnológica e industrial da Defesa do ocidente suficiente para o nível de atrição que esta guerra está a ter de ambas as partes”, aponta Agostinho Costa.

A verdade é que as chefias militares russas mantêm a tática que têm vindo a aplicar até agora, focando as suas operações de combate em confrontos de artilharia. Os efeitos deste tipo de tática são devastadores, mas tornam qualquer tipo de avanço no terreno muito mais lento. “A maior parte das baixas que se dão presentemente em combate são por artilharia. A maior parte dos soldados não chega a ver o inimigo. Mas esta manobra tem uma consequência: faz com que a campanha seja muito lenta, assente no desgaste”, explica o major-general.

Em certas áreas, como as munições de artilharia, a Rússia beneficia de ter armazenamentos da era soviética capazes de sustentar operações de combate por vários anos, bem como a capacidade de fabricar mais em grande escala. Outros sistemas mais complexos, como tanques e veículos de combate blindados, precisam no entanto de ser substituídos numa escala considerável, uma vez que a Rússia está a perder um número muito elevado deste tipo de mecanismos.

De acordo com a plataforma de verificação militar Oryx, entre veículos destruídos, danificados, abandonados ou capturados, as forças armadas russas já perderam cerca de 1400 tanques e mais de dois mil carros de combate blindados. Quantidades que, mesmo tendo em conta a capacidade industrial russa, são muito difíceis de compensar.

Substituir a perda destes equipamentos a esta escala é algo que a Rússia tem muita dificuldade em fazer, principalmente por não ter acesso a componentes tecnológicos ocidentais - que se encontram sancionados. Um sinal desse sintoma foi o anúncio de que a Rússia vai reativar uma fábrica na região de Chita para “reparar e melhorar” 800 unidades dos antigos carros de combate T-62, que datam de 1961. As autoridades russas preveem que este processo demore três anos a estar completo. Analistas ocidentais apontam esta decisão como um sintoma claro de que a Rússia está a ter problemas em produzir plataformas mais modernas, como o T-72 ou T-80.

De acordo com as fontes norte-americanas, a Rússia está a ficar dependente de microchips contrabandeados e de importações de “baixa qualidade” de países como a China. O Kremlin, apontam as fontes americanas, está a sofrer uma “escassez crítica de rolamentos que está a minar a produção de tanques, aeronaves, submarinos e outros sistemas militares”.

Esse motivo já obrigou Moscovo a comprar drones iranianos, uma vez que é incapaz de produzir a quantidade de dispositivos necessários para ter um real impacto no decorrer do conflito. Embora o Irão negue o fornecimento destes equipamentos, multiplicam-se as provas que revelam a sua presença no campo de batalha. Na sexta-feira, o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov, disse que as Forças Armadas russas têm atualmente "cerca de 300 unidades" de drones de combate fornecidos pelo Irão.

Para conseguir vencer uma guerra prolongada entre dois exércitos é necessária uma grande base industrial. O país que tiver a maior capacidade de produzir vastas quantidades de munições e equipamentos é, muito provavelmente, o país vencedor. “Nós temos dois países em guerra. Um vive de crédito, que vem do mundo inteiro. A Rússia está dependente das suas próprias capacidades, utiliza recursos próprios e tem uma base tecnológica e industrial assente em empresas públicas”, explica Agostinho Costa.

"A Rússia está dependente das suas capacidades e a Ucrânia está dependente da vontade do ocidente"

Não existem registos públicos dos stocks de armamento ucraniano antes do início da guerra, apesar de se saber que herdou uma quantidade significativa de material após a queda da União Soviética. Também não há muita informação sobre a sua capacidade de produção de equipamento militar, nem o quão intacta esta se mantém depois de meses de confrontos - e parece existir uma dependência cada vez maior do ocidente a este respeito. E, neste aspeto, também a capacidade de produção militar ocidental já teve melhores momentos.

Segundo o think tank de Defesa britânico The Royal United Services Institute (RUSI), os Estados Unidos têm vindo a diminuir sistematicamente as compras de munições de artilharia nos anos recentes. Em 2020, as compras de munição de artilharia diminuíram 36%, para 425 milhões de dólares. Em 2022, o plano é reduzir os gastos com munições de artilharia de 155 mm para 174 milhões de dólares. Isto é equivalente a 75.357 munições 'burras' básicas para artilharia regular. Segundo este grupo, a julgar pela taxa de utilização de munições na guerra da Ucrânia, a produção de artilharia anual norte-americana daria apenas para duas semanas de combates.

A situação não é melhor para os restantes aliados. Uma simulação de guerra feita em conjunto com forças francesas e britânicas demonstrou que o exército do Reino Unido ficaria sem munições de artilharia em oito dias em caso de guerra, segundo o antigo líder das forças da NATO na Europa Ben Hodges, tenente-general.

Mas os problemas de produção ocidentais estendem-se também aos sistemas mais avançados, como é o caso dos mísseis antitanque Javelin, que tiveram um papel fundamental no início da guerra para travar os avanços mecanizados russos. Os Estados Unidos enviaram para a Ucrânia cerca de um terço do seu stock, mais de 7 mil mísseis. Porém, a empresa que os produz, a Lockheed Martin, produz atualmente 2.100 mísseis por ano, tendo como capacidade máxima os quatro mil mísseis. Este número está muito abaixo das atuais necessidades ucranianas e não há sinais de que os vários países estejam a aumentar a produção.

“A Rússia está dependente das suas capacidades e a Ucrânia está dependente da vontade do ocidente. Isto cria uma série de variáveis que nós não controlamos nem conseguimos antever. Se os Estados Unidos fornecerem com base no que têm disponível para o seu exército, a guerra nunca mais acaba porque têm muito”, explica o major-general.

Mas há países da NATO que já fizeram disparar a sua capacidade industrial. É esse o caso da Polónia, um dos principais doadores de equipamento militar à Ucrânia. Segundo ministro da defesa polaco, Mariusz Blaszczak, a indústria de armamento polaca “está a 100% da sua capacidade” e a trabalhar para aumentá-la, após o apelo do secretário-geral da Aliança Atlântica - que pediu para que todos os aliados aumentem a produção de armamento.

As duas listas que circulam

As conquistas recentes não deram espaço a ilusões em Kiev. Apesar das vitórias na região de Kharkiv e de Kherson, a Ucrânia sabe que a vantagem numérica de soldados de pouco serve sem o devido equipamento. Duas listas que circulam em círculos mais restritos da área da Defesa americana que trabalham no processo de cooperação militar com a Ucrânia foram tornadas públicas pelo jornal norte-americano Politico. Ao que é possível apurar, o governo de Volodymyr Zelensky deu a conhecer ao executivo americano a lista de equipamento prioritário para a reconquista do seu território.

Para isso, a Ucrânia diz precisar de 300 tanques de guerra, mil veículos blindados, 30 lançadores de foguetes múltiplos, 250 peças de artilharia de 155 mm, 500 armas antitanque portáteis, 1000 sistemas antiaéreos portáteis, bem como 72 sistemas de defesa antiaérea e respetivos radares. Este material pode ser facilmente enviado pelos Estados Unidos, que detém uma vasta reserva de equipamento militar - embora não seja certo que isso venha a acontecer.

A ser enviado, este equipamento deve juntar-se ao que os aliados já entregaram após a madrugada de 24 de fevereiro, quando as primeiras tropas russas entraram no país - Mais de 320 tanques de guerra, 950 veículos blindados, 400 peças de artilharia, helicópteros, peças para aviões e mais de duas centenas de drones, segundo o site de verificação militar independente Oryx.

Relâmpago »»» caos (e atenção à rasputitsa)

Mas é pouco provável que tanto Kiev como Washington procurem um acordo de paz enquanto as forças ucranianas estiverem a fazer progressos na conquista de território. E foi isso que aconteceu em Kharkiv e Kherson, quando as forças armadas ucranianas surpreenderam as linhas defensivas russas com uma tática militar americana utilizada na conquista de Bagdade durante a guerra do Golfo. Os soldados americanos chamaram-lhe “corrida relâmpago”, devido à velocidade e ao caos que esta espalha entre os inimigos.

Entre os dias 6 e 12 de setembro, forças ucranianas penetraram as linhas defensivas russas na região de Kharkiv com o recurso a unidades móveis, transportadas por veículos blindados ou simples carrinhas todo o terreno, furaram as linhas de defesa do adversário e, de repente, começaram a atacar posições na retaguarda do exército russo sem dar qualquer hipótese de resposta. Em muitos casos, as forças ucranianas, chefiadas pelo general Oleksandr Syrskyi, evitavam mesmo o combate em zonas urbanas.

“As cidades aumentam o potencial de combate de quem defende e reduzem o potencial de combate de quem ataca. Foi isso mesmo que a Ucrânia escolheu fazer numa primeira fase guerra, depois de constatar a grande diferença de forças”, explica o major-general Arnaut Moreira.

Sem compreender como é que os soldados ucranianos se encontravam na retaguarda, as forças russas viram-se obrigadas a retirar ou corriam o risco de ficar completamente cercadas. O resultado deixou o mundo surpreendido: mais de 500 localidades e 12 mil quilómetros quadrados reconquistados, centenas de tanques e blindados abandonados, dezenas de armazéns de munições capturados. As perdas materiais russas eram tão grandes que ultrapassavam a ajuda militar entregue pelo ocidente à Ucrânia.  

Mapa: Evolução no terreno durante os primeiros oito meses de guerra

Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra

Pouco menos de um mês depois, a 2 de outubro, começa uma nova ofensiva, desta feita na região do sul do país, em Kherson, com o uso das mesmas táticas. Soldados ucranianos apoiados por veículos blindados e pelas forças aéreas fizeram consideráveis avanços, chegando mesmo a ameaçar cercar milhares de soldados russos. Desta vez, a chefia militar russa não hesitou e ordenou imediatamente a retirada para posições mais vantajosas.

Mas o relógio não pára e o governo de Kiev sabe bem que se aproxima a época das chuvas e com ela “o tempo das estradas más” ou, como lhe chamam os ucranianos, a “rasputitsa”. Esta é a época onde as estradas se transformam em lamaçal e dificultam todo o tipo de movimentação que não seja por estrada, tornando as unidades militares alvos fáceis para artilharia.

“A contraofensiva ucraniana ainda não acabou e sabemos que concentraram muitas forças. Se a Ucrânia não conseguir, durante as próximas duas semanas recuperar a cidade de Kherson, vai ter pela frente um problema muito grande, que é enfrentar o  inverno”, afirma José Filipe Pinto.

Para Zelensky, tudo depende da sua capacidade de recuperar o território ocupado pelos russos. Enquanto a Ucrânia estiver em posse da iniciativa das operações militares e o apoio incondicional do ocidente, é pouco provável que se queira sentar à mesa com Moscovo para encontrar uma solução pacífica, particularmente depois de o Kremlin ter anexado ilegalmente as províncias de Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Lugansk.

A resposta russa a estes contratempos surgiu na forma do decreto assinado por Vladimir Putin que ordena a mobilização parcial de 300 mil novos soldados (embora o documento deixe a porta entreaberta para uma mobilização muito mais vasta). A expectativa russa é de que estes recém-soldados sejam suficientes para tapar todas as debilidades das linhas defensivas. Mas a chegada destes novos soldados pode não ter o efeito desejado e multiplicam-se os relatos de que muitos destes recrutas foram enviados para a frente de batalha sem qualquer treino, sugerindo que existe um grave problema no que toca à falta de soldados na frente de batalha russa. 

“Foi-nos dito que não haveria qualquer treino antes de sermos enviados para a zona de combate. O comandante do regimento confirmou-o, vamos ser enviados para Kherson”, queixa-se um recruta num vídeo partilhado nas redes sociais russas.

O Institute for the Study of War alerta para isso mesmo. Desmotivados, sem condição física, mal equipados, sem treino e sem oficiais preparados para liderar: esta é uma combinação explosiva que “é pouco provável que tenha qualquer efeito significativo no reforço das posições russas”. Sem preparação, é muito provável que a taxa de mortalidade destes homens seja muito superior à de um grupo de militares treinados.

“A mobilização foi, do ponto de vista genérico, a abertura de um problema social interno que não existia. Vamos ver de que forma é que a abertura deste problema não acaba por ter consequências de natureza política”, afirma o major-general Arnaut Moreira.

Protestos populares contra o regime e contra a mobilização pode “galvanizar a oposição” ao líder, mesmo dentro da “fação de falcões” que o apoia, e representam um dos maiores perigos para o sistema criado por Putin. A multiplicação do número de vítimas da guerra que regressam à Rússia pode mesmo ser um fator de pressão interna que leve o presidente Vladimir Putin a querer entrar em negociações e a colocar um fim ao conflito. Apesar de tudo, os especialistas alertam que tal cenário pode ser aproveitado por Moscovo para ganhar tempo, recuperar e reestruturar o exército para um novo ataque futuro.

Aquilo que Vladimir Putin julgava ser uma guerra rápida e decisiva tornou-se uma guerra de desgaste com um preço muito mais elevado. “Os verdadeiros protagonistas desta guerra são Washington e o Moscovo e tenho dúvidas de que as ações que temos visto sejam suficientes para tirar o conflito de um impasse e levá-lo para a sua resolução. A guerra está para durar e muito provavelmente teremos aqui uma situação semelhante à de Chipre”, conclui Agostinho Costa.

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