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A vitória de André Villas-Boas: "A vitória da coragem mas a desinstalação vai obedecer a uma coragem maior"

27 abr, 22:59

A vitória de André Villas-Boas nas eleições do FC Porto é um marco importante na história do futebol em Portugal.

É a vitória da mudança.

Mas é também a vitória da esperança e da libertação do futebol português.

Temos, a partir de hoje, o “27 de Abril” do Futebol em Portugal.

E é ainda a vitória do associativismo na sua grandeza natural. É a vitória do livre pensamento, da democracia e da cidadania plena.

Não sabemos, ninguém sabe, apenas se percepciona, o que vai ser a presidência de André Villas-Boas nos próximos 4 anos, até pelas dificuldades que se vão seguir, depois do mergulho no mundo da realidade, dos segredos escondidos e das explicações sempre adiadas.

O FC Porto tinha de passar por este momento e talvez aqui resida a razão pela qual Pinto da Costa tudo ter feito para evitar passar, em vida, por este momento.

Por um FC Porto que não tivesse como presidente Jorge Nuno Pinto da Costa; por um FC Porto que ele não queria observar e por um FC Porto cuja realidade não fosse controlada por si próprio.

É preciso dizer também que as más práticas a marcar a vida do FC Porto “de Pinto da Costa”, acentuadas neste último mandato, contribuíram para o desenlace nestas eleições, sem nunca ignorar — por uma questão de honestidade intelectual — o lado positivo de uma presidência que fica conhecida pela pujança de uma liderança conquistadora até à entrada num ciclo de degradação, que culminou com os acontecimentos vividos na famigerada AG de 13 de Novembro e com o processo denominado “Operação Pretoriano”.

A verdade, mais cedo ou mais tarde, vem sempre ao de cima e a maioria dos associados portistas tiveram a lucidez de perceber que, em

nome da saúde e da honra do Dragão, não era mais sustentável manter este status quo.

Para muitos, só ficou claro a partir daquela AG de 13 de Novembro.

É um momento de viragem das políticas concentracionárias, assentes num núcleo duro que, em redor da longevidade de Pinto da Costa e do seu regime, colocou o FC Porto numa situação financeiramente precária, com manifesta perda de competitividade, com efeitos mitigados pela intervenção de um treinador (Sérgio Conceição) que foi capaz, até certo ponto e até ao limite, de extrair rendimento dos seus jogadores.

As últimas duas épocas, no entanto, expressaram, como dizia, a perda de competitividade, porque — não obstante a tentativa de manter o grupo unido, no balneário — os ovos para fazer omeletas perderam qualidade.

E isso tem que ver necessariamente com o nível de custos e com a má gestão dos recursos, através por exemplo da venda de jogadores, cujo produto final, no momento da entrada nos cofres, era sempre menor do que o necessário.

A vitória de André Villas-Boas — é preciso dizê-lo sem sofismas — é, igualmente, a vitória da coragem.

Porque esta candidatura envolvia o risco de ir contra um regime que renegou sempre os mais elementares princípios democráticos, como já era claro aos olhos de gente silenciada e cuja realidade ficou escancarada na histórica AG de 13 de Novembro.

A coragem de romper com isso e arcar com os efeitos de uma dinâmica que vivia da ameaça e da instalação de um clima de medo e terror, em muitos cantos da cidade mas também no estádio do Dragão e muitas vezes nos estádios e nos pavilhões de clubes adversários, tiveram e têm um preço que a generalidade dos portugueses e dos portistas não estaria disposta a correr.

Desde logo, por amor à sua própria segurança.

A vitória da coragem e a vitória de um projecto libertador. Do clube e da própria cidade do Porto, cuja liberdade ficou muito afectada nas últimas duas décadas.

Não se esperem facilidades: para a consagração do “associativismo natural” e da democracia plena no FC Porto, o pós-Pinto da Costa não vai ser um passeio nos jardins do Palácio de Cristal.

Vai ser um caminho muito duro, vai ser um caminho cheio de obstáculos, criados por aqueles que beneficiaram de um estatuto de excepção e que as autoridades apurarão se ilegitimamente, com custos brutais para o FC Porto.

A desinstalação que se segue também não vai ser um passeio nas águas do Douro.

Mas faz parte do processo.

Nunca André Villas-Boas agiu de forma a não reconhecer em Pinto da Costa alguém que merece estar no lugar de maior destaque na história do Futebol Clube do Porto.

Não será por André Villas-Boas, pelo que se percebe, que Pinto da Costa não terá o reconhecimento devido, na parte que lhe é devida.

Repito: na parte que lhe é devida. A questão é que Pinto da Costa, como aliás se viu na campanha, não aceitará nada que não passe pela sua chancela presidencial.

É, no entanto, obrigatório considerar que o FC Porto não precisa de fazer ajustes de contas.

Precisa de paz. Precisa de paz para se reestruturar, com vontade de ganhar, com o mesmo direito de ser vencedor. Precisa de caminhar e, nesse caminho, vai ter de encontrar humildade e ânimo. Para recompor o presente e preparar o futuro.

Sem perda de ambição mas com os pés muito bem assentes no chão.

Com 46 anos de idade, André Villas-Boas, ex-treinador, junta-se a uma plêiade de presidentes com uma formação diferente daqueles que os antecederam, todos com formação técnico desportiva, a começar por Rui Costa, 52 anos, ex-jogador e passando por Frederico Varandas, 44 anos, o mais jovem de todos, ex-diretor clínico, mas também aquele que mais combateu o regime anterior.

Muito daquilo que André Villas-Boas prometeu na campanha eleitoral e que, genericamente, é “apenas” um profundo mergulho na normalidade, resume-se na seguinte declaração: “Serei implacável com quem tenha lesado o FC Porto”.

As sanguessugas, como ele as denominou. A gestão financeira, as intermediações, a bilhética, o posicionamento das claques enquanto imagem do FC Porto e a comunicação terrorista, a afectar essa mesma imagem, têm de ser a sua prioridade.

E aí vai precisar, de novo, de muita coragem.

Para desinstalar, para varrer, para limpar e para devolver ao FC Porto a integridade e o respeito que merece.

Sim, pelo FC Porto.

Mas também:

Pela cidade do Porto.

Pelo Futebol Português.

Por Portugal.

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