Alzheimer, diabetes e infertilidade: como dormir pouco pode estar a afetar a sua saúde

22 mai, 08:00
Entre os sonhos que captaram a atenção dos cientistas estão relatos de pessoas que sonharam que não conseguiam sair de casa porque a maçaneta estava partida ou que não queriam mesmo sair de casa por causa de todo um cenário catastrófico para lá das paredes da habitação - e que até chegava a incluir ursos no jardim. (Pexels)

Além do cansaço, sonolência e todas as outras consequências sentidas no imediato, as perturbações do sono podem significar uma doença mais grave a longo prazo. A CNN Portugal falou com três especialistas em medicina do sono que explicam as doenças que podem resultar de poucas horas de sono e a que deve estar atento

Nos últimos anos, têm surgido vários estudos que encontram ligações entre poucas horas de sono (isto é, dormir menos de sete horas por noite) e várias doenças, nomeadamente doenças mentais, cardiovasculares e degenerativas. Ainda assim, os especialistas referem que as perturbações do sono "são sempre deixadas de lado", uma vez que as pessoas não associam insónias a doenças e acabam por desvalorizar as consequências de dormir pouco.

As insónias (associadas a "mais de três noites por semana sem dormir") "são muito frequentes" entre a população, de acordo com a psiquiatra Maria Moreno, que indica que "cerca de 30% da população mundial já sofreu pelo menos uma insónia na vida e 15% vai sofrer uma insónia grave". Além do cansaço, sonolência e todas as outras consequências sentidas no imediato, as perturbações do sono podem significar uma doença mais grave a longo prazo.

A CNN Portugal falou com três especialistas em medicina do sono, que explicam as doenças que podem resultar de poucas horas de sono e a que deve estar atento.

Apneia do sono e a ligação a eventos cardíacos

A apneia do sono está entre as perturbações do sono mais frequentes, de acordo com a pneumologista Mafalda VanZeller, que indica que entre 9 a 24% da população adulta mundial sofre desta doença, que se manifesta também em crianças (cerca de 2% da população mundial). A apneia do sono consiste, na prática, em "episódios repetidos de interrupção total ou parcial da passagem do ar na via aérea superior", provocando uma "fragmentação do sono e um compromisso da oxigenação durante a noite", explica a especialista do Centro Hospitalar Universitário do São João.

"Esta interrupção da passagem do ar e a inadequada oxigenação do sangue vai levar ao aumento do trabalho cardíaco, aumenta o risco de arritmias cardíacas, aumenta o risco de ter hipertensão arterial e há um risco aumentado de sofrer ataques agudos do miocárdio. Sabemos hoje que, em cada 10 Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), três a quatro ocorrem em indivíduos com apneia do sono", salienta.

Geralmente, prossegue, além de ressonarem, os indivíduos que têm apneia do sono "acordam muitas vezes durante a noite, sem se aperceberem que é por estas interrupções da passagem do ar". Muitas vezes, acordam com a sensação de que estão a sufocar ou com necessidade de ir à casa de banho várias vezes durante a noite. Já durante o dia, "notam dificuldades na capacidade de memória e concentração, cansaço e sonolência diurna", acrescenta.

Diabetes

Vários estudos recentes sugerem que a insónia pode aumentar o risco de diabetes tipo 2. Uma investigação da Universidade de Bristol corroborou recentemente esta tese, concluindo que os indivíduos que sofrem de insónias apresentam níveis de açúcar no sangue mais elevados do que os restantes indivíduos que não manifestam problemas relacionados com o sono.

Em declarações à CNN Portugal, Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono, explica a ligação entre as noites mal dormidas e a diabetes, utilizando como exemplo a apneia do sono (salientando, contudo, que esta relação de causa-efeito é alargada a outras perturbações do sono).

O especialista começa por explicar que, nas apneias do sono, as vias áreas vão fechando pela posição horizontal do corpo e, à medida que aumenta a resistência à passagem do ar, ocorre uma vibração nas paredes da faringe. Essa vibração tem durações variáveis: “Pode durar 10, 20 segundos ou até dois minutos." Portanto, a apneia só termina com um micro-despertar, isto é, quando “o cérebro está a dormir e tem de despertar para dar uma instrução aos músculos da via aérea superior para abrirem a faringe”. Apesar de “micro”, este despertar “interrompe a continuidade do sono”, prejudicando assim a qualidade do sono, até porque “cada vez que há uma apneia, há uma quebra de oxigénio”. E cada micro-despertar provoca uma atuação do sistema nervoso simpático, que adequa o funcionamento de diversos sistemas internos para um estado de prontidão, libertando, assim, adrenalina.

“Isto vai fazer com que ocorra uma desregulação entre a glicose e a insulina. Em situações estáveis, nós libertamos a insulina necessária para controlar os níveis de glicose, mas, na apneia do sono e em todas as situações em que há insuficiência do sono, este equilíbrio entre insulina e glicose perde-se. E pode surgir a insulinorresistência, que é pré-diabetes e, mais tarde, diabetes”, explica.

Portanto, “hoje sabe-se que a insuficiência do sono, só por si, pode levar a diabetes."

Alzheimer

Partindo do princípio de que “o sono é muito importante para a consolidação das memórias”, com o cérebro a trabalhar para selecionar e guardar as memórias do dia a dia, Joaquim Moita indica que dormir pouco leva a “perturbações de memória” que podem mesmo assumir formas “muito graves” com o avançar da idade

“A partir dos 70 anos, esta situação pode ser mesmo muito grave, de tal forma que esta falta de memória se associa a quadros demenciais, como o Alzheimer, por exemplo”, uma situação que se agrava com a toma de medicamentos “que muitas vezes não são os mais corretos”, diz.

Nestes casos, prossegue, os estudos sugerem que uma boa higiene do sono acaba por “melhorar” os quadros de demência ou de Alzheimer.

Doenças mentais

Dormir poucas horas durante a noite também está associado a problemas relacionados com a saúde mental, que, segundo a psiquiatra Maria Moreno, têm uma particularidade - são bidimensionais. Quer isto dizer que “a insónia aumenta o risco de doença mental, ao passo que a doença mental aumenta também o risco de insónia”.

“A maioria das doenças mentais estão relacionadas com alterações do sono.”

A doença mental traduz-se, na prática, numa “alteração ao nível da estrutura cerebral e dos neurotransmissores”, e, quando isso acontece, surgem “naturalmente alterações dos padrões de sono”.

Estes problemas tendem a agravar-se quando as pessoas procuram “soluções informais”, nomeadamente medicamentos que são vendidos como milagrosos, mas que acabam por prolongar um problema que, à partida, seria de fácil resolução em consulta médica.

“Infelizmente, existe uma tendência enorme de pedir ajuda aos amigos, perguntar o que tomam para o sono e tomar também, e, quando chegam à consulta, a maioria das pessoas já está a tomar algum medicamento, que normalmente são benzodiazepinas, e isto acaba por tornar o problema permanente. Assim, uma coisa que inicialmente até era fácil de resolver, transforma-se numa insónia grave, maltratada e naturalmente mais difícil de solucionar”, explica a especialista da clínica Fisiogaspar.

Infertilidade

A privação de sono também pode estar associada a problemas de infertilidade, de acordo com Joaquim Moita, que cita um estudo norte-americano realizado em jovens universitários do sexo masculino que tiveram de dormir quatro horas por noite todos os dias durante uma semana. No final dessa semana, os investigadores verificaram uma “diminuição significativa da dimensão dos testículos” desses jovens, bem como uma “redução significativa da testosterona”. Segundo o especialista, estas alterações devem-se ao facto de a testosterona tratar-se de “uma hormona que é produzida praticamente apenas durante o sono”. Logo, “se o indivíduo não dorme, há um défice de testosterona e esse défice também estará ligado à dimensão testicular”, aponta.

Mas este não é um fenómeno exclusivo dos homens. De acordo com o responsável da Associação Portuguesa do Sono, as mulheres também sofrem alterações hormonais, com a diminuição do estrogénio e, por consequência, alterações no ciclo menstrual. A título de exemplo, o médico cita estudos que sugerem que as mulheres que trabalham por turnos, como as enfermeiras, têm maior tendência a sofrer “alterações menstruais muito significativas”, como amenorreias e ciclos menstruais irregulares.

Na perspetiva do especialista, estas alterações podem contribuir “para que hoje em dia existam tantos problemas de fertilidade”, salientando o impacto dos trabalhos por turnos, da mudança de hora para inverno e verão, por exemplo, ou da utilização de dispositivos eletrónicos antes do deitar, que são prejudiciais para a saúde do sono.

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