opinião
Embaixador e Comentador da CNN Portugal

2027

24 abr, 16:22

No final de 1999, um rumor correu nos corredores de Bruxelas: os conservadores austríacos preparavam-se para constituir governo com um partido de extrema-direita. 

Por cá, pela península ibérica, o tema parecia bizarro. Havia a ideia de que, talvez por terem tido ditaduras recentes, Portugal e Espanha estavam imunes a essas influências radicais. Olhava-se o assunto como um problema dos outros, embora não deixando de questionar o seu impacto futuro sobre o destino do projeto europeu. Mas não, “nós estamos livres disso!”. Viu-se! Com o Chega e com Vox, uns anos mais tarde, constatou-se como estávamos a ser ingénuos.

Como alguns se recordarão, o “caso austríaco” acabou por se acontecer, no início de 2000, durante a nossa presidência da União Europeia, condicionando fortemente o desenrolar do nosso semestre de forte exposição internacional.

Das várias lideranças europeias que então se iam pronunciando sobre o assunto, o presidente francês, Jacques Chirac, era, a grande distância, a mais vocal. Por que seria?

A direita francesa mantinha, em tese, uma saudável rejeição do ideário clássico da extrema-direita. O general De Gaulle tinha-se rebelado contra Pétain, contra o regime de Vichy e o vergonhoso colaboracionismo, cúmplice das barbáries nazis. Mais tarde, a V República tinha criado uma espécie de cordão sanitário, até no sistema eleitoral, face ao vírus fascista. 

Este, contudo, não desaparecera: na OAS e nos militares de Argel, bem como numa área política em que o nome de Tixier-Vignancour era o mais proeminente, a extrema-direita continuava a fazer o seu caminho. O nome de Jean-Marie Le Pen, com o seu Front National, surgiu em seguida, persistindo em ideias similares, cavalgando medos e preconceitos. 

Chirac tinha assim razão em preocupar-se. Em 2002, dois anos depois do “caso austríaco”, um escândalo político acabou por produzir-se em França: contrariando todas as expetativas, o socialista Lionel Jospin foi afastado do segundo turno das eleições presidenciais e Chirac viu-se sozinho perante a extrema-direita, titulada por Le Pen. A onda de indignação rendeu-lhe um resultado histórico, quiçá ilusório. Le Pen ficou isolado. Mas a extrema-direita não desapareceu e ficou por ali.

Nesse ano de 2002, contra Chirac, Jean-Marie Le Pen só obteve 17,69 %. Cinco anos depois, em 2007, baixou mesmo para 10,44%. A extrema-direita estava em inapelável recuo? Se se reler o programa do vencedor dessa eleição, Nicolas Sarkozy, da direita clássica, constatar-se-á que ele surge já muito “colonizado” por aquilo que era a agenda da direita bem mais radical, o que o terá convertido no usufrutuário do voto útil dos eleitores de Le Pen. Seria essa, aliás, e talvez não por acaso, a última vez que a direita clássica ocupou o Eliseu. 

Passaram, entretanto, mais cinco anos: em 2012, a filha de Jean-Marie, Marine Le Pen, surge sob a mesma bandeira política do seu pai. Obtém 17,9% dos votos, superando, logo na primeira volta, o resultado que o seu pai, em 2002, tivera na segunda volta contra Chirac. E chegamos a 2017. Marine de Le Pen obtém 21,3 % na primeira volta e 33,9% na segunda. Não ganhou, claro, mas o “trend” confirmou-se.

Serão os dias tensos que correm na Europa que nos levam a dramatizar o que se passa em França? Mas é inevitável que olhemos para as eleições presidenciais francesas com um sentimento de alguma angústia. Ver a extrema-direita a crescer, desde há vários anos, naquele que é um país axial do projeto europeu, colocando em potencial risco o modelo institucional, ético e político, a que, a partir de 1986, nós, os portugueses, ancorámos o nosso futuro, induz-nos uma ideia da fragilidade daquilo que tínhamos por seguro. 

Hoje, 24 de abril de 2022, o dia acabará connosco a refletir sobre os novos números. E a perguntarmo-nos: daqui a cinco anos, quem presidirá à França?

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