«Vale e Azevedo vendeu-me, disse que era empréstimo e ficou com o dinheiro»

11 mar, 10:05
Tahar El Khalej

O Maisfutebol parte ao encontro de um dos bons marroquinos que nos anos noventa jogaram em Portugal: Tahar El Khalej, médio que também podia ser central e viveu de perto a pior fase da história do Benfica. Uma conversa cheia de histórias imperdíveis.

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias de décadas passadas e marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

Tahar El Khalej chegou a Portugal para brilhar na U. Leiria, mas foi no Benfica que ganhou projeção internacional. Não teve sorte com a fase coletiva que apanhou, aquele Benfica era muito desorganizado, mas diz que ainda hoje é o clube que lhe bate mais forte no peito.

Fez parte da melhor geração do futebol marroquino, jogou dois Mundiais e guarda com carinho a carta da FIFA a reconhecê-lo como melhor assistente do França-98.

Nesta entrevista ao Maisfutebol, Tahar recorda o jogo em que o Benfica perdeu 7-0 em Vigo, depois de alguns jogadores terem ido para as compras, a rocambolesca transferência para o Southampton e o dia em que Nuno Gomes fez a melhor exibição que viu a um avançado.

A conversa passa também por Inglaterra e por uma história engraçada, que o obrigou-o a contratar uma equipa de seguranças para sobreviver à implacável imprensa britânica.

Como é que começa a sua paixão pelo futebol?

Como qualquer rapaz, apaixonei-me pela bola logo pequenino, na minha cidade de Marraquexe. Tinha dias em que começava a jogar com os meus amigos às quatro ou cinco da manhã.

E também via futebol ou só jogava?

Via, via, desde criança que gosto de ver futebol. Naquela altura, nos anos 70, não havia muitas televisões aqui em Marraquexe, mas tínhamos um amigo que era filho de um pai muito rico. Então íamos para casa dele e víamos os jogos do campeonato brasileiro através de canais satélite. Às vezes também apanhávamos jogos na RTP e foi por isso que me apaixonei pelo Benfica.

Começou a jogar muito novo?

Sim, comecei por volta dos nove ou dez anos, num pequeno clube que formei com os meus amigos, que era o Union. Depois com 12 anos fui para o Kawkab Marraquexe, que é o clube grande da cidade. Aí é que comecei a jogar e a aprender a sério.

Estreou-se nos seniores com 17 anos, não foi?

Com 17 anos fui pela primeira vez titular, num jogo do Kawkab em Marraquexe contra o FAR Rabat. Mas antes disso, com 16 anos, já me tinha estreado num jogo frente ao Raja Casablanca. Faltavam dez minutos para acabar o jogo, o defesa lesionou-se e eu entrei.

E depois chegou à seleção principal também muito novo, não foi?

Sim, estreei-me pela seleção em 88/89, com vinte anos, num jogo com a Costa do Marfim. Foi uma eliminatória de apuramento para a CAN e ganhámos por 3-1, em Casablanca.

Pouco antes Marrocos tinha eliminado Portugal do Mundial 86. Lembra-se disso?

Como podia não me lembrar? Foi uma festa enorme. O país inteiro saiu à rua a festejar. Acho que passei três dias sem dormir. Foi a primeira vez que uma seleção africana se apurou para os oitavos de final, foi uma festa enorme, uma loucura de toda a gente. Curiosamente no ano a seguir, em 87, eu cheguei a treinar com esta seleção. Eles estavam a fazer um estágio aqui em Marraquexe e precisavam de jogadores para treinar. Como eu já fazia parte das seleções jovens desde os 15 anos, já me conheciam e chamaram-me para fazer um jogo-treino de preparação para uma eliminatória com o Mali. De repente vi-me no balneário com lendas como Bouderbala e Timoumi.

Para si deve ter sido um sonho...

Sim, sim, completamente. Aquilo foi um ano e meio depois daqueles jogadores fazerem história no futebol africano. Ainda hoje fico emocionado. Quando entrei no balneário para me equipar fiquei num canto, olhava para ver como eles faziam e tentava imitá-los.

Curiosamente o Tahar depois fez parte de uma geração de ouro do futebol marroquino.

Sim, e ganhei o prémio de jogador com mais assistências do Mundial 98. Fiz três passes decisivos para golo, um para o Hadji, um para o Bassir e um para o Kamatcho. A FIFA até me mandou uma carta a oficializar isso e se forem ao site do Mundial 98 eu apareço em primeiro e o Zidane em segundo. Ele também fez três assistências, mas eu ganhei porque joguei menos jogos.

Foi pena aquela seleção fantástica não passar aos oitavos de final.

Foi terrível. Nós precisávamos e ganhar e ganhámos à Escócia por 3-0, mas também era preciso a Noruega não vencer. Estávamos quase a passar e aos 88 minutos há um penálti a favor da Noruega, que vence o Brasil. Aquilo foi um banho de água gelada em cima de todos os marroquinos.

Ainda por cima o Brasil de 98 era superfavorito.

Exatamente. O Brasil de Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Bebeto, Cafu. Nunca pensámos que ia perder com a Noruega. Aliás, nesse Mundial ganhou todos os jogos menos esse e a final com a França. Foi uma desilusão, toda a gente a chorar no fim do jogo. Mas quando regressámos a Marrocos fomos recebidos como uns heróis, como se tivéssemos ganhado o Mundial.

Ai foi?

Sim, porque as pessoas falavam que aquele jogo tinha sido combinado. Mesmo a imprensa europeia dizia que aquilo não era normal. Curiosamente no fim do jogo com o Brasil eu fui ter com o Ronaldo e, como já jogava em Portugal, falei com ele em português: ‘Se faz favor, ganhem à Noruega’. E ele respondeu-me: ‘Fica descansado. Ganhem à Escócia, que nós vamos fazer o nosso melhor e vamos ganhar à Noruega’. E ainda me disse ‘boa sorte’.

Foi pena porque essa seleção era fantástica, Hadji, Naybet, Bassir, Tahar, Saber...

Sim, foi a melhor seleção da história de Marrocos. Conhecíamo-nos muito bem, estávamos quase há dez anos juntos. Mas não ganhámos nada. Uma das piores derrotas da minha vida foi na Taça das Nações Africanas de 98, quando fomos eliminados nos quartos de final pela África do Sul, com um golo de cabeça do McCarthy. Esse jogo e essa CAN era para ganhar. Curiosamente na fase de grupos tínhamos vencido o Egito, que depois foi campeão.

E como é que o Tahar, que na altura tinha acabado de jogar o Mundial 94, foi para a U. Leiria, que tinha acabado de subir à primeira divisão?

Eu até tinha uma proposta do Estrasburgo, que estava na Liga Francesa, mas já sabia que se fosse para a U. Leiria, depois ia dar o salto para um clube grande de Portugal. E assim foi. As coisas na U. Leiria correram muito bem. No primeiro ano ficámos em sétimo e até fomos jogar a Taça Intertoto. No segundo ano fomos às meias-finais da Taça de Portugal.

O treinador era o Vítor Manuel.

Exatamente, o Vítor Manuel que agora tem um filho no FC Porto, como adjunto do Sérgio Conceição [Vítor Bruno]. Lembro-me que na altura era um menino pequeno, que andava sempre por lá, eu pegava muito nele ao colo e brincava com ele. Curiosamente agora tenho um filho no Sintrense, que jogou com o FC Porto na Taça de Portugal, e o filho do Vítor Manuel foi ter com o meu filho e disse-lhe ‘dá lá um grande abraço ao teu pai’. Isso é bom. Fiquei muito contente. O Vítor Manuel é um grande amigo, um grande homem e aprendi muito com ele.

E o que é que se lembra da meia-final da Taça que a U. Leiria jogou na Luz?

[risos] O que campo estava cheio, oitenta mil pessoas. O Benfica tinha uma grande equipa, muitas estrelas, com João Pinto, Preud’homme, Valdo, Panduru, Iliev, Calando, Hassan. Nós fizemos um grande jogo, estivemos muitas vezes perto de marcar e fomos a prolongamento. O Benfica fez dois golos, mas o segundo foi irregular, porque o João Pinto ajeita a bola com a mão. Mas pronto.

Curiosamente poucos meses depois vai para o Benfica.

Sim. No meu primeiro ano em Leiria, o meu empresário, que era o Lucídio Ribeiro, já tinha sido contactado pelo Sporting. Mas as coisas não avançaram. No segundo ano fui em vários jogos o melhor em campo, apareceu o FC Porto e o Pinto da Costa foi almoçar com o meu empresário. A notícia até saiu para os jornais e houve um que fez na capa uma montagem comigo vestido com a camisola do FC Porto. Nesse dia, o Toni ligou-me a dizer que queria almoçar comigo. Fui ter com ele a Lisboa, almoçámos num hotel à entrada da cidade e disse-me que o Benfica estava muito interessado em mim. Eu fiquei muito contente, porque desde pequenino que gostava do Benfica, desde que via os jogos na RTP, e escolhi o Benfica.

E vai como médio defensivo ou como central?

Médio defensivo, central, lateral direito, eu era tudo. Até fui duas vezes guarda-redes na U. Leiria.

A sério?

Sério, sério [risos]. Uma vez com o V. Guimarães e uma vez com o Marítimo. O guarda-redes foi expulso e eu fui à baliza. Joguei quase um total de vinte minutos nos dois jogos. Foi bom, foi uma grande experiência, ainda agarrei algumas bolas. No Benfica guarda-redes nunca fui.

Mas foi lateral direito, é verdade.

Sim, o Graeme Souness gostava que a equipa mantivesse sempre três atrás. Como na esquerda tinha o Scott Minto, que subia muito, metia-me a mim na direita, que fazia de terceiro central, ao lado do Gamarra e do Bermudez.

E o que se recorda mais da sua passagem pelo Benfica?

Lembro-me da final da Taça que perdemos frente ao Boavista, em que o Nuno Gomes marcou um golo e sofreu um penálti. Eu não queria jogar essa final, porque tinha voltado na seleção lesionado, tinha muitas dores e levei com vários medicamentos para jogar. O Manuel José queria que eu jogasse. Ao intervalo disse que não dava mais e saí.

Curiosamente nessa final os golos são marcados pelo Sanchez e o Nuno Gomes, que já estavam contratados pelo Benfica.

Sim, toda a gente sabia que iam ser jogadores do Benfica e talvez por isso quisessem mostrar mais. Sobretudo o Nuno Gomes, que acho que deve ter feito o melhor jogo da carreira. Joguei contra muitos bons jogadores, mas nunca vi um avançado fazer um jogo assim como ele. Ia buscar a bola, pressionava, corria que ninguém o apanhava, não imaginam o que foi aquele jogo dele. Quando no ano a seguir chegou ao Benfica, fui falar com ele. ‘Nunca vi um avançado fazer um jogo assim. Tu é que ganhaste a Taça’. Ele começou a rir-se, mas é verdade.

Depois também esteve nos 7-0 de Vigo, não foi?

Sim, estive como suplente. Entrei nos últimos minutos. Esse jogo nunca podia ter acontecido, o Benfica não pode perder por esses números com uma equipa do meio da tabela em Espanha.  É verdade que o Celta de Vigo tinha bons jogadores, Makelele, Karpin, Mostovoi, mas era uma equipa do meio da tabela. Esse Benfica não estava bem. Na manhã do jogo alguns jogadores saíram para ir fazer compras ao El Corte Inglés, voltaram ao hotel cheios de sacos. O clube estava muito desorganizado. Já tinha pensado que íamos perder, mas nunca daquela maneira. O pior foi quando voltámos nessa noite ao Estádio da Luz.

Então?

Os adeptos queriam matar-nos. Era noite e esta muita, muita gente junto às portas do estádio. Nessa noite os adeptos disseram aos dirigentes que queriam entrar no primeiro treino da equipa. E entraram. Então no dia a seguir estavam para aí uns trinta mil adeptos nas bancadas. Quando começámos a correr à volta do campo, nem imagina: toda a gente a insultar-nos e a cuspir-nos. E nós sem reagir, caladinhos. Merecíamos aquilo. Não podíamos perder daquela forma.

Mas o Benfica nesse período teve muitos bons jogadores.

Sim, sim, claro. Poborsky, Preud’homme, João Pinto, Gamarra, Nuno Gomes. Tinha bons jogadores. Só que todos os anos vinham oito, dez, doze jogadores novos. Costumo dizer que no Benfica apanhei com jogadores de todos os países. Romenos, ucranianos, brasileiros, búlgaros, ingleses, belgas, argentinos, colombianos, enfim. E em quatro anos tive sete treinadores: Paulo Autuori, Graeme Souness, Jupp Heynckes, Nelo Vingada, Manuel José, Shéu e Mário Wilson.

Curiosamente o 7-0 em Vigo é o seu último jogo no Benfica, não é?

Sim, depois eu vou para o Southampton. O que também teve história.

Porquê?

Porque o Vale Azevedo vendeu-me para o Southampton, disse que eu tinha sido emprestado e ficou com o dinheiro. Eu fui a Inglaterra, assinei por três anos e nessa noite voltei a Portugal para vir buscar as minhas coisas. Quando estava no aeroporto encontrei um dirigente do Benfica, que me veio cumprimentar. ‘Tu vais, mas para o ano contamos contigo’. Disse que não, que não voltava. ‘Não voltas porquê? Tu vais por empréstimo.’ Foi aí que eu disse que não, que tinha assinado por três anos e o homem deitou as mãos à cabeça. O Vale e Azevedo disse a toda a gente que eu ia por empréstimo para ficar com o dinheiro.

E sabe qual foi o valor da transferência?

Não sei. Isso só o Vale e Azevedo e o presidente do Southampton é que sabem.

Quando saiu, sentia que já era a altura de sair?

A proposta era boa, ofereceram-me um bom salário e eu também queria mudar, porque toda a gente naquela altura queria ir para Inglaterra. Nesse sentido fiquei contente, mas o Benfica é o único clube que trago no meu peito. Estou em contacto com alguns jogadores, com alguns dirigentes, ainda falo com o Hélder, com o Shéu, enfim.

Em Inglaterra acaba por ter uma história engraçada que foi aquela com o Dyer, não é?

Engraçada? Engraçada agora, porque há vinte anos não teve graça nenhuma. Foi no último jogo da época, Southampton-Newcastle, era um daqueles jogos que não interessava para nada a nenhuma das equipas. O jogo foi num sábado e na segunda-feira tinha saído a lista de jogadores para o Mundial e o Dyer estava lá. Num carrinho normal, o joelho dele ficou preso e saiu lesionado. Nem imagina o que eu passei... Caiu toda a gente em cima de mim.

O Dyer nessa altura era dos melhores jogadores da seleção inglesa.

Sim. Até guarda-costas tive de contratar. Não podia sair de casa, não podia sequer aproximar-me das janelas. Se eu me aproximava de uma janela, tinha trinta câmaras apontadas a mim. Os ingleses são loucos com a seleção nos Mundiais. Passei uns dias muito complicados. Felizmente era o fim de época, tinha sido o último jogo e não tinha que sair para ir treinar. Só queria ir para Marrocos e não conseguia. Depois escrevi uma carta ao Dyer, expliquei-lhe que não tinha tido maldade, que também tinha jogado dois Mundiais, que era o ponto alto de uma carreira e que lamentava imenso. Mas ele recuperou a tempo e ainda jogou no Mundial. Na época seguinte, quando nos defrontámos, veio ter comigo, agradeceu-me a carta e deu-me a camisola dele.

E como é que a sua família viveu tudo isso?

Felizmente a minha mulher e os meus filhos já tinham viajado para Marrocos. Estava lá sozinho.

Olhando para trás, qual foi o jogo da sua vida?

Felizmente tive muitos. Um jogo que não vou esquecer foi um que fiz pelo Benfica em Moscovo, em que ganhámos ao Lokomotiv por 3-2, para a Taça das Taças. Fiz uma grande exibição e no final o Eusébio – veja bem, o Eusébio –veio pedir-me a camisola. Disse: ‘Nunca pedi a camisola a ninguém, mas vou pedir-te a tua’. Eu fiquei muito, muito contente. Nunca me esqueci disso.

Agora voltou a Marraquexe, o que tem feito?

Abri uma academia de futebol aqui em Marraquexe, num espaço com dois hectares, até trouxe um treinador da formação do Benfica para dar formação aos treinadores marroquinos. Os miúdos vêm para cá com três anos, para aprender a lidar com a bola, com a relva, para aprenderem a posicionar-se, assim quando chegam aos seis anos já têm as noções básicas.

Para terminar, qual é a sua relação com Portugal?

Portugal é o meu segundo país. Tenho aí um filho a jogar no Sintrense, vou aí muitas vezes e sinto-me sempre em casa. Os únicos países onde me sinto bem a viver é Portugal e Marrocos. Não consigo ficar mais de mês e meio sem ir a Lisboa.

 

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