Pré-eclampsia: 11 factos sobre esta condição médica a propósito da grávida que morreu após falta de vagas - e cujo caso a CNN divulgou horas antes de Marta Temido se demitir

30 ago, 10:49
Gravidez (Pexels)

Era uma condição médica que afetava uma mulher grávida que morreu no sábado enquanto era transferida depois de não ter tido vaga no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. A ministra da Saúde demitiu-se horas depois de a TVI / CNN terem divulgado este caso

1/ O que é

A pré-eclampsia é uma “doença específica da gravidez humana, caracterizada por hipertensão arterial e alterações renais”, começa por explicar o médico Nuno Clode, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal. Por norma, a pré-eclampsia é identificada após a 20ª. semana de gestação, quando a mulher é diagnosticada com hipertensão gestacional e a esta se junta uma elevação de valores de proteína na urina. Pode trazer complicações para a mãe e para o feto, mas também apenas para um deles.

A pré-eclampsia “pode ter uma miríade de manifestações e nas suas fases mais graves pode levar a convulsões, quando chega a este ponto é eclampsia”, diz o médico.

Sofia Batista, médica de Medicina Geral e Familiar e correspondente médica da CNN Portugal, destaca que “é uma condição de grande risc  mas a maioria das situações, quando bem acompanhada, tem um desfecho favorável”.

2/ Quão comum é

“Cerca de 20% das mulheres que engravidam têm hipertensão arterial (HTA) estabelecida, uma situação que complica 15% dessas mesmas gravidezes”, disse Vitória Cunha, secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Hipertensão, em entrevista ao Jornal Médico. Nuno Clode adianta que “a pré-eclampsia é frequente” e “à volta de 5% das grávidas podem ter” esta condição se não for feito o devido acompanhamento e controlo. 

3/ Quais as causas

“As causas de pré-eclâmpsia ainda são questionadas e investigadas”, diz Sofia Batista, que adianta que esta condição está associada a “anomalias no desenvolvimento da placenta numa fase muito precoce da gravidez”, como é o caso de a placenta não conseguir “invadir o útero tão suficientemente como o desejado para o fluxo sanguíneo adequado”

4/ Quais os sintomas

“Muitas vezes a pré-eclâmpsia nem sequer dá sintomas, infelizmente até a mulher chegar a uma fase mais avançada da condição”, diz a médica Sofia Batista. Nas fases mais avançadas “pode aparecer dor de cabeça forte, algumas alterações da visão abruptas, que a mulher não tinha antes, dificuldade respiratória e um estado de confusão”. Além disso podem ainda ocorrer edemas (inchaço) nas mãos, nos pés e no rosto.

5/ Como se faz o diagnóstico

Além da avaliação dos sintomas mencionados acima e dos níveis de proteína na urina, o diagnóstico passa também pela medição da tensão arterial, sendo considerada alta quando os valores são iguais ou superiores a 140/90mmHg e documentados em duas determinações separadas de pelo menos quatro horas, esclarece a Sociedade Portuguesa de Hipertensão. A subida da tensão arterial é um dos sinais de alerta na gravidez ao qual o Serviço Nacional de Saúde pede para que as grávidas prestem atenção.

6/ Qual o tratamento

Segundo Nuno Clode, a pré-eclâmpsia “só se trata de uma maneira”, que é “terminar a gravidez, tirando a placenta”, o que, diz, não é grave quando a mulher já está com 35 ou mais semanas de gravidez. “O problema é quando surge em fases muito precoces”, sendo, nestes casos, o internamento e a monitorização as opções mais comuns. “A vigilância é fundamental.” Também Sofia Batista diz que “costumamos dizer que o parto é a cura, entre aspas, da pré-eclâmpsia”, no entanto há formas de atuação que ajudam a controlar a condição e a evitar que escale para eclâmpsia. “Quando se identifica uma mulher com elevado risco de pré-eclâmpsia, os obstetras, está indicado por estudos mais recentes, dão uma dose baixa de aspirina”, esclarece a médica, que continua: “Pode haver o aconselhamento de restrição de atividade e esforços e, nas situações mais preocupantes, o internamento”. Mas “temos poucas armas [de ação], infelizmente”.

7/ Quais os riscos para a mulher

“Quanto mais cedo é diagnosticada formalmente, menor é o risco de ter uma forma grave [da condição], mas, apesar de tudo, a maioria dos casos não tem este desfecho”, afirma Sofia Batista, referindo-se à morte de uma mulher grávida depois de não ter tido vagas no Hospital Santa Maria, em Lisboa. No entanto, adianta, “há riscos” que devem ser tidos em conta e que as mulheres não devem ignorar: “pode haver um descolamento de placenta, pode haver falência aguda dos rins e fígado, edema pulmonar, hemorragia cerebral, uma série de condições muito grandes". "Pode ter impacto no corpo todo da mulher.”

8/ Quais os riscos para o feto

“Como é uma doença placentária, o bebé pode não crescer de forma adequada, em última análise pode levar à morte do feto”, adianta Nuno Clode. Sofia Batista também destaca o risco “da restrição do crescimento intrauterino”, o que pode levar ao nascimento prematuro. 

9/ Quem são as grávidas mais vulneráveis

Nuno Clode esclarece que a pré-eclâmpsia “é mais frequente em primeiras gravidezes, em mulheres muito jovens e mais idosas”, mas também em mulheres que, antes de engravidarem, já têm “alguma patologia como hipertensão e diabetes”. Sofia Batista acrescenta ainda como fator de risco as gestações múltiplas.

10/ Como prevenir

A adoção de um estilo saudável que permita controlar fatores de risco - como hipertensão, obesidade e diabetes - são estratégias a ter em conta, mas a médica Sofia Batista diz que as consultas pré-conceção podem fazer toda a diferença, pois é feita “uma avaliação de risco para a mulher nas mais variadas condições”, incluindo esta.

11/ Quais os cuidados após o diagnóstico

“Estas mulheres devem ser acompanhadas e vigiadas pois têm sempre um maior risco de desenvolver algumas condições no futuro, como doenças do foro cardiovascular e renal”, adianta a correspondente médica da CNN Portugal, apelando a uma “vigilância médica mais apertada”. Apesar de a pré-eclâmpsia “se resolver” dias ou semanas após o parto, estas mulheres devem ter um “maior cuidado” com o estilo de vida: devem seguir “uma alimentação equilibrada, reduzir os níveis de sal o mais que possam, ser ativas fisicamente e fazer uma vigilância médica adequada”.

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