«No Benfica não tive sorte, tive competência»

21 abr, 09:33
Beto

Destinos com Beto, o médio brasileiro que jogou sete anos em Portugal e tem um lugar especial na memória do Benfica por aquele golo ao Manchester United em 2005. Chamavam-lhe chuta-chuta, também lhe chamaram coisas menos simpáticas na Luz, mas ficam as boas memórias e muitas histórias para contar

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias de décadas passadas e marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

Beto chegou a Portugal em 2000, depois de José Mota o descobrir no Brasil. Custou-lhe o frio, mas adaptou-se bem ao clube e à cidade pequena, «que nem enchia o estádio». Depois de quatro épocas seguiu para Aveiro e a temporada no Beira-Mar, apesar da descida de divisão, valeu-lhe a transferência para o Benfica. O FC Porto, conta, também o queria nessa altura.

Desde a chegada à Luz muitos olharam-no de lado. Os adeptos queriam reforços mais sonantes, diz. Mas chegou ele, o médio voluntarioso que foi aposta regular de Ronald Koeman e jogou muito nessa temporada 2005/06. Foi utilizado em 37 jogos e faz questão de lembrar como o treinador holandês chegou a dizer que «se tivesse 11 Betos perdia menos jogos». O que o distinguia, diz, era a «força física» e a  «vontade de ganhar, nem que fosse a jogar palitinho». Além do remate forte. Chamam-lhe até hoje «chuta-chuta»: «A bola está picando na frente da área e eu não tenho vergonha de errar a baliza.»

Em duas épocas na Luz, no entanto, só marcou um golo. Mas esse, só por si, reserva-lhe um lugar especial na memória do clube: foi o golo que garantiu a vitória sobre o Manchester United na Liga dos Campeões, a fechar a fase de grupos. A conversa passa, claro, por aquela noite de 7 de dezembro de 2005. Beto lembra o lance, as provocações dos companheiros a «tirarem onda» e a resposta às críticas dos adeptos no final do jogo.

Com Fernando Santos e a chegada de Katsouranis passou para segundo plano na Luz. Seguiu-se a Suíça, depois a Grécia e o regresso ao Brasil. Aos 45 anos, está a trabalhar na captação de jogadores, com o mercado português em vista. E continua a jogar, e a marcar golos de livre.

Como surgiu a oportunidade de vir para Portugal em 2000?

Eu estive no Paraguai e no Uruguai, depois voltei para o Brasil. Aí o José Mota veio procurar jogadores aqui no Brasil, viu-me jogar em Recife e eu fui para o Paços de Ferreira, que tinha subido da segunda para a primeira. A minha ida para Portugal foi através do José Mota, que veio buscar jogadores aqui através do empresário Robério Lopes, que não está mais entre nós. Fizeram uma proposta de quatro anos e eu aceitei.

Como foram essas épocas no Paços Ferreira?

Chegando lá, era tudo muito diferente. O frio… A língua nem tanto, mas principalmente o frio, era muito frio lá. Mas adaptei-me bem ao ambiente do Paços de Ferreira, que era uma equipa pequena mas fazia bons jogos. O José Mota era treinador e já tinha jogado lá, já conhecia a casa, ele foi passando muitas informações e a gente foi se adaptando ao clube, à cidade, uma cidade pequena, na altura tinha oito mil pessoas. Nem enchia o estádio. Mas era um clube que tinha garra, vibração. A gente aprendeu a gostar do Paços de Ferreira.

E depois foi para o Beira-Mar…

Aí eu tinha terminado os quatro anos de contrato, queriam que eu renovasse mas o Beira-Mar fez uma proposta melhor. Também tinha subido para a primeira divisão e o Beto resolveu ir para o Beira-Mar. Eu particularmente fiz um bom campeonato, mas o Beira Mar desceu de divisão e eu fui vendido para o Benfica. Na altura já era o meu sonho jogar num clube grande. Também tinha proposta do FC Porto. Estive reunido no antigo estádio das Antas com um diretor do clube, mas quando terminou a reunião fui para casa e ligou-me o Benfica para ir para lá logo no dia seguinte de manhã e assinar contrato com o Benfica. Não pensei duas vezes.

Preferiu o Benfica?

Preferi o Benfica porque eles fizeram a proposta logo pelo telefone e disseram, venha para cá para assinar contrato, o contrato já estava feito. O presidente Mano Nunes também tinha uma boa relação com o Luís Filipe Vieira, com o José Veiga, na época, e no outro dia de manhã queriam que eu estivesse lá no Estádio da Luz às oito horas da manhã.

O FC Porto não apresentou uma proposta concreta?

O diretor do Porto tinha-me ligado para ir lá conversar com ele. Eu fui, mas na altura o Pinto da Costa estava a viajar. Eu tinha que esperar, voltar… Mas a conversa que tive com o Benfica foi boa. Nunca tive conversa com o Pinto da Costa.

Então foi para o Benfica…

E no Benfica você já sabe. Cheguei, todo mundo criticava que era um jogador que vinha de um clube sem expressão, que tinha muitos jogadores lá mais com mais condições… Mas eu cheguei lá, procurei fazer o meu melhor e… Não tive sorte, tive competência de fazer o meu melhor e de o treinador, o Ronald Koeman, dar continuidade e apostar nas minhas qualidades, na minha força, na minha técnica. Até disse uma vez que se o Benfica tivesse 11 Betos o Benfica não perdia tantos jogos. Disse isso numa entrevista, não foi a mim. Disse numa conferência de imprensa. Porque os jornalistas perguntavam porque o Beto joga tanto. Aí ele respondeu: ‘Se eu tivesse 11 Betos não perdia tantos jogos’.

Quais acha que eram as suas qualidades como jogador?

As minhas qualidades eram força física, bom chute que eu tinha de fora da área. No Benfica também gostava de rematar, tinha essa qualidade, nunca deixei.

Chamavam-lhe chuta-chuta, não era?

É. Até hoje ainda continuo o chuta-chuta. A bola está picando na frente da área e eu não tenho vergonha de errar a baliza. É errando que a gente aprende.

No Beira Mar marcou seis golos, foi a sua melhor época…

Marquei seis golos e mais três noutros jogos. Foram nove golos nessa época. Até ao Benfica eu marquei, e ao Porto. Acho que foi aí que apareceu a oportunidade de ir para um grande. Marquei todos esses golos de fora da área.

Também de livre, não foi?

Exacto, de livre também.

Mas foi ouvindo muitas críticas. Porque é que acha que acontecia? Por não ter tanta técnica como outros jogadores?

Sim, penso que sim. Porque os adeptos estavam acostumados a trazer grandes estrelas. Então nessa época eu acho que o Benfica não contratou grandes medalhões. Mas os jogadores que foram para lá, como todos viram, chegamos nos quartos de final da Liga dos Campeões. Fazia 20 anos que o Benfica não passava dos oitavos de final e nesse ano eliminámos o Manchester United, o Liverpool… Então, é para você ver a qualidade do plantel que era. Não é a mesma coisa que hoje, o futebol vai atualizando a cada minuto. O futebol do Benfica sempre tinha técnica, garra, vontade. O jogador que chegar no Benfica e não tem aquela garra de querer ganhar sempre eu acho que nunca vai vencer no Benfica.

O Beto tinha essa garra?

Sim, desde o começo da minha carreira. Sempre tive essa vontade de querer ganhar, nem que fosse a jogar palitinho, dominó, baralho… Eu sempre tinha muita vontade de ganhar em qualquer jogo.

Vamos lá ao jogo com o Manchester United. O que é que se lembra dessa noite?

Todas as vitórias são importantes, mas essa foi mais importante porque o Benfica há muito não passava dos oitavos e marcar um golo importante, ficar marcado na história e ser relembrado, é muito importante. O maior ponto da minha carreira foi esse com o Manchester. Também fizemos outros bons jogos, mas esse fica marcado pelo golo e pela vitória.

Ainda consegue descrever o golo?

Foi uma bola que o Geovanni passa para o Nélson, o Nélson cruza, o Alan Smith rebota para a entrada da área e, como o relvado estava um pouco molhado, eu não tive dúvidas de chutar de primeira, forte. A bola desviou num zagueiro do Manchester e traiu o guarda-redes. E só parou no fundo da rede.

 

Foi uma festa gigante, imagino...

Sim, nesse dia foi uma festa maravilhosa. Não só para mim, para todos os jogadores, os adeptos. No final foi a maior festa do plantel junto dos adeptos. Eu sabia que não eram todos os adeptos que gostavam do Beto, mas a maioria sim… Eu no final disse que nem Jesus agradou a todo o mundo, não é o Beto que ia agradar. Nos jornais do outro dia passou a ideia que o Beto disse que quer que os adeptos se lixem. Mas eu nunca falei isso. Expressei-me mal, entenderam mal.

O que é que lhe disseram o treinador e os companheiros depois do golo?

A gente saía sempre, eu o Luisão, o Simão, o Nuno Gomes, o Petit, o Nuno Assis, o Marco Ferreira, a gente saía para jantar em família. Comemorámos juntos, todos a dizer que aquele foi o momento alto da minha carreira e a dar-me os parabéns. Tirando onda, como a gente diz no Brasil. Eu estava muito feliz, pelo golo e pela moral que o jogador recebe. Cada dia que treinamos é para fazer esse jogos e dar o melhor para a equipa.

A seguir eliminaram o Liverpool, conseguiram naquela época o que o Benfica não conseguiu agora…

Exato. Com o Liverpool ganhámos 1-0 e no jogo de Anfield Road, que todo o mundo pensava que o Benfica ia para lá e ia encostar a bunda na parede, chegamos lá e jogámos de igual para igual. Não fomos lá para defender. Fizemos o 1-0 com qualidade, jogando muito bem, com personalidade. Tive a sorte de novo de participar no segundo golo, do Miccoli, foi um passe meu para ele com um centro-remate que deu certo e ele fez um grande golo. Eliminámos o campeão europeu em título. Depois de eliminarmos o Manchester, eliminar o campeão na sua casa foi histórico.

Estava encarregado de marcar o Steven Gerrard…

É. Com o Barcelona tive a missão de marcar o Deco, com o Liverpool foi o Gerrard, contra o Manchester United o Paul Scholes. Eram sempre os jogadores que alimentavam o meio-campo. O Koeman deixava sempre essa missão para mim, porque tinha força física tanto para defender como para atacar. Quando atacasse estaria livre para ir para qualquer lado e quando a equipa adversária tivesse a posse de bola procurar sempre não deixar jogar, não deixar criar a jogada. O Koeman sempre deixava essa missão para mim. Eu fui me destacando através dele, ele sempre me deu apoio, sempre me deu confiança.

Com o Barcelona é que já não correu bem…

No primeiro jogo empatámos 0-0, no segundo estivemos ali no Camp Nou com uma equipa que foi campeã, defrontámos uma grande equipa. Mas demonstrámos em todos os campos que jogámos para vencer. Tivemos a infelicidade de sofrer dois golos, o Simão teve uma oportunidade no final com uma bola no poste. Chegámos onde nos deixaram chegar e acho que deixámos os benfiquistas orgulhosos.

Na época seguinte chegou o Fernando Santos e o Beto passou a jogar menos.

Sim, o Fernando Santos já tinha conversado comigo que contava comigo, mas que estava a trazer o Katsouranis, que era um jogador que já vinha com ele do AEK e ele tinha muita confiança no Katsouranis. Então, ele deixou bem claro que se eu quisesse sair as portas estavam abertas, mas que contava comigo. Então eu disse para ele que como eu tinha feito uma boa época no Benfica, eu não queria sair. Tinha mais dois anos de contrato. Disse ao Fernando Santos que queria continuar, queria treinar, queria disputar a posição com qualquer um que chegasse. Não me arrependo. Eu tinha propostas para sair para Espanha, para França, mas eu queria continuar no Benfica. Fiz poucos jogos e foi aí que no final do ano apareceu a proposta do Sion. Fez uma proposta de contrato de três anos, eu tinha um ano de contrato com o Benfica. Tinha 31 anos, terminava com 34, o Sion ia disputar a Taça UEFA e então decidi ir para o Sion. Já tinha aceitado a proposta do Sion quando estava de férias no Brasil, fui lá despedir-me dos jogadores e do mister Fernando Santos. Ele hoje está a fazer um grande trabalho aí na seleção portuguesa e acho que vai fazer um bom Campeonato do Mundo. Tem um excelente grupo. Eu hoje também tenho dupla nacionalidade, tenho nacionalidade portuguesa e também vou torcer por Portugal. É um orgulho, fico muito feliz por ter jogado em Portugal e ser português.

Volta a Portugal com regularidade?

Volto, já voltei umas três vezes. Agora levei até aqui um jovem de 13 anos para fazer umas avaliações aí tanto no Benfica como no Paços de Ferreira. A gente ano a ano está a aperfeiçoar esse garoto para futuramente poder levar ele aí.

É esse trabalho que está a fazer agora, de prospeção de jogadores?

Exatamente. Não só para aí como para a Suíça também e para a Grécia, onde estive cinco anos. Principalmente Portugal, que é a porta para a Europa. Tentamos capacitar os jovens talentos aqui e levá-los para aí.

Já faz esse trabalho há muito tempo?

Não muito, porque faz pouco tempo que eu parei de jogar, faz cinco anos. Então, teve a pandemia, estávamos a começar e apareceu a pandemia, ficámos um pouco bloqueados, mas as coisas agora parecem estar a voltar ao normal, vamos ver o que dá. Mas tem vários jogadores aqui já referenciados, principalmente aqui no Nordeste.

E continua a jogar, não é? E a marcar golos de livre…

Continuo a jogar aqui nos campeonatos de base. E continuo a marcar golos de livre, tenho até uns vídeos... Quem jogou nunca deixa de ser jogador. Hoje continuo a fazer a minha bolinha aqui nos campeonatos regionais. Não é como se fosse profissional, mas tem a mesma rivalidade. E nesses campeonatos aparecem grandes jogadores.

 

Está a fazer esse trabalho para algum clube em Portugal?

Não. Falo mais com o Paços Ferreira, onde joguei e até hoje tenho amizade com o senhor António Oliveira, o Toni, e com o Benfica, que tem o Luisão e o Rui Costa, hoje presidente. Tive o prazer de jogar com essa fera, um dos jogadores de top do futebol mundial. Mas não há um clube específico. A gente referencia jogadores aqui, tem vídeos, a gente vai mostrando o que tem aqui de bom e possa interessar ao futebol português.

Ficou com muitas amizades da passagem por Portugal?

Sim, fiquei. Hoje o David Luiz está aqui, o Luisão continua no Benfica. O Simão, que esteve aqui em Recife a jogar pelo Barcelona, o Nuno Gomes, que sempre falo pelo Whatsapp, o Petit, que hoje é treinador… Ainda continuo com essas amizades.

E de Portugal, tem saudades de alguma coisa?

Principalmente do Benfica, daquele ambiente de balneário, a gente guarda para sempre. Mas tenho recordações de tudo. O clima, o bacalhau… Aquelas tascas maravilhosas que aqui no Brasil não tem. Quanto estou com o José Mota ele sempre me leva para as tascas, a gente come à vontade, bebe uma mini, é maravilhoso. Esse tempo de Portugal, a comida, para mim vai ficar marcado para sempre.

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