Denys Katyukha está há 11 meses em tribunal a tentar lutar para recuperar a sua vida
Meses e meses daquela que é uma das mais famosas batalhas da guerra da Ucrânia, Mariupol caiu. A fortaleza virada para o Mar de Azov deu estrada à Rússia para continuar no seu desígnio até Zaporizhzhia e Kherson, apanhando tudo pelo caminho.
Foi o que aconteceu a Melitopol, cidade perto da costa que também para as mãos do inimigo, o que mudou por completo a vida a todos os que lá viviam. A maioria resignou-se perante o terror e fugiu, mas, mesmo entre essas pessoas, há quem não esqueça e batalhe ativamente, ainda que não com armas.
É o caso de Denys Katyukha, que está há 11 meses em tribunal para recuperar a sua vida.
Este cidadão ucraniano deu entrada a um processo judicial contra a Rússia, que acusa de ter roubado o seu hotel e o seu apartamento em Melitopol, cidade virada para o Mar de Azov que agora vive sob domínio do Kremlin.
A luta deste homem de 49 anos é unidirecional, até porque a Rússia não reconhece o tribunal civil em que ela ocorre. Como resultado disso, dificilmente as forças de ocupação vão pagar os 4,5 milhões de euros que Denys reclama.
Ainda assim, este empresário está determinado em procurar a justiça, mesmo sabendo que dificilmente ela vai chegar. “Por agora sou a vítima, Dom Quixote a combater moinhos”, conta a uma reportagem da agência Reuters.
A causa maior é o Admiral, uma das obras da vida de Denys, que, como tantos outros empresários, viu o seu hotel, este num pedaço de terra que mais se assemelha a uma ilha, ser confiscado pelo inimigo
As autoridades russas identificaram mais de sete mil estabelecimentos comerciais e propriedades residenciais na região ocupada de Zaporizhzhia, onde está o hotel, como não tendo proprietário, de acordo com os dados consultados pela Reuters. Estes números incluem 521 hotéis e resorts, e um dos quais é o Admiral.
O hotel tem dono, Denys, mas a Rússia entende que não.
Desta lista de propriedades comerciais há pelo menos 77 hotéis e resorts que são agora controlados por empresários russos ou entidades estatais da Rússia, o que confirma uma autêntica remodelação do setor turístico da costa de Azov.
É outro passo para o Kremlin se instalar numa das quatro regiões que diz serem suas, e que até já entraram para a Federação Russa depois de um referendo que não foi internacionalmente reconhecido.
De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, há uma espécie de “cortina de fumo legal” neste caso, até porque o que a lei russa diz é que os empresários que detinham as propriedades podem continuar a ser donos, mas têm de mudar de nacionalidade.
Questionado sobre apreensões como esta, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, referiu que “a todos aqueles que o quiseram fazer foi dada a oportunidade de voltarem a registar a sua propriedade sob a jurisdição russa”. Caso não o façam, essa propriedade será considerada como não tendo dono.
Para Denys, que fugiu da Ucrânia para a Alemanha, a única opção no início de todo o processo era provar em apenas três dias que era ele o legítimo dono do negócio. O pai ainda entregou toda a documentação, mas os papéis não foram reconhecidos, já que a Rússia não reconhece passaportes ucranianos.
“Estes são documentos de um país que não existe”, foi o que as autoridades russas disseram ao pai do dono do hotel.
Agora o Admiral está entre os “resorts da região de Zaporizhzhia”, uma comissão controlada pela Rússia que decide quem dirige os hotéis, mas não só.
Quanto a Denys, continua a tentar reconstruir a sua vida na Alemanha, onde leciona na área da gestão hoteleira de forma remota para uma universidade ucraniana. Do hotel, as poucas coisas que vai vendo chegam-lhe através das redes sociais.
Ainda assim, e apesar da pouca esperança, Denys agarra-se à luta em tribunal para não esquecer o trabalho de uma vida.