A Rússia passou a "estar em guerra" e agora vem aí um nova mobilização geral - e Macron é "o único realista"

22 mar, 22:00

Ataques a Kiev, ataques à rede elétrica, as eleições norte-americanas, os partisans e o papel de Kyrylo Budanov, tudo isto motivou a declaração do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, e também é tudo isto que pode levar o Ocidente a admitir que "é preferível combater nas planícies da Ucrânia" do que no centro de Berlim, Paris ou até Lisboa, como chegou a sugerir Dmitry Medvedev, antigo presidente russo, e Aleksandr Dugin, conhecido pela alcunha de "cérebro de Putin"

Depois de 729 dias, chegou ao fim a "operação militar especial" anunciada por Vladimir Putin após a madrugada de 24 de fevereiro de 2022. Esta sexta-feira, marca um novo capítulo na invasão da Ucrânia, como anunciou Peskov: "Estamos em estado de guerra”. Mas o que muda de agora em diante? 

A primeira ilação retirada das palavras do porta-voz do Kremlin é simples: vem aí uma nova mobilização geral na Rússia. O major-general Isidro de Morais Pereira estima que o novo recrutamento forçado e em massa renda às fileiras moscovitas entre 500 a 700 mil soldados: "O Kremlin não podia dar início a uma mobilização geral sem uma justificação legítima e Peskov criou-a. Hoje, ouvimos Peskov; amanhã, provavelmente, ouviremos Medvedev e, depois, será a vez de Putin."

“O decreto deverá ter um objetivo de mobilização e deve estar para breve, talvez uma questão de semanas. Será apenas preciso redigir o decreto, levá-lo a votação na Duma e ser assinado por Vladimir Putin. É uma reação esperada e que foi guardada para o momento certo: o momento em que Vladimir Putin foi legitimado por 87% da população”, explica o especialista em assuntos militares.

O major-general Agostinho Costa concorda que as palavras deixam "em suspenso a ideia de uma mobilização", que, para o especialista militar, é essencial para o Kremlin depois de mais de dois anos de conflito: a Rússia ainda "é capaz de sustentar esta guerra, mas não dá para muito mais, nem para conquistar uma cidade como Kiev, quanto mais para continuar a conquistar a Europa".

Macron, o "único realista"

Ainda assim, no entendimento de Agostinho Costa, "as declarações de Peskov são a constatação de um facto" e, mais do que isso, são uma reação clara à posição recente do Ocidente, ou seja, a posição do Kremlin é uma resposta às palavras de Macron que "continua a falar em colocar 20 mil soldados na Ucrânia". Agostinho Costa, mais uma vez, lembra que a "abordagem russa é diferente da do Ocidente".

"Macron continua a insistir e é credível. E parece mesmo ser o único a olhar para o quadro-geral com realismo", atenta Agostinho Costa. 

Agostinho Costa explica que o conflito na Ucrânia pode ser retratado como um ensaio sobre duas doutrinas bélicas: a russa e a ocidental. "São duas formas diferentes de se fazer guerra", explica o major-general, lembrando que, de um lado, está a Ucrânia apoiada pelo Ocidente exclusivamente a "tentar recuperar terreno" e, do outro, a Rússia "centrada na destruição de material e pessoas" com uma "paciência de chinês" e "paulatinamente a seguir a doutrina".

"É quase a mesma coisa que estarmos num ringue de boxe em que um dos lutadores só usa as mãos e o outro é um kickboxer. Este é o dilema do Ocidente. Estamos perante dois estados num conflito existencial e o mundo ocidental a emaranhar-se na guerra cada vez mais. Com o Ocidente, esta ainda é uma guerra híbrida, em que já existem todos os tipos de conflitualidade menos no campo de batalha." E o que falta para haver uma guerra aberta entre o Ocidente e Moscovo? No entendimento de Agostinho Costa, "só falta mesmo uma linha vermelha: colocar tropas ocidentais no terreno".

Mas porquê agora? Isidro de Morais Pereira lembra a máxima de que "a guerra é um jogo de paradas e respostas" para explicar que esta foi a resposta do Kremlin à "postura ocidental que tem vindo a crescer". O especialista militar defende que "Macron está a dizer o que muito líderes europeus já pensaram". "É evidente que todos os países preferem combater no território dos outros", realçando que "até os responsáveis nacionais prefeririam combater nas planícies da Ucrânia do que nos territórios portugueses".

"Ouvimos Macron, ouvimos a Chéquia, esta foi também uma reposta à postura ocidental que tem vindo a crescer. Todos o pensaram, Macron foi o único que teve coragem de o dizer. Macron está a ver de forma realista o que vai acontecer se não forem tomadas medidas", referiu Isidro de Morais Pereira.

Quase em simultâneo, como lembra Morais Pereira, as "últimas sondagens nos Estados Unidos apontam para a reeleição de Joe Biden". O especialista militar diz que "o Kremlin está muito atento à política norte-americana" e que tinha de agir perante esta tendência, porque "isto significa que a Europa não ficará sozinha no apoio à Ucrânia".

E o que acontecerá se tropas ocidentais forem mortas na ucraniana? "Se a Rússia atacar os franceses na Ucrânia, o artigo 5.º não pode ser invocado", garante Agostinho Costa: "Se os russos bombardearem franceses na Ucrânia, Paris só tem uma solução que é meter os corpos em sacos de plástico e mandá-los para casa."

Rússia e a "guerra de aniquilação"

Morais Pereira encontra ainda mais uma mensagem nas entrelinhas de Dmitry Peskov: "Ao falar da existência da Ucrânia, diz que esta é uma guerra de aniquilação." Reflexo disso mesmo é, como aponta o major-general, o ataque russo realizado na madrugada desta sexta-feira que deixou mais de um milhão de ucranianos às escuras. "Um ataque com 170 mísseis e drones dirigidos não a alvos militares, mas sim contra centros de distribuição e produção de energia", aponta Isidro de Morais Pereira, constatando que esta é "uma guerra de destruição”.

Mesmo que efetivada a mobilização geral e que Moscovo recrute 700 mil soldados, esta capacidade bélica não será eficaz para realizar uma ofensiva no imediato, diz o major-general, apontando que os efeitos deste aumento do número tropas só terá reflexo em 2025. No entanto, para o especialista bélico, é evidente que "a mobilização vai incrementar o número de partisans" e "desta vez o clamor será ainda maior". "Há um homem fundamental para aproveitar tudo isto que é Kyrylo Budanov", culmina Isidro de Morais Pereira.

De referir que esta sexta-feira ocorreu um ataque terrorista em Moscovo, com quatro homens a matarem dezenas de pessoas numa sala de espetáculos da capital russa.

Neste ponto, Agostinho Costa discorda e lembra as manobras em Belgorod, durante a semana das eleições russas: "Como é que a Ucrânia se põe a desbaratar recursos naquela campanha suicida na fronteira? A Ucrânia tem um nível de militares excelente, já de generais nem por isso. Não queria ser deselegante com os generais ucranianos, mas só tem sido só asneiras, estas são as coboiadas do Kyrylo Budanov." 

Para o major-general, a questão dos partisans russos é "relevante, mas não é decisiva", auferindo maior preponderância estratégica aos ataques russos, como o que atingiu Kiev na quinta-feira, explicando que neste momento a Rússia está a aproveitar "a lógica da manta ou se tapa a cabeça ou os pés: ou se defende Kiev ou a linha da frente".

"Há uma guerra convencional conduzida por Oleksandr Syrskyi e há uma guerra não convencional conduzida por Kyrylo Budanov", define Agostinho Costa, acrescentando que "este tipo de conflito Este vs Oeste vai-se manter e é o que os Estados Unidos queriam, porque o estado final do conflito mais desejado pelos norte-americanos é uma situação tipo Coreia, que manteria a Rússia em alerta constante e com pelo menos 100 mil militares ocupados permanentemente".

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