Ter a certeza de que queremos o outro Roberto Martínez de volta: o melhor do Portugal-Chéquia

19 jun, 02:29
Roberto MArtinez

PORTUGAL 2-1 CHÉQUIA || Continuamos apaixonados por si. Precisamos é de saber se você continua a estar apaixonado por nós ou se passou a estar mais preocupado que apaixonado

A Chéquia é abnegada, fria, fechada, são excelentes qualidades para ganhar um euro 2004; Portugal é confuso, indefinido, indeciso, juntem-lhe a sorte que teve nos dois golos diante dos checos e Portugal tem todas as qualidades para vencer um euro 2016 mas a questão é que isto é 2024, "eu não confio nesta seleção", diziam aqui na redação da CNN aos 40 minutos de jogo, "ele vai ter de mudar alguma coisa ao intervalo", "ele" é obviamente Martínez, "isto não faz sentido nenhum", "isto" é a maneira como a seleção estava a jogar, mas os números eram assim aos 40 minutos:

Portugal com 73% de posse, oito remates para um da Chéquia (e esse único nem sequer foi enquadrado), Portugal com 38 ataques para cinco do adversário, sete cantos para nenhum da Chéquia, a eficácia de passe portuguesa nos 90% e a do rival nos 72% (a pior do Euro até àquele momento e ficou pior), a Chéquia já tinha corrido mais 3,2 km que Portugal naqueles 40 minutos, ao menos nisso estávamos a cansá-los apesar de o mais cansado ser Bernardo, era o jogador com mais quilómetros em campo porque era também o mais vagabundo nele, Bernardo dispunha de liberdade total que se que incompatibilizou com a anarquia em curso - Nuno Mendes era um central à força que não resistia à paixão de estar em campo como lateral (e essa desobediência ajudou ao autogolo que os checos nos deram), Cancelo ora chocava com Rafael Leão, ora com Nuno Mendes, que por sua vez chocava com Rafael Leão; Bruno Fernandes, o segundo jogador que correu mais em todo o jogo, corre pior quando não tem o segurança Palhinha a guardar-lhe as portas do meio-campo defensivo; Dalot é demasiado novo para ter ouvido punk anárquico e por isso sentiu-se desconfortável naquela rebeldia tática; sobrava o nosso mosqueteiro Vitinha para pôr ordem em tanta desordem, fez o que pôde e fez muito bem, mas "um por todos" não funciona muito bem no futebol moderno, as estrelas decidem jogos mas as equipas ganham competições. 

E Portugal não foi uma equipa, foi uma experiência que só não nos custou três pontos porque houve sorte - o empenho esteve lá mas a desorientação impôs-se, apesar de termos sido fortíssimo em abstrato: Portugal sai deste jogo como a equipa do Euro com mais posse nesta jornada (69%, depois a Alemanha com 68% num jogo em que esmagou 5-1), Portugal torna-se a terceira seleção com mais remates (19 que deram um golo porque o outro foi autogolo, a Turquia fez três golos em 22 remates, a Alemanha cinco golos em 20 remates), Portugal é a equipa com mais ataques (75, a Alemanha tem 63), somos de longe a equipa com mais cantos (13, desaproveitados; a Espanha tem cinco e já fez um golo a partir de uma dessas bolas paradas), só a Itália fez mais passes que nós (Portugal tem 712 e a Itália 820, mas nós temos 87% de passes bem-sucedidos e a Itália 93%) e agora convém virar estes números de avesso: a Chéquia é a segunda equipa com menos remates (cinco, os mesmos de Inglaterra, a Escócia é a pior, fez um), a Chéquia é a terceira equipa que atacou menos e não tem cantos (tal como Croácia e Escócia), foi a terceira equipa que fez menos passes (só a Roménia e a Escócia fizeram pior), a Chéquia tem a pior eficácia de passe (68%) e é a terceira equipa mais desgastada durante um jogo (Sérvia e Inglaterra, que jogaram entre si, são as únicas que têm mais quilómetros). Viram os denominadores comuns? 

Escócia e a Chéquia tem genericamente os piores indicadores, Portugal e a Alemanha os melhores: a diferença pouco subtil é que a Escócia levou uma porrada da Alemanha e a Chéquia ia vencendo Portugal não fosse um autogolo e dois dos seus jogadores terem tido acidentes gravitacionais no lance do segundo golo - Portugal hoje não foi uma equipa, foi uma experiência que só não nos custou três pontos por sorte. Tirar Palhinha, ter três laterais de raiz em simultâneo em que dois deles estão fora de posição, ver dois médios desassossegados nas suas movimentações devido à ausência do seu guarda-costas, tudo isso mexe não só com as posições em que o treinador experimentou mas em todo o esqueleto da equipa, contaminam o sangue dela.

Concluo: quando diziam aqui na CNN aos 40 minutos "não confio nesta seleção" eu pensei "não confio é neste Roberto Martínez, confio é naquele Roberto Martínez certeiro que chama espalha-brasas ao Francisco Conceição, não confio neste Roberto Martínez que inventa problemas, confio é naquele Roberto Martínez estável que tínhamos antes de perdermos com a Croácia", porque a inventar é precisamente em jogos como esse da Croácia, quando não contam para nada, aí perde-se e aprende-se, nestes a sério é para não inventar, aí depende-se menos da sorte e mais de todo o nosso potencial.

 

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