Factos Primeiro: o que é ou não verdade sobre a vacinação de crianças contra a covid-19

28 jan, 07:00
Vacinação de crianças contra a covid-19 (Manuel Fernando Araújo/Lusa)

Carta aberta assinada por 27 profissionais de saúde quer a suspensão da vacinação nas faixas etárias mais novas, sustentando-a com argumentos e afirmações que a CNN Portugal analisou ao detalhe, recorrendo aos estudos científicos e números oficiais que são divulgados

Um grupo de 27 médicos, professores e farmacêuticos divulgou, esta quarta-feira, uma carta aberta a pedir a suspensão da vacinação contra a covid-19 em crianças e jovens saudáveis, alegando que “deveriam ser refeitas as análises da relação risco-benefício” nos menores de idade, tendo em conta os efeitos da variante Ómicron.

Um dos signatários desta carta é Jorge Amil Dias, pediatra e presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, que justificou, em entrevista à CNN Portugal, que “seria prudente reavaliar” agora a vacinação das crianças mais novas, porque estão a ser inoculadas “com um produto que não foi testado para esta variante” e que “não trouxe uma redução de infeções”.

Vejamos, então, seis dos argumentos presentes na carta e os factos que os sustentam, ou não:

1. "Perante esta nova realidade, determinada pelo aparecimento da variante Ómicron que se tornou dominante e para a qual as atuais vacinas são consideradas ineficazes, deveriam ser refeitas as análises da relação risco-benefício da utilização das vacinas contra a covid-19, muito particularmente em crianças."

As atuais vacinas não são consideradas ineficazes para a variante Ómicron. A Agência Europeia do Medicamento (EMA) garante até que estas fornecem “elevado nível de proteção” - 70% após duas doses e 90% após reforço - contra a nova variante.

“A vacinação continua a proporcionar um elevado nível de proteção contra doença grave e hospitalização ligadas à variante Ómicron”, diz a EMA.

Prova disso são os atuais números da doença em Portugal: mesmo com novos máximos de casos, numa altura em que a Ómicron é dominante, os internamentos, os doentes em Cuidados Intensivos e as mortes continuam muito abaixo do mesmo período do ano passado, quando a população não estava vacinada.

Ainda assim, continua a EMA, “resultados de estudos recentemente publicados mostram que a eficácia das vacinas contra a doença sintomática é menor para a Ómicron do que para outras variantes e tende a diminuir com o tempo". A agência europeia insiste então no avanço das doses de reforço.

"Aquilo que sabemos é que as doses de reforço com as vacinas existentes conferem uma proteção muito significativa contra a doença grave e contra a infeção e que, por isso, o esforço deve ser o de alargar a proteção com as vacinas existentes", explicou à CNN Portugal o imunologista Luís Graça. Segundo o especialista, “a proteção que se consegue com a dose de reforço perante a variante Ómicron está ao nível da proteção que se conseguia com as duas doses do esquema primário para as variantes que estavam em circulação nessa altura”. 

2. "O mais preocupante é que está a decorrer a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos em pleno pico pandémico, circunstâncias que não foram testadas nos ensaios clínicos de vacinas contra a covid-19. A vacinação de crianças previamente infetadas por SARS-CoV-2, ou a sua infeção depois de vacinadas, num curto intervalo temporal, pode vir a traduzir-se num aumento da incidência de casos de miocardites, efeitos deletérios no sistema imunitário ou outras reações adversas, riscos potencialmente graves e eventualmente letais."

Não há nenhuma evidência científica de que as vacinas contra a covid-19 tenham variações consoante o momento pandémico. Questionado pela CNN Portugal, o signatário da carta aberta Jorge Amil Dias confirmou que “não há nenhuma demonstração” científica de que a dose dupla de infeção e vacina possa causar tais problemas. No entanto, o pediatra sustenta que “essa coexistência temporal não está a ser avaliada” e daí “a preocupação” dos signatários.

Sobre o aumento dos riscos, como por exemplo das miocardites, o recente parecer do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares, da DGS, é claro: a miocardite por infeção com SARS-CoV-2 é 60 vezes mais frequente do que após a vacinação e pode ter sintomas mais graves e complicações e sequelas a curto prazo.

O parecer teve por base diversos artigos científicos publicados em revistas médicas, os documentos normativos das entidades sanitárias nacionais e internacionais, incluindo os resultados da vacinação em mais de oito milhões de crianças entre os 5 e os 11 anos de idade.

As alterações cardíacas em crianças infetadas “não são desprezíveis e são mais complexas e graves do que as descritas após a vacina” e a miocardite em idade pediátrica após a vacinação “é muito rara, apresenta-se com sintomas ligeiros, evolução rápida e não aparenta ter complicações ou sequelas a longo prazo”, diz este parecer, sendo que "não foi ainda possível confirmar a relação causa-efeito entre a vacina e a miocardite".

Os peritos citam ainda estudos recentes para afirmar que, em adolescentes vacinados, a possibilidade de ter síndrome inflamatória multissistémica (MIS-C) após infeção baixa em 91%.

3. "Já foram notificadas ao Infarmed mais de uma centena de possíveis reações adversas graves, incluindo síncopes (colapsos), miocardites/pericardites e morte, em crianças e jovens. Ou seja, é admissível assumir que existe uma toxicidade das vacinas que se verifica a curto prazo e ainda se ignoram as consequências adversas a médio e longo prazo."

É verdade que já foram notificadas ao Infarmed mais de uma centena de possíveis reações adversas às vacinas da covid-19 entre crianças e jovens, mas a conclusão de que se verificou uma toxicidade das vacinas a curto prazo é deste grupo de médicos.

Segundo os dados recolhidos até 31 de dezembro, em todas as faixas etárias, havia um caso de reação adversa a cada mil vacinas administradas. 6.939 casos foram notificados ao Infarmed como reações graves, mas 85% destes “dizem respeito a situações de incapacidade temporária (incluindo o absentismo laboral) e outras consideradas clinicamente significativas pelo notificador”, que pode ser um profissional de saúde ou o próprio utente.

Os 116 casos de morte notificados ocorreram num grupo "com uma mediana de idades de 77 anos" e, nota o Infarmed, “não pressupõem necessariamente a existência de uma relação causal entre cada óbito e a vacina administrada, decorrendo também dentro dos padrões normais de morbilidade/mortalidade da população portuguesa”. Ou seja, estas pessoas podem ter morrido após a toma da vacina, sem que haja uma relação entre as duas ocorrências.

Entre as crianças dos 5 aos 11 anos, “os 6 casos notificados incluem arrepios, dor no local de vacinação, mal-estar-geral, pirexia, petéquias e um caso de miocardite”, “sendo que este último ocorreu em criança de 10 anos com evolução clínica de cura”.

Entre os adolescentes dos 12 aos 17 anos, os 97 casos notificados como reações adversas graves à vacina “referem-se na sua maioria a situações já descritas na informação das vacinas, tais como casos de síncope ou pré-síncope, e reações de tipo alérgico”. Treze destes casos foram notificados como mio/pericardite e “apresentaram evolução favorável após tratamento adequado”.

“De salientar que a miocardite e a pericardite são doenças inflamatórias de etiologia variada, normalmente associadas, sobretudo nesta faixa etária, a infeções virais, o que dificulta o estabelecimento de uma relação causal com a vacina”, explica ainda o Infarmed.

O regulador do medicamento não tem nenhuma morte identificada como reação adversa às vacinas da covid-19. A notificação recebida após a morte de uma criança de seis anos no Hospital de Santa Maria está a ser investigada.

4. "Investigação das mortes súbitas e síncopes em adultos jovens, adolescentes e crianças ocorridas em Portugal depois de iniciadas as campanhas de vacinação nestes grupos etários."

Além da suspensão da vacinação nos menores de idade saudáveis, este grupo de profissionais de saúde que assina a carta aberta propõe uma investigação a casos de mortes súbitas e síncopes após a vacinação das respetivas faixas etárias, sugerindo a associação entre as duas ocorrências, ou que haverá casos que não estejam a ser investigados.

Mas não é só em Portugal que não há registo desta relação fatal: o tal estudo do CDC que analisou 8,7 milhões de crianças entre os 5 e os 11 anos vacinadas contra a covid-19 não detetou nenhuma morte como efeito adverso da vacina

Esse estudo do CDC mostra como, em 8,7 milhões de crianças entre os 5 e os 11 anos vacinadas, foram notificados 4.149 efeitos adversos ligeiros e 100 mais graves, incluindo 11 miocardites, todas de resolução rápida e sem mortalidade associada.

5. "No espaço da União Europeia, perante uma situação de emergência, a autorização de utilização de medicamentos que não tenham os estudos de segurança e eficácia completos, como estas vacinas, pode ser atribuída de forma condicional, quando se verifiquem diversos requisitos, incluindo uma relação risco-benefício favorável."

A Agência Europeia do Medicamento tem, até agora, cinco vacinas aprovadas para utilização extraordinária: Pfizer, Moderna, AstraZeneca, Janssen e Novavax. Para estas decisões, foram tidos em conta estudos em que todas as etapas foram cumpridas, no que diz respeito à avaliação da segurança e dos efeitos adversos destas vacinas, sendo apenas uma questão de tempo até à aprovação final. 

O que aconteceu nestes casos, segundo vários especialistas ouvidos pela CNN Portugal, é que a análise foi feita em simultâneo e os casos de potenciais efeitos adversos vão sendo logo notificados, permitindo aos reguladores "ganhar meses" na aprovação condicional. Os mecanismos para garantir a segurança e eficácia destas vacinas são os mesmos dos utilizados para estudar outros medicamentos e vacinas, tanto que o regulador norte-americano, a FDA, já deu, em agosto passado, a aprovação final para a vacina da Pfizer aos maiores de 16 anos. 

No caso das crianças, o estudo recente do CDC norte-americano demonstrou, precisamente, que o perfil de segurança do estudo que foi feito inicialmente no grupo etário dos 5 aos 11 anos estava correto. Das 3.109 crianças que tinham sido estudadas como amostra, passou-se agora para a avaliação de cerca de 8,7 milhões de crianças desta faixa etária que foram vacinadas nos Estados Unidos e as conclusões sobre a eficácia e segurança das vacinas mantêm-se, demonstrando que a metodologia inicial era sustentada.

6. "Em Portugal ainda não se verificou para as crianças nem sequer a primeira condição, dado que não existe situação de emergência no que à covid-19 diz respeito. A infeção de crianças e jovens é assintomática ou com sintomas ligeiros na maioria dos casos; os internamentos são muito raros e a mortalidade tendencialmente nula em crianças saudáveis no nosso país."

É verdade que as crianças tendem a apresentar formas muito ligeiras e até assintomáticas desta doença, mas os dados revelados pela infecciologista Maria João Brito, do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, dão conta, por exemplo, que passaram por esta unidade, desde o início da pandemia, 71 crianças com a chamada Síndrome Inflamatória Multissistémica, uma inflamação de todo o corpo provocada pelo SARS-CoV-2, conhecida como MIS-C.

Ainda antes das escolas abrirem, a unidade de infecciologia estava “cheia” e todas as crianças e adolescentes que se encontravam internados eram não vacinados.

A DGS não revela os dados nacionais desde o início da pandemia de crianças internadas, ou nos cuidados intensivos. No início de dezembro, a CNN Portugal apurou que tinham sido 20 as crianças internadas em UCI com covid-19 desde março de 2020. Segundo os boletins diários, desde essa altura, morreram com a doença três crianças, dos 0 aos 9 anos, e três jovens, dos 10 aos 19 anos.

Um estudo feito nos Estados Unidos analisou 713 crianças internadas com covid-19 e concluiu que 68% destas crianças tinham outras condições médicas associadas, sendo a obesidade a mais comum. Um terço destas 713 crianças foram parar aos cuidados intensivos e 11 morreram. Apenas uma das 713 crianças estava totalmente vacinada.

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