“Querem destruir-nos”: tártaro da Crimeia denuncia a mobilização “parcial” de Putin

28 set, 22:22

As minorias étnicas acusam a Rússia de um recrutamento desproporcional. Na Crimeia, ativistas denunciam um maior recrutamento entre os tártaros, um grupo étnico que tem oferecido resistência ao regime russo desde a anexação da península, em 2014.

“Eles querem destruir-nos. Só enviam notificações de mobilização para os nossos homens, para os enviar para a guerra”, denuncia Loman. Este jovem tártaro chegou a viver alguns anos sob ocupação mas acabou por partir. Agora, teme por aqueles que ficaram. “Não posso contar tudo porque quero proteger… Posso dizer que muitas pessoas fugiram do país. Para a Geórgia, para a Turquia… Alguns rapazes estão escondidos noutras zonas da Crimeia, outros vão para cidades russas…”

Loman diz que mesmo os que estão escondidos, não estão a salvo. “Aconteceu durante a noite. Um tipo gritou: “Ajudem-me, por favor! Estou na rua, estou em perigo!” E quando as pessoas saem de casa, os russos entregam-lhes as notificações de mobilização”.

Para cada estratagema das autoridades russas, circulam conselhos na Internet de como evitar ser capturado. Há quem se esconda mesmo debaixo do nariz dos opressores. “Alguns vão para Moscovo porque é um lugar mais seguro. O governo russo não envia listas de mobilização às pessoas que vivem em Moscovo, porque existe maior resistência à mobilização”, explica Loman.

Os tártaros já foram uma maioria na Crimeia mas as perseguições do Império Russo, no século XVIII, e a deportação em massa para a Ásia Central ordenada por Estaline na União Soviética, transformaram este grupo numa minoria. Hoje representam cerca de 13 % da população local. A organização Crimeia SOS estima que 90% das notificações de mobilização na península foram entregues a tártaros.

Tamila Tasheva, representante para a Crimeia do presidente Volodymyr Zelensky, também acredita que a Rússia está a visar deliberadamente esta minoria. “Os tártaros da Crimeia são o grupo menos leal da população russa e era óbvio que ficaram muito entusiasmados com os recentes sucessos militares ucranianos. Agora estão a ser castigados”, diz Tamila.

Loman vai mais longe: “É um genocídio. Eles querem destruir-nos outra vez porque temos a nossa própria cultura, a nossa própria língua e isso é perigoso para eles”.

Com o aeroporto internacional mais próximo longe da Crimeia e rumores de que a Rússia poderá encerrar a ponte sobre o estreito de Querche que liga a península à Rússia, a fuga parece cada vez mais difícil. Também Loman denuncia outros relatos que lhe vão chegando. “Os militares russos criaram postos de controlo dentro e fora da Crimeia, dentro e fora de todas as províncias russas. Sei que na fronteira com a Geórgia, os militares russos criaram um centro de mobilização para recrutar porque sabem que há muitas pessoas na fronteira neste momento.”

Loman parece não ter muitas dúvidas. Acredita que a Rússia acabará por fechar as fronteiras. Diz que esta é a apenas a primeira onda de mobilização. “Vai haver segunda, terceira e possivelmente quarta… Eles vão simplesmente apanhar as pessoas na rua como já fazem noutros territórios ocupados da Ucrânia, como Donetsk e Lugansk”.

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