"Todas as crianças internadas são não vacinadas." Os casos graves no maior hospital pediátrico do país

7 jan, 07:00
Vacinação pediátrica no Centro de Vacinação do Funchal

Nos últimos dias começaram a chegar aos serviços hospitalares crianças com uma síndrome grave associada à covid que preocupou os médicos durante as primeiras vagas. "Todos o que aqui estão não têm a vacina", garante à CNN Portugal a diretora do serviço de infeciologia

A variante Ómicron fez aumentar o número de internamentos de crianças com covid-19. Segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, estes casos graves são na sua quase totalidade crianças com menos de 12 anos que ainda não tinham sido vacinadas ou adolescentes também sem imunização. É esse o cenário que se vive no maior hospital pediátrico do país.

Os médicos do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, receberam nos últimos dias cinco casos de crianças que desenvolveram o chamado Síndrome Inflamatóra Multissistémica, uma inflamação de todo o corpo provocada pelo SARS-CoV-2, conhecida como MIS-C. "Chegaram todas muito recentemente" já com a variante Ómicron a dominar o país, confirma à CNN Portugal Maria João Brito, diretora do serviço de infeciologia deste hospital. Têm uma média de 8 anos e nenhuma está vacinada. 

Uma das crianças teve, entretanto, alta e agora encontram-se apenas quatro a recuperar desta doença grave que, como garante a médica, está provado ter uma relação direta com a covid-19. "Só tem MIS-C quem tem covid."

Desde o início da pandemia passaram pelo serviço 70 casos de MISC-C. Este síndrome multi-inflamatória, "é uma complicação", como outros relacionadas com a covid-19 e nesse sentido, defende a médica, a vacina pode diminuir a sua incidência como diminui outras complicações. 

"A doença grave na idade pediátrica é rara, mas existe" por isso é importante vacinar, afirma, explicando: "A vacina não protege contra a covid, protege contra a doença grave e as complicações associadas à covid, como as pneumonias, a MISC-C ou a infeção do sistema nervoso central."

Neste momento, o número de internamentos de crianças aumentou em relação ao que havia antes desta variante. "É preocupante porque temos crianças com doença grave", nota esta médica, sublinhando que ao contrário do que sucedia antes, agora são poucos os adolescentes hospitalizados e todos são não vacinados.

"Temos a unidade de infeciologia cheia", garante ainda Maria João Brito, notando que além do que desenvolveram aquela síndrome há outros problemas graves, como pneumonia ou infeções no cérebro.  

Dificuldade em cumprir distanciamento

De acordo com os dados a que a CNN Portugal teve acesso, neste hospital pediátrico, o maior do país, os doentes graves no dia 3 de janeiro eram o dobro dos que existiam no mesmo dia de 2020. Ou seja, apesar de ser mais leve, a Ómicron não está a deixar de levar crianças aos hospitais, alertam os especialistas. 

Entre as crianças até aos 12 anos (ou seja, o grupo que está agora a ser vacinado), há algumas que foram internadas por outras doenças e que depois testaram positivo à covid-19, mas a maioria está efetivamente internada com complicações devido à covid-19, acrescenta a médica.

"O aumento no número de casos de covid-19 entre as crianças reflete o aumento do número de casos na sociedade", afirma Maria João Brito. "As crianças não estão vacinadas, não cumprem distanciamento e as pequeninas não usam máscara", nota.

"Havendo mais casos é normal que haja mais internamentos, tal como acontece nos adultos", refere ainda, sublinhando que apesar da variante Ómicron ter feito aumentar os internamentos de crianças e jovens, situação atual não é mesmo assim tão grave quanto na primeira vaga da pandemia ou, há um ano, com a variante do Reino Unido. Nesses dois momentos, o número de internamentos aumentou tanto que esgotou a capacidade da enfermaria (15 camas) e foi necessário abrir uma segunda enfermaria. 

Também o Hospital de Santa Maria registou um aumento significativo de internamentos de crianças com doença relacionada com covid-19. No início desta semana, estavam nove crianças internadas na ala pediátrica covid-19, das quais sete positivas para SARS-CoV-2. As outras duas estão negativas, mas em isolamento porque as mães estão internadas com covid. Na primeira semana chegaram a ser 12 as crianças internadas. 

Fonte oficial do hospital garante à CNN Portugal que os números subiram muito com a Ómicron, uma vez que antes de surgir esta nova variante havia nenhuma ou uma criança internada. Mas é de sublinhar que algumas das crianças internadas não o estão só devido à covid-19, mas também por outros problemas tendo, porém, testado positivo à covid.

Porto mais calmo nos internamentos infantis

No Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, há até uma criança internada na Unidade de Cuidados Intensivos com suspeita de MIS-C, adiantou à CNN Portugal Eunice Trindade, diretora de pediatria.

De resto, adianta a especialista, no São João ainda não se está a assistir a um aumento significativo de internamentos de crianças devido à covid-19: "No nosso hospital  temos tido um pequeno número de doentes internados por outro motivo que testam positivo para covid", revela à CNN Portugal.

No fim de semana passado tiveram duas crianças internadas por outras patologias mas que testaram positivo à covid-19, que entretanto tiveram alta. "Na segunda-feira foi admitida uma, não pela doença covid, mas por ter outra doença que exigiu internamento para estudo", explica, acrescentando que no serviço de pediatria a taxa de positividade de testes covid atingiu um pico de 20% a 29 de dezembro.

"O que aumentou foi o recurso à urgência durante o mês de novembro com números muito acima da média do que aconteceu na última década", afirma Eunice Trindade. "Desde o encerramento das escolas, o movimento no serviço de urgência reduziu cerca de 30% e a taxa de positividade para covid na última semana já foi cerca de 12%."

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