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O refugiado ucraniano que escolheu Portugal por sonhar com as ondas da Nazaré

9 abr 2022, 10:00

Estava a preparar uma sessão fotográfica de óculos de sol quando a invasão russa começou. Pegou na família e fugiu da guerra, deixando o lar em Kharkiv, na Ucrânia. O sonho de conhecer o mar revolto levou o fotógrafo Andrii Afanasiev, 40 anos, a escolher Portugal como destino. Não ficou a lutar nem a registar as imagens da guerra na sua câmara porque "queria salvar" a filha e a mulher. Desde aquele dia, nunca mais conseguiu tirar uma fotografia.

O material fotográfico foi separado, guardado numa mochila, três ou quatro dias antes da guerra começar. Protege-se o que alimenta. Naquele 24 de fevereiro, Andrii Afanasiev acordou mais cedo do que tinha previsto. Ainda faltava muito para a sessão daquele dia, para fotografar óculos de sol para uma publicidade. 

“A minha mulher acordou antes, porque ouviu explosões. Olhámos pela janela. Às cinco da manhã é tudo muito escuro. Mas as explosões brilhavam com muita intensidade. Houve bombardeamentos a manhã toda. Enquanto guardávamos roupas e outras coisas, as bombas explodiam”, lembra. 

Custa-lhe recordar esse primeiro dia de guerra, a saída forçada do lar em Kharkiv. Custa-lhe recordar três dias de estrada, numa Ucrânia em guerra, a dormir no carro e na rua, com temperaturas negativas. Até chegar a Chernivtsi. “Houve pessoas que nos receberam. Deram-nos um sítio para viver, comida”. Mas esse não era o destino final. 

Entrevista com a CNN Portugal teve lugar no MU.SA - Museu das Artes de Sintra

As ondas (e a casa de aldeia)

“Falavam-me da beleza da natureza. E, basicamente, da beleza das pessoas. E um dos meus sonhos, quando vivia em Kharkiv, era visitar a Nazaré para ver as ondas gigantes. E estou aqui”. Aqui é Portugal. Mesmo que o Portugal que lhe serve hoje de casa não seja o da fúria do mar que ganhou fama mundial. 

Andrii Afanasiev está a viver numa aldeia de Sintra, onde lhe cederam uma casa para recomeçar a vida longe da vida que era a dele. Os amigos do cunhado, que viveu em Portugal, ajudaram no processo. Mas, quando não se fala a língua de cá e o inglês é tímido, tudo leva mais tempo. Tudo é uma descoberta. 

“Onde vivemos, não temos jardim de infância ou parque infantil para a nossa filha. É difícil começar a trabalhar quando um filho está sempre connosco”. Porque o que mais anseiam, nesta ponta da Europa que eles percorreram de carro, é encontrar trabalho. Ele como fotógrafo, a mulher Olena como fisioterapeuta. Voltar a sentir a vida normal que lhes foi roubada - como os momentos abaixo, captados por Andrii no verão passado.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Andrii não voltou a fotografar desde aquela madrugada que jamais esquecerá. “Tentei tirar fotografias no telefone. Mas não sinto que é o momento. É demasiado duro agora, preciso de recuperar”. Mas vai dando passos, devagar, para fechar essas feridas. Em Portugal, já encontrou modelos ucranianas para fotografar e colegas de profissão que podem, mesmo que devagar, abrir portas. “É uma boa oportunidade para dizer ‘Olá! Estou aqui!’”. 

"Sou como um samurai" 

Ficar para fotografar os horrores da guerra nunca foi uma opção para este fotógrafo. O coração, nos vários sentidos que a palavra pode ocupar, não o permitia. “A primeira razão para não o fazer é a minha filha. Tinha de salvar a minha filha. A segunda razão é a minha saúde debilitada [problemas cardíacos]. Não consigo correr. Um fotógrafo de guerra é como um soldado. Não com uma arma, mas com uma câmara. Os fotógrafos de guerra precisam de boas condições de saúde. Precisam de correr, de se esconder. Eu não o consigo fazer”. 

A especialidade de Andrii Afanasiev é outra, apurada por anos de trabalho: o nu feminino. “Fotografo mulheres porque sinto que não há nada mais bonito no mundo. As mulheres são o mais belo deste planeta. As mulheres ucranianas são muito bonitas. Todas as mulheres são bonitas. Em todas as idades, em todos os tons de pele”. O gosto valeu-lhe o trabalho publicado em revistas como a Playboy.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Mas as mulheres dele, Olena e Luna, sempre foram a grande prioridade. Não era preciso uma guerra para o saber. Porque Andrii Afanasiev não é soldado, é outro tipo de guerreiro. “Sou como um samurai. Os samurais não têm um objetivo. Os samurais têm caminhos. E eu adoro o meu caminho”. E o caminho, mal o permita o carro que os trouxe Europa fora, há de levá-los às ondas da Nazaré. “Ainda não vi as ondas. O carro ficou estragado e precisa de uma pequena reparação. Quando for arranjado, vou visitar a Nazaré”.

Para ver ondas muito maiores que aquelas que traz inscritas em si, tatuadas no braço direito. O lado oposto ao coração que, por ser frágil, o pode ter salvado nesta guerra.

Andrii tem ondas tatuadas no braço direito

 

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