Daria fugiu da Ucrânia para não ficar sem insulina. A partir de Lisboa, Olena tenta salvar os diabéticos do seu país

19 mar, 13:36

De várias cidades ucranianas chegam relatos de falta de insulina. Sem ela, milhares de diabéticos não podem viver. Reduzem-se as doses, na esperança de que seja possível aguentar mais um pouco sem um bem essencial. Daria Oryshchuk não conseguiu esperar mais e fugiu para Portugal com a filha nos braços. Mas há os que ficam. E, para esses, Olena Paliievska espera que a sua ajuda, por muito pequena que seja, faça a diferença

“No dia 23 de fevereiro, ia com o meu marido para o trabalho e disse-lhe que estavam a entrar em pânico por causa da guerra, que não ia acontecer nada. Até à última não acreditei”. Daria Oryshchuk, 24 anos, não acreditava mas a guerra chegou mesmo a Zhytomyr, a cerca de 150 quilómetros de Kiev. E ela tinha insulina para apenas uma semana.

A guerra já tinha começado, mas Daria precisava mesmo de insulina e por isso ainda tentou marcar uma consulta e até utilizar uma plataforma para pedir receitas. Nenhuma destas opções resultou. Em Lisboa, a irmã Oleksandra desesperava: “Disse-lhe que ela tinha de sair de lá. Não sabíamos como, não tínhamos dinheiro, mas ela tinha de sair de lá”.

Daria já estava num comboio com a filha Kira, de dois anos, para Lviv, de onde depois tentariam seguir para a Polónia, quando Oleksandra descobriu uns voluntários portugueses que podiam levar a insulina para Daria e trazer a irmã e a sobrinha para Portugal. “Foi um caminho longo e eu tinha pouca insulina. Aguentei-me com os níveis de açúcar altos. Só que queria beber [água]. No comboio em que fui, não havia casas de banho”.

Não fala português, mas aprendeu logo uma palavra: “Obrigada”. “Estou grata a todas as pessoas que não me deixaram, com uma bebé nos braços, sozinha no caminho”, desabafa, com a ajuda de Oleksandra. Ela e a filha estão agora seguras em Lisboa. Os olhos azuis de Kira já viram a guerra sem saber o que ela significa.

Daria tem tido consultas na Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP). Os níveis de açúcar no sangue estabilizaram. “Deram-me um sensor que me permite controlar o açúcar a qualquer hora, de dia ou de noite. E assim sei se preciso de dar insulina ou de comer qualquer coisa. Na Ucrânia não tinha isto”, conta depois de uma consulta.

Kira tem dois anos e cruzou a fronteira ucraniana nos braços da mãe

A guerra no corpo

“Acredito que a guerra vai acabar depressa. Tenho lá mãe, pai, irmão. E o meu marido [a combater] na guerra. Apesar de estar longe, e mais tranquila, o medo continua”, explica Daria. E é desse fim do conflito que depende também a sobrevivência de outros, diabéticos, como ela.

Daria estudou psicologia, trabalhou num banco e numa fábrica de cabos elétricos para a indústria automóvel. Aos 20 anos, descobriu que tinha diabetes tipo 1 e que ia precisar de insulina para viver. 130 mil ucranianos têm esta condição. Sem acesso a insulina, é mais uma batalha que o corpo trava para sobreviver.

De várias cidades ucranianas chegam relatos de falta de insulina. Além das cadeias de distribuição terem sido interrompidas, é difícil preservar esta substância no frio nas farmácias, já que a eletricidade tende a faltar após os ataques russos. Faltam também medidores e as tiras para avaliar a glicemia.

“O que é que estas pessoas têm feito quando percebem que têm menos insulina? Começam a tentar racionar a sua dose de insulina, vão diminuindo a insulina. Ficam mal compensados, mas tentam evitar esta situação que leva à morte rápida. Vão ficando com os níveis de açúcar no sangue cada vez mais altos, vão ficando com os tais sintomas associados. Mas vão esticando um bocadinho a probabilidade de se manterem vivos até conseguirem ter acesso à insulina”, explica João Filipe Raposo, diretor clínico da APDP.

À associação, embora num número reduzido, têm chegado diabéticos ucranianos. “Chegam com sintomas de descompensação da diabetes. Estão mais doentes por causa disso. E no longo prazo - e não é preciso irmos muito à frente - têm o risco de ter aquelas complicações que nós queremos evitar na diabetes”, diz.

Por isso, cada minuto faz a diferença. Mesmo sem um número no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a APDP está já a dar os cuidados necessários a estes refugiados. Enquanto esse número de utente não for atribuído, é a associação quem está a segurar os custos dos tratamentos. Daí que João Filipe Raposo admita que está a ser ponderada uma angariação de fundos. Mesmo que a integração do refugiado no SNS se concretize, explica, não terá efeitos retroativos.

Daria Oryshchuk já está a ser seguida por um médico na APDP

Solidariedade entre diabéticos

Há um ditado na Ucrânia que diz: “Se chega a guerra, mostra os planos”. Mas não havia planos para lidar com tamanha destruição. E muitos não conseguem sair do país.

Olena Paliievska vive em Lisboa há vários anos. Encontrou nas redes sociais um apelo a que não conseguiu passar indiferente: a de um rapaz ucraniano a quem começava a faltar a insulina. A história podia ser a dela: ucraniana, com uma filha de 12 anos, também diabética. E foi então que fez um apelo no Facebook a outros diabéticos portugueses, para que pudessem dispensar caixas de insulina que tivessem em casa.

O resultado emocionou-a. “Foi uma alegria muito grande quando hoje me chegou pelo correio uma encomenda com insulina vinda do Porto”. Olena conseguiu, num primeiro momento, reunir quase 40 caixas. Vão seguir, num saco térmico adequado, de avião para a Polónia. Depois, irão de autocarro para Lviv, até chegar ao destino final, a região de Kiev. Lá, serão distribuídas por médicos e organizações no terreno. Um percurso que é um risco. Para lá da fronteira polaca, está o desconhecido.

Mas Olena não desmobiliza com esses receios. “Eles precisam de insulina. Sem insulina não podem viver. Com esta guerra, há problemas com insulina até onde a guerra não chegou. Muitos refugiados passaram para oeste”. É lá, em Kalush que esta mulher tem a família. Não têm forma de sair: o pai está abrangido pela lei marcial, a idade das avós já não lhes deixa fazer o caminho.

Todos os dias, de manhã, Olena liga o telemóvel para confirmar que a guerra ainda não acabou. “A primeira coisa que faço, quando acordo, é ligar para o meu pai, para ver se está tudo bem. E também quando me deito. Temos duas horas de diferença horária. Por isso, às oito da noite, estou a ligar para desejar bons sonhos. Fico com a esperança de que, de manhã, voltemos a faltar”. E de que os sonhos do fim da guerra se tornem realidade.

Olena Paliievska tem uma filha diabética e recolhe insulinas em Portugal para enviar para a Ucrânia

 

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados