Como um norte-americano sobreviveu oito meses na cidade ocupada de Kherson

18 nov, 15:42
Kherson (Getty Images)

Timothy Morales teve de inventar uma história para não mostrar o passaporte a um agente do Serviço Federal de Segurança da Rússia

Milhares de pessoas passaram vários meses escondidas ou com medo da presença russa em Kherson. Timothy Morales foi um desses casos, tendo conseguido escapar às patrulhas russas que começaram naquela cidade do sul da Ucrânia logo no início da guerra.

Agora, com a retirada de Moscovo da cidade, pôde finalmente sair à rua, depois de oito meses em que esteve sempre escondido dentro de casa e em que apenas ocasionalmente ia dar um passeio no pátio da residência. É que este homem tinha uma razão especial para não querer ser apanhado: a sua nacionalidade.

Timothy Morales é um norte-americano que estava em Kherson a dar aulas de inglês, onde abriu uma escola dedicada a essa atividade. No início de março tudo mudou e só agora a sua história foi conhecida, depois de o exército ucraniano ter libertado a cidade.

“Tive momentos de desespero”, confessou, durante uma entrevista na praça central de Kherson, concedida ao The New York Times. Ainda assim, e depois de meses em que apenas espreitava pelas cortinas para ver os soldados russos na rua, ao mesmo tempo que, pelo meio, se entretinha a ver filmes no portátil, sempre soube que “este dia viria”.

Agora, Timothy Morales é um dos que esperam pela chegada de ajuda humanitária, nomeadamente comida e água, numa altura em que Kherson é uma cidade arrasada, em grande parte sem energia, o que deixa as casas sem luz, mas também sem aquecimento.

O norte-americano ainda pensou em escapar, tal como fizeram muitos ucranianos, mas admite que a sua nacionalidade foi sempre motivo de receio: “não queria arriscar com o meu passaporte”, com o qual teria de passar sempre por um dos vários postos de controlo organizados pela Rússia. Apesar de não ter feito nada de ilegal, temia ser apanhado no meio de uma guerra na qual o Kremlin tem acusado o Ocidente, em especial os Estados Unidos, de serem responsáveis.

Com o exército russo e vários agentes do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, na sigla original) nas ruas, Timothy Morales, juntamente com a mulher, ficou confinado a dois apartamentos que tem na cidade, um deles com um pequeno jardim protegido por muros altos e longe da vista da rua.

Para comer durante os primeiros dois meses dependeu da família da mulher, que é ucraniana, e podia sair de casa com outra facilidade. Depois disso conseguiu ganhar confiança durante uma loja em que era atendido por um jovem. Foram as únicas vezes que saiu de casa durante esses oito meses.

Centenas juntam-se para receberem ajuda humanitária em Kherson (Getty Images)

Para não ficar parado conseguiu também arranjar uma forma de dar aulas de inglês online, ajudando estudantes ucranianos de todo o país. Foi isso que lhe permitiu manter-se “são”, mesmo que não conseguisse receber o pagamento.

Em setembro, quando os ucranianos já se acercavam da cidade, aconteceu o momento mais tenso. Um membro do FSB ordenou a uma vizinha que abrisse o portão da casa onde estava Timothy Morales, que pouco depois ficou cara a cara com esse mesmo agente.

Apesar de falar um russo decente, o norte-americano sabia que não seria suficiente para se fazer passar por local. Por isso, Timothy Morales decidiu dizer que era um irlandês chamado Timothy Joseph, que estava na cidade como professor e que tinha perdido o passaporte. A vizinha do homem compactuou com a história, e a polícia secreta acabou por abandonar o local.

“Isso mudou a minha perspetiva. Antes, era cuidadoso. Depois, fiquem paranoico”, conta o norte-americano, que diz ter escapado porque o agente “não era das pessoas mais espertas do mundo”.

Acabou por fugir para outro local, deixando a casa onde tinha passado os últimos meses, e aonde só regressou após a libertação de Kherson.

A partir da cidade, agora libertada, Timothy Morales conta que se começou a aperceber de uma certa desordem no exército russo, que foi piorando com o passar do tempo. Já para o fim, e mesmo antes da retirada, viu que os soldados russos se apoderaram de vários dos bens que estavam na cidade. Carros de luxo como BMW ou Mercedes foram levados, confirmando o que as autoridades ucranianas, que repararam no desaparecimento de várias obras de arte valiosas, suspeitavam.

Uma semana antes da retirada russa grande parte da cidade ficou sem luz. É como se mantém agora, mas com outro comando. Quando viu um carro militar com uma bandeira ucraniana na antena, Timothy Morales soube: “os russos foram-se embora”.

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