opinião
Psicóloga, Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Não existe uma guerra que possa ser ganha

6 mar 2022, 12:00

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

O inacreditável aconteceu, a Rússia invadiu a Ucrânia! Digo o inacreditável, porque surpreendente não foi. Estávamos a ser diariamente alertados para a iminência desse ataque. Seguiu-se uma salada russa de sentimentos: apreensão, angústia, ansiedade, tristeza, medo e impotência. Raiva também. As palavras de aviso não foram suficientes para evitar a tragédia que se abateu uma vez mais na Europa. Conseguirão travá-la?

O que aconteceu para chegarmos a este ponto? Os analistas referem ambições geopolíticas futuras da liderança Russa, impulsionada por fantasias históricas duvidosas de recuperação da glória imperial, como sendo o motor principal, mas não exclusivo. Uma convulsão política que agora se traduziu num conflito armado, com vista a alargar a esfera de influência de um país, ao ponto de impedir que outros países soberanos possam decidir livremente sobre os destinos das suas nações. É um punhado de governantes a querer impor, de forma egoísta, a sua forma de pensar e ver o mundo e decidir que países devem existir.

Esta forma de governação faz-me lembrar as Matrioskas, as famosas bonecas russas umas dentro das outras, que se vão abrindo/ “descascando” quais camadas de cebola, para se descobrir uma série de bonecas insufladas de indiferença e escárnio e ocas de empatia e humanismo. Há muitas formas de se apropriar da vida das pessoas. De lhes roubar a vida. Modos que as catapultam para travarem uma guerra indesejada, que não é a delas. De um lado e do outro da barricada. O pior de tudo é não sabermos como e quando irá parar e o que teremos perdido pelo caminho enquanto Humanidade.

Já diria Confúcio “antes de embarcar em uma vingança, cava duas sepulturas” e como canta Sting na famosa canção Russians, infelizmente tão atual nos dias de hoje, “não existe essa coisa de uma guerra que pode ser ganha”, porque todos perdem numa guerra. Uns mais do que outros? Diria que depende de qual se considera ser o valor universal supremo a defender. Se for a vida e o bem-estar das pessoas é bom lembrar, num outro tempo, que a “vitoriosa” ex-URSS saiu da II Guerra Mundial como o país que perdeu mais vidas humanas nessa guerra. Sim, à frente da Alemanha. Quem despreza este valor humano, não presta para governar! E “permanecer neutro numa situação de injustiça é escolher o lado do opressor”, como referiu Desmond Tutu.

Como explicar isto aos mais novos? Que está em causa a paz, a democracia, as liberdades e os direitos humanos. Que há valores mais elevados pelos quais vale a pena lutarmos, cada qual como pode, mas que todos podemos ter um papel a desempenhar. Que há muitas pessoas no mundo a quererem lutar por estes ideais. Que esta batalha se trava em primeiro lugar dentro de cada um. Que os atos heroicos não resultam da confiança “na lógica diabólica e perversa das armas” para citar o papa Francisco. Que atos heroicos são os de um povo que resiste a uma invasão vil e bárbara, mas também os de todos os outros que resistem, saindo à rua para protestar contra o seu governo em defesa destes valores, sabendo que são os seus direitos enquanto seres humanos, a sua liberdade que será cortada logo a seguir. Já alguém viu uma manifestação a favor desta guerra? Quem é que a quer?

Enquanto sociedade civil temos o poder de pressionar os nossos governos. Todas as guerras acabam e já se terminaram guerras assim. Numa outra geografia e com outros atores envolvidos, visitei o Museu dos Vestígios de Guerra na antiga cidade de Saigão, no Vietname. Curiosamente o que mais me impressionou foi o piso inteiro que dedicaram a agradecer à comunidade internacional o apoio que então receberam e que permitiu terminar essa guerra. Há retratos de manifestações de todos os continentes, unidos nesse apoio.

Não esquecer que um invasor é um invasor e um opressor é um opressor, independentemente da sua ideologia. E que a esperança é um sentimento muito potente, capaz de combater o medo. Voltando ao primeiro parágrafo, e sem escamotear a dureza dos tempos que vivemos, acredito sim que o que dizemos e fazemos pode ter impacto nesta guerra. A história mostra-nos exemplos de potências bélicas que perderam guerras assim. Oxalá a soma das nossas palavras e ações entrem na acústica dos ouvidos de quem a começou, mais cedo do que tarde. Até lá, cabe a cada um de nós fazer a sua parte!

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