Engravidar aos 55 anos? Pode acontecer, mas em Portugal seria praticamente impossível

2 out, 18:00
Gravidez (Pexels)

A partir dos 40 anos a probabilidade de engravidar de forma natural começa a diminuir drasticamente. Aos 48 anos é de menos de 1%. Além disso, em Portugal há uma idade limite para aceder a um tratamento de procriação medicamente assistida

É cada vez mais frequente que as mulheres decidam atrasar a maternidade após os 35 anos. Muitas preferem encontrar estabilidade profissional e económica antes de serem mães, prolongar a sua vida em casal ou simplesmente não encontraram ainda o momento indicado. Em Portugal, a idade média da mãe, aquando do nascimento do primeiro filho, passou dos 25 anos em 1960 para os 30,9 anos em 2021, de acordo com os dados da Pordata. Também há cada vez mais mulheres que, já sendo mães, querem ter filhos mais tarde - como aconteceu recentemente com a atriz brasileira Cláudia Raia.

No entanto, à medida que a idade avança torna-se mais difícil engravidar. "A idade mais fértil das mulheres situa-se entre os 22 e os 30 anos, decrescendo rapidamente a partir dos 35 anos", explica à CNN Portugal o médico Miguel Raimundo, ginecologista e obstetra especialista em medicina reprodutiva. A partir dos 40 anos uma mulher tem aproximadamente 10% de probabilidades de engravidar naturalmente.

E após os 45 anos existe menos de 3% de probabilidade de ter uma gravidez natural, afirma o médico Vladimiro Silva, diretor científico da clínica Procriar. Aos 47 ou 48 anos, essa probabilidade cai para menos de 1%. "É extremamente raro. Não podemos dizer que é impossível, mas é mesmo muito raro."

Por isso, quando vemos uma notícia de uma celebridade que engravidou tardiamente, a maior probabilidade é que, mesmo que não o assuma, tenha recorrido à procriação medicamente assistida (PMA). "Nota-se, claramente, que há cada vez mais mulheres com mais de 45 anos que nos procuram", diz Vladimiro Silva. 

Segundo os dados mais recentes do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), em 2018 nasceram em Portugal 2.733 crianças como resultado do uso das várias técnicas de PMA. Este número representa 3,1% do número total de nascimentos em território nacional.

Qual o limite de idade para recorrer a tratamentos de PMA?

Em Portugal, o limite máximo para uma mulher recorrer à PMA é 50 anos. "Não é permitido fazê-lo depois dos 49 anos e 364 dias, mesmo em clínicas particulares", explica o médico Miguel Raimundo.

No Serviço Nacional de Saúde, o limite de idade das mulheres com material reprodutivo preservado devido a doença grave para aceder aos tratamentos de infertilidade aumentou recentemente para os 50 anos. Mas esta é uma situação excecional.

No caso de mulheres que não tenham material reprodutivo preservado por motivo de doença grave, estes tratamentos só têm financiamento público se concretizados antes dos 40 anos da mulher - para as técnicas de Fertilização in Vitro (FIV) e microinjeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) - ou antes dos 42 anos da mulher (no caso da inseminação artificial). Para além destas idades, só recorrendo a clínicas privadas.

Algumas clínicas espanholas que têm consultório em Portugal atendem mulheres um pouco mais velhas, até aos 52 anos. Nestes casos, as mulheres vão às consultas iniciais em Portugal mas acabam por fazer a transferência em Espanha. Já a Grécia aprovou recentemente um limite de 54 anos.

"Tendo de existir um limite, 50 anos é um limite sensato", observa Vladimiro Silva, considerando no entanto que a lei é demasiado rígida. "Os médicos fazem uma avaliação da paciente. Há mulheres de 35 anos a quem recusamos tratamento porque não têm condições, da mesma forma que há mulheres de 51 anos que poderiam perfeitamente fazer o tratamento. Já tivemos casos de mulheres que fizeram a transferência na véspera do aniversário, com toda a pressão que isso implica", conta. 

Para ser aceite para um procedimento de PMA, uma mulher com mais de 45 anos é sujeita a três tipos de exames:

  • os exames de rotina pré-concecional;
  • a avaliação da função ovárica e das condições para engravidar (para se saber se tem condições uterinas para implantação) que permitem perceber se, "do ponto de vista da  medicina reprodutiva", a mulher tem condições para o tratamento;
  • e, por fim, se tem capacidade de levar uma gravidez a bom termo (avaliação dos riscos da gravidez).

"Só avançamos se houver condições para progredirmos com segurança", garante Vladimiro Silva.

Como é possível engravidar depois dos 45 anos?

A partir dos 45 anos ou após atingir a menopausa (que acontece geralmente entre os 45 e os 55 anos) a concretização de uma gestação por PMA só é possível através de um processo de fertilização in vitro com óvulos doados ou com óvulos próprios que tenham sido preservados anteriormente.

Isto porque a reserva ovárica da mulher vai diminuindo com a idade e, "além disso, com essa idade, mesmo que ainda não esteja na menopausa, os óvulos da mulher já não têm qualidade suficiente para um processo de PMA", esclarece Miguel Raimundo. 

Na verdade, se decidir congelar os seus óvulos porque ainda não é o momento certo para engravidar, recomenda-se fazê-lo até aos 35 anos. Mas é importante referir que preservar o potencial reprodutivo não é uma garantia de gravidez no futuro, mas uma forma de preservar a qualidade que os óvulos têm no momento em que foram vitrificados, já que assim não envelhecem. "Com os métodos que existem, temos taxas de sucesso no congelamento de óvulos na casa dos 90%", afirma Vladimiro Silva.

Neste momento, a maioria das mulheres que decide engravidar depois dos 45 anos tem, ainda, de recorrer a óvulos doados.

Como funciona a doação de óvulos?

A doação de óvulos é uma técnica de procriação medicamente assistida que foi realizada pela primeira vez com sucesso na década de 1980 e que dá oportunidade às mulheres que não podem ter filhos com os seus próprios gâmetas de os ter com recurso a óvulos de dadora. 

A dadora deverá ter entre 18 e 35 anos, ser saudável e passar por um processo de avaliação psicológica, genética e médica. A doação implica ainda um tratamento hormonal injetável durante 10 a 12 dias que fará com que os ovários produzam mais óvulos.

Uma mulher que queira engravidar pode recorrer ao Banco Público de Gâmetas, do Serviço Nacional de Saúde. Este banco fica no Hospital de S. João no Porto, mas existem mais dois centros afiliados no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, (CHUC) e na Maternidade Alfredo da Costa, (MAC). Aqui os tempos de espera podem ser superiores a quatro meses.

As clínicas privadas recorrem a bancos internacionais, sem tempo de espera mas com custos mais elevados.

O que é a Fertilização in Vitro?

Após a recolha dos ovócitos doados, estes são fertilizados com recurso a espermatozóides do companheiro da recetora (ou recolhidos através de um banco de sémen) e, após alguns dias de acompanhamento do desenvolvimento dos embriões, são transferidos para o útero materno. A esta técnica chama-se Fertilização in Vitro.

A inseminação dos ovócitos pode ser realizada mediante a técnica de FIV convencional - que consiste na colocação de um ovócito na placa de cultivo rodeado por espermatozoides - ou da Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI) - que consiste na introdução de um espermatozoide vivo dentro do ovário, mediante a punção do mesmo, com a ajuda de uma pipeta.

Os embriões resultantes após a fertilização dos ovócitos são observados no laboratório dia após dia e são classificados de acordo com a sua morfologia e capacidade de divisão. Alguns embriões são excluídos por serem considerados inviáveis. Os embriões que não forem utilizados podem ser congelados para serem usados mais tarde.

A mulher recetora dos embriões deve fazer um tratamento hormonal (geralmente por via oral) para preparar o endométrio antes da transferência embrionária. Geralmente, ao fim de duas semanas está pronta para receber a implantação.

A transferência consiste na introdução dos melhores embriões no interior do útero materno, com a ajuda de uma cânula. O procedimento é realizado no bloco operatório, apesar de não ser necessário administrar uma anestesia, já que é um processo rápido e indolor.

Qual é a taxa de sucesso?

Vladimiro Silva refere uma taxa de implantação de 60% a 70%. "Como estamos a lidar com células de pessoas não inférteis, as taxas de sucesso são bastante elevadas."

Com o conhecimento e a tecnologia que existe hoje em dia, este procedimento não tem qualquer risco, garante Miguel Raimundo, sublinhando, no entanto, que, tal como em todos os processos de PMA, não é possível assegurar que este resulte numa gravidez bem sucedida: "A taxa de sucesso é de 50%."

Quanto custa engravidar depois dos 45 anos?

Os valores variam de clínica para clínica, mas, de acordo com as tabelas de preços disponíveis nos sites de algumas clínicas, um tratamento de Fertilização in Vitro com doação de óvulos pode custar entre 5.600 e 6.900 euros (valores base, que podem ser mais elevados, dependendo do caso individual).

A PMA traz mais riscos à gravidez?

O facto de ser uma Fertilização in Vitro não traz traz riscos adicionais, garantem os médicos Miguel Raimundo e Vladmiro Silva. A partir do momento em que está grávida, a mulher deve realizar todos os exames habituais e, normalmente, não há complicações associadas.

No caso de se usarem óvulos doados por mulheres mais novas, o risco de anomalias cromossómicas é menor, porque o cálculo do risco é feito de acordo com a idade do óvulo. E também diminui bastante o risco de aborto associado.

Assim, esta mulher terás apenas os outros riscos associados a uma gravidez tardia, que estão sobretudo relacionados com a hipertensão e a diabetes. Existe também, devido à idade, uma maior probabilidade de pré-eclampsia e de o parto ser por cesariana. No entanto, com acompanhamento médico, é possível controlar todos estes riscos.

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