Jogou no pior clube do mundo, afastou o FC Porto da Taça e acabou nos Gato Fedorento

12 jan, 09:27
David

Há quinze anos David fez o golo que afastou o FC Porto da Taça de Portugal. O DESTINOS parte à procura do brasileiro para recordar um dia de janeiro que ficou na história do futebol português. «No meio da confusão vi o Fucile com as mãos na cabeça e pensei: ‘Meu Deus, a bola entrou…’.»

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias das décadas de 80, 90 e 00s, marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

David.

O nome assim pode não fazer luz na cabeça dos leitores, mas se dissermos que é o David do Atlético, já ninguém terá dúvidas de quem estamos a falar.

Há quinze anos fez o golo que provocou o maior escândalo da história do Dragão: mais do que a vitória da Grécia na abertura do Euro ou do que a goleada por 4-0 do Nacional em 2005, foi a eliminação do FC Porto da Taça de Portugal aos pés do modesto Atlético, em 2007, que deixou os adeptos de queixo caído.

Ora aproveitando o facto de ter feito na semana passada, dia 7 da janeiro, quinze anos sobre esse dia, o Maisfutebol partiu à procura de David. Encontrou-o na Madeira, onde o herói da Tapadinha se estabeleceu com a família, depois de terminada a carreira de jogador.

«Eu vim para a Madeira porque, antes de ir para o Atlético, joguei no União da Madeira e conheci aqui a minha esposa. Ela é madeirense», começa por explicar.

«Tinha planeado regressar ao Brasil, mas depois as coisas mudaram e viemos para a Madeira. Tenho uma pequena empresa de construção civil, que faz obras em casa, e estou ligado a isso.»

Ora para início de conversa convém ir logo ao essencial: esse jogo da quarta eliminatória da Taça de Portugal. Que, para David, começou uns dias antes: numa quinta-feira.

«Nesse dia tivemos um treino contra o Belenenses e eu joguei muito bem. O Jorge Jesus até invadiu o jogo para brigar com os jogadores, porque eu estava a desequilibrar. Lembro-me que o central era o Rolando e o Jesus entrou em campo e começou a gritar com ele, que queria uma marcação mais forte, enfim», refere David.

«Depois disso, um dia antes do jogo, estávamos a ir para o treino, e o meu grande amigo Lula comentou comigo: ‘Vamos lá com confiança. Quem sabe não ganhamos e com um golo teu’. Aí eu respondi-lhe: ‘Mas Lula, eu nem vou jogar, eu nem jogo’. O ponta de lança era o Artur Jorge Vicente e eu não era titular, por isso não era para jogar. Mas antes do jogo, o António Pereira estava a dar a equipa e quando chega ao ponta de lança diz o meu nome. Como eu tinha estado bem na quinta-feira, ia ser titular. Nessa altura o Lula olhou para mim com aquela cara de ‘Estás a ver...?’. O que é certo é ganhámos 1-0 e com um golo meu.»

O golo ficou, também ele, para a história. O cruzamento da direita saiu ligeiramente atrasado, David desequilibrou-se e acabou por rematar no chão. Foi um golo deitado.

«No meio da confusão vi o Fucile com as mãos na cabeça e pensei: ‘Meu Deus, a bola entrou…’.»

O golo deu até origem a um sketch dos Gato Fedorento, que mostrou a Portugal inteiro como nada daquilo que David fez no Dragão foi fruto do acaso.

Por falar em Gato Fedorento, interessa dizer que este não foi o único sketch relativo à vitória do Atlético que fizeram. Um outro, que teve o próprio David como estrela, pôs Portugal a rir.

Quinze anos depois, David solta uma gargalhada quando ouve falar do gordo da contabilidade e recorda como tudo aconteceu, naquela segunda-feira a seguir a um domingo louco.

«O Ricardo Araújo Pereira ligou-me a perguntar se eu podia entrar num sketch deles, que se ia chamar O gordo da contabilidade e que era sobre o Vítor Baía não ir à seleção. Eles queriam fazer uma sátira. Eu disse que tudo bem, mas tinha que falar com o clube. O clube deu autorização e fizemos o sketch, que foi muito divertido», recorda o brasileiro.

«Senti-me bem na pele de ator. Sobretudo fiquei lisonjeado, não é para qualquer um entrar nos Gato Fedorento. Eles foram ter comigo, filmámos na Tapadinha, ainda por cima alguns deles são do Benfica, por isso fizeram aquilo com muito carinho e ajudaram-me. Não tivemos que repetir muitas vezes, porque eram falas simples e que desenrolámos na boa. Os meus colegas estavam atrás a ver, o grupo todo, e era gargalhadas que ninguém aguentava.»

Regressando a esse domingo, dia 7 de janeiro, há outra imagem que David não esquece.

«No final do jogo ajoelhei-me no campo e o Lula ajoelhou-se ao meu lado a gritar ‘Eu não te disse? Eu não te disse?’ A capa do jornal A Bola foi até uma foto desse momento, quando estamos os dois ajoelhados. Nesse dia o meu telefone tocava tanto que nem deu para falar com ninguém. Parecia um sonho que a qualquer momento íamos acordar. Por isso não dormi a noite toda. Fiz um cochicho, por estar cansado do jogo, mas não dormi.»

Antes de regressar a Lisboa, o autocarro do Atlético fez ainda uma paragem.

«Um restaurante da Bairrada tinha-nos prometido um leitão se ganhássemos. Quando voltávamos para Lisboa, parámos na Bairrada para comer o leitão.»

São detalhes de uma carreira que David guarda carinho no canto mais bonito da memória. Ele que nunca jogou na Liga, mas que se orgulha da carreira que construiu.

«A minha vida foi feita de oportunidades e, graças a Deus, eu sempre as consegui agarrar. O jogo no Dragão é um espelho disso mesmo», sublinha.

«Sou natural de Olinda, no nordeste do Brasil, e comecei a jogar nos iniciados do Sport Recife. Aos 16 anos estava na equipa principal do Unibool, o clube ia ser vendido, o novo proprietário só ia ficar com dez jogadores e eu não era um deles. No último jogo, um treinador viu-me e perguntou se queria ir treinar ao Íbis. Fui e agarrei a oportunidade.»

É verdade, a carreira de David é tão longa que passou até pelo pior clube do mundo.

«Não é à toa que é o pior clube do mundo. Era um clube que não tinha nada. Não tínhamos material, não tínhamos infraestruturas, um dia havia campo para treinar, no dia a seguir não havia, as pessoas é que ajudavam a transportar os jogadores para os treinos, o material era tudo doado, não havia praticamente nada do clube. Era muito difícil, era sempre na vontade, até porque ninguém queria investir no pior clube do mundo.»

Mas a verdade é que o pior clube do mundo foi a oportunidade que o adolescente David precisava para não parar de jogar.

«No final da época, num jogo entre as equipas do Íbis e do Decisão, entrei na segunda parte, fiz um golo e uns empresários que estavam a ver o jogo perguntaram-me se queria vir para Portugal. Disse logo que sim. Trouxeram-me para fazer testes na Sanjoanense. O treinador era o Vítor Urbano. Mas eu não fiquei, a equipa já tinha muitos estrangeiros», conta.

«Só que a Sanjoanense tinha um jogador que ia para a equipa B do FC Porto e nós tivemos um jogo particular contra o FC Porto B. Mais uma vez entrei na segunda parte, sofri um penálti e fiz um golo. O treinador Flávio das Neves estava lá, viu-me e perguntou-me se queria ir para o Cucujães, que estava na II B. Faltavam dois dias para fechar mercado e eu fui.»

Pela primeira vez o FC Porto aparecia no caminho do avançado e trazia boas notícias. Não haveria de ser a última. Antes disso, porém, a carreira de David ainda passou por vários clubes. Até por dois rivais alentejanos, o que a esta distância arranca algumas gargalhadas.

«Fui o primeiro jogador a mudar-se diretamente do Juventude de Évora para o Lusitano de Évora. Foi uma transferência polémica, até porque os campos de treino eram lado a lado, dos treinos do Lusitano víamos o campo do Juventude. Mas passado este tempo fica a felicidade por ter jogado nos dois grandes do Alentejo», conta.

«Havia um restaurante em Évora que me oferecia refeições sempre que eu fazia golos pelo Juventude. Então quando marquei pelo Lusitano fui lá, comi e no final apresentou-me a conta. ‘Agora tu tens que pagar. Comeste igual, mas hoje tens que pagar’.»

Aos 44 anos, e completamente afastado do futebol, David tem orgulho em falar sobre o que fez no passado. Quando lhe falam do futebol, o brasileiro tem a resposta na ponta da língua.

«Digo às pessoas que fui jogador e que me sinto realizado com as coisas que fiz na minha carreira. O momento mais alto foi o golo ao FC Porto, que me abriu as portas para ir para o Chipre e fazer melhores contratos, mas fui também o melhor marcador da Liga do Chipre logo no primeiro ano, depois fui jogar para um clube grande como é o Apollon, depois ainda joguei noutro clube grande que é o Aris Limassol», lembra.

«Para além disso fui o melhor marcador da II Divisão B, no Torreense. Marquei vinte e tal golos e quando isso acontece geralmente um jogador salta para a Liga. Eu não tive essa sorte, saltei apenas para o Desp. Aves, da II Liga, mas sempre fiz golos. Às vezes é preciso ter sorte, eu não tive essa sorte, mas valeu a pena.»

Há um domingo, dia 7 de janeiro, a lembrar-lhe todos os dias que valeu a pena.

«Guardei tudo o que saiu sobre esse jogo no Dragão. Tenho o DVD do jogo, tenho o DVD da festa, tenho uma pasta com quase 500 fotografias, tenho tudo guardado, tudo intacto, lá na minha casa do Brasil. Muitas vezes vou folhear essas páginas e recordar esse dia.»

David, meus senhores. O David do Atlético.

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