Claire sofreu três paragens cardíacas e perdeu as duas pernas por causa da covid. Mas disse aos médicos que era "a pessoa mais sortuda do mundo"

CNN , Sandee LaMotte
12 mar 2023, 16:00
Claire teve uma carreira de sucesso como modelo antes de ter covid-19. Morgan Ryan

O seu sorriso é radiante, alegre, por vezes pateta e sempre contagiante. Mas as imagens não conseguem captar completamente a sua energia otimista e positiva. Aos 21 anos, Claire Bridges tem uma maturidade que surpreende tanto os que a amam como os médicos que abriram o seu coração e amputaram-lhe as duas pernas para lhe salvar a vida.

Claire Bridges com o pai, Wayne Bridges. Teve de amputar as duas pernas após complicações depois de ter covid-19. Cortesia Claire Bridges 

"Ela tinha vontade de viver, perseverança e um brilho nos olhos – digo a todos os meus pacientes que é metade da batalha", disse Dean Arnaoutakis, cirurgião vascular no hospital universitário USF Health Morsani, na Florida, EUA, que amputou as pernas de Claire após complicações com a covid-19. 

"A maioria das pessoas ficaria desanimada e sentiria que a vida as tinha enganado", acrescentou. Ismail El-Hamamsy, professor de cirurgia cardiovascular na faculdade de Medicina Icahn do hospital Mount Sinai, em Nova Iorque, que operou o coração da jovem.

"Mas ela disse-me: 'Sinto que sou a pessoa mais sortuda do mundo. Tenho toda a minha vida pela frente. Posso ter filhos, um futuro, e muitas coisas pelas quais ansiar." 

"Não houve uma única vez que olhasse nos seus olhos e não sentisse que a sua positividade era verdadeira e genuína ", contou. "É uma história incrível de resiliência e positividade."

Claire deixou o hospital no dia do seu 21.º aniversário, mais de dois meses depois de ser internada. Nesta foto ela está com o seu irmão Will. Cortesia Claire Bridges

" O meu corpo não iria desistir" 

Em janeiro de 2022, Claire era uma modelo de 20 anos com o seu próprio apartamento, um grupo de amigos e um emprego a tempo parcial como empregada de bar na Florida. Era vegan e "excecionalmente saudável", de acordo com a sua mãe, Kimberly Smith.

Quando foi infetada com covid-19 naquele mês, ninguém esperava que fosse hospitalizada. Ela estava vacinada e tinha as doses de reforço. 

Mas Claire tinha nascido com uma anomalia cardíaca genética: estenose aórtica, uma mutação da válvula na principal artéria do coração, a aorta. Em vez de terem três cúspides, que permitem que o sangue rico em oxigénio flua do coração para a aorta e para o resto do corpo, os doentes com estenose valvular aórtica nascem, frequentemente, com apenas duas. Esta condição faz com que o coração se esforce mais para fazer o seu trabalho, provocando muitas vezes cansaço, dor no peito e desmaios.

"Eu podia fazer exercício, mas nunca poderia praticar desporto", disse à CNN. "Não podia correr. Não podia esforçar-me demasiado."

"Podemos dizer que ela começou a perceber os seus limites à medida que ia crescendo - ficava sem fôlego, parava e fazia uma pausa", acrescentou a mãe.

Antes das cirurgias, Claire gostava de andar de patins. Cortesia Claire Bridges

Seja por causa do seu coração ou por outra razão desconhecida, a covid-19 atingiu Claire em cheio. A sua saúde descontrolou-se rapidamente.

"Fadiga extrema, suores frios – a cada dia que passava, era mais difícil comer ou beber", recordou. "Até que um dia a minha mãe encontrou-me inconsciente e levou-me de urgência para o hospital. Nessa noite, tive três paragens cardíacas."

Claire foi colocada em diálise, com ventilador e uma bomba externa para o seu coração debilitado. Ela entrou em psicose.

"Comecei a achar que estavam todos a tentar matar-me. Mas estava a aguentar-me", lembrou, acrescentando que de repente viu uma luz e o seu falecido avô.

"Ele estava sentado num banco, a pescar e com um boné de basebol. Depois vi os meus pais através de uma janela. Não sei se realmente os vi ou se foi ilusão minha, mas pensei: 'Não os posso deixar assim'. O meu corpo não iria desistir."

Enquanto Claire lutava com a mente, os médicos lutavam para lhe salvar a vida. Os seus órgãos começaram a falhar, enfraquecendo ainda mais o seu frágil coração. O sangue não chegava às extremidades e os tecidos de ambas as pernas começaram a morrer. 

Os cirurgiões fizeram os possíveis para salvar as suas pernas. Primeiro, abriram tecido em ambas as pernas para reduzir o inchaço, depois amputaram um tornozelo. No final, não havia escolha: as duas pernas tinham de ser amputadas. 

Os médicos reuniram-se à volta da sua cama para lhe darem a notícia.

"Lembro-me de olhar para eles e dizer: 'Obrigada por salvarem a minha vida. E, ah, posso ter pernas biónicas?'", contou Claire. 

"Ficaram totalmente surpreendidos por ela reagir tão bem", recordou a mãe de Claire. "Mas toda a família sabia que se esta tragédia tivesse de acontecer a algum de nós, seria ela quem lidaria da melhor forma. Otimista e positiva, a Claire é assim."

Claire teve uma carreira de sucesso como modelo antes de ter covid-19. Morgan Ryan

A lista de desejos

Perder as pernas foi apenas uma parte da luta de Claire. "Ela podia ter morrido de tantas coisas enquanto esteve no hospital", observou a mãe.

Desnutrida, teve de ser alimentada por sonda. Mas vomitou e perfurou parte do intestino delgado e "quase se esvaiu em sangue". Para a salvar, os médicos tiveram de fazer uma transfusão de sangue de emergência - um procedimento perigoso devido ao seu coração fraco. 

"Ela quase morreu durante a transfusão porque tinham de bombear o sangue muito rápido. No dia seguinte ela perdeu sangue novamente, mas conseguiram detetar a tempo", disse Kimberly Smith.

Claire desenvolveu a síndrome de realimentação, uma condição na qual eletrólitos, minerais e outros fluidos vitais num corpo desnutrido se desequilibram quando os alimentos são reintroduzidos, provocando convulsões, fraqueza muscular e cardíaca e, em alguns casos, coma. Sem tratamento rápido, pode levar à falência de órgãos e à morte. 

Depois, o seu cabelo começou a cair, provavelmente devido à perda de nutrição adequada. A família e amigos vieram em seu auxílio. 

"Eu sabia que a única maneira de não chorar de cada vez que arrancava pedaços de cabelo da minha cabeça era simplesmente livrar-me de tudo. Disse ao meu irmão Drew que estava a pensar rapar a cabeça e ele olhou imediatamente para mim e disse: 'Vou rapar a minha contigo'", contou.

“A partir daí foi uma bola de neve e todos me disseram que também iriam rapar a cabeça”, recordou Claire com um sorriso. “Na verdade, foi um momento extremamente querido, divertido e libertador - além disso, sempre quis rapar cabeça, por isso risquei isto da minha lista de desejos!”

Claire, rodeada de amigos e família, no dia em que todos decidiram rapar o cabelo. Cortesia de Claire Bridges

Claire acredita que os seus amigos e família - juntamente com membros da comunidade que organizaram campanhas de angariação de fundos e partilharam nas redes sociais – foram os responsáveis pela sua atitude otimista ao longo de toda a provação.

"Sinto-me abençoada por ter uma família tão maravilhosa e também amigos e pessoas da minha comunidade que são como família", disse. "Pessoas que eu não conhecia, pessoas com quem não falava desde a escola primária ou secundária estavam a entrar em contacto comigo."

"Sim, permiti-me chorar e houve dias sombrios. Mas, honestamente, os meus amigos e a minha família rodearam-me de tanto amor que nunca tive um segundo para pensar negativamente sobre as minhas pernas ou sobre o meu aspeto", confessou.

Uma operação cardíaca invulgar

O coração de Bridges apresentava outro obstáculo: já frágil antes da sua doença prolongada, estava agora gravemente danificado. Ela precisava de uma nova válvula da aorta, e rapidamente.

"Sempre soubemos que a Claire iria precisar de uma cirurgia de coração aberto a qualquer momento", disse a sua mãe. "Os médicos queriam-na o mais velha possível antes de substituírem a válvula porque quanto mais velha for, e maior, há menos hipóteses de vir a precisar de outra operação."

Claire com a sua agente. A jovem modelo perdeu quase 30 quilos durante a sua hospitalização. Cortesia Claire Bridges

Os seus médicos entraram em contacto com El-Hamamsy, do Mount Sinai, especialista numa forma mais complicada de substituição da válvula aórtica chamada Procedimento Ross

“Qualquer pessoa que tenha uma esperança de vida de 20 anos ou mais é um candidato potencial”, indicou El-Hamamsy, “e é a solução perfeita para muitos jovens como a Claire”.

Ao contrário das cirurgias mais tradicionais que substituem a válvula aórtica com defeito por uma versão mecânica ou de um dador cadáver, este procedimento utiliza a própria válvula pulmonar do paciente, que é "uma imagem espelhada de uma válvula aórtica normal com três cúspides", explicou El-Hamamsy.

É uma válvula viva e como qualquer ser vivo é adaptável", sublinhou o cirurgião. "Torna-se uma nova válvula aórtica e desempenha todas as funções de uma válvula aórtica normal."

A válvula pulmonar é substituída por uma de um dador cadáver, "o que não tem tanta relevância porque as pressões e tensões do lado pulmonar são muito menores", esclareceu.

Claire com o médico Ismail El-Hamamsy, o cirurgião que substituiu a válvula do seu coração. Cortesia do Hospital Mount Sinai

A utilização de uma peça de substituição do próprio corpo do paciente para a válvula aórtica também elimina a necessidade de utilização de anticoagulantes para toda a vida e o risco permanente de grandes hemorragias ou coagulações e acidentes vasculares cerebrais, indicou El-Hamamsy. E porque a nova válvula é mais forte do que a válvula que substitui, os pacientes não são tão propensos a precisar de cirurgias futuras.

"Ross é a única cirurgia de substituição da válvula aórtica que permite aos pacientes ter uma esperança de vida normal", garantiu, "e uma qualidade de vida completamente normal, sem restrições, sem alterações no estilo de vida e uma durabilidade muito boa".

O Procedimento Ross é tecnicamente mais desafiante do que inserir uma válvula de tecido ou uma válvula mecânica, "algumas das operações mais simples que nós, como cirurgiões cardíacos, jamais faríamos", admitiu El-Hamamsy.

Como a operação requer um elevado nível de habilidade técnica, só está disponível em algumas unidades cirúrgicas neste momento.

"Requer cirurgiões dedicados que queiram comprometer a sua prática com o Procedimento Ross e tenham as competências técnicas e perícia para o fazer", apontou. "Os pacientes precisam de saber que devem ser submetidos à cirurgia num local certificado."

A escolha de Claire

Quando El-Hamamsy conheceu Claire pela primeira vez, durante uma videochamada, na primavera passada, não tinha a certeza de que seria capaz de fazer a cirurgia. Antes de ficar doente tinha apenas 58 quilos e tinha perdido quase 30 durante a hospitalização. 

"Ela estava tão magra. Não era possível levá-la para uma sala de cirurgia naquelas condições", recordou El-Hamamsy. "Nunca esperei que ela recuperasse tão rapidamente e mantivesse a sua mentalidade incrivelmente positiva." 

Lentamente, ao longo de muitos meses, Claire lutou pela sua saúde. Na reabilitação, começou a aprender a andar com próteses nos membros inferiores. À medida que foi ficando mais forte, voltou a fazer uma das suas atividades favoritas – a escalada. 

Claire escala uma parede usando próteses nos membros inferiores. Cortesia de Claire Bridges

"Após seis meses, quase não a reconhecia - ela tinha voltado a ganhar peso, a sua pele tinha cicatrizado totalmente nos locais de amputação, e era uma pessoa completamente diferente da menina desnutrida e debilitada que conheci no hospital", afirmou Arnaoutakis, o cirurgião vascular.

A operação ao coração foi realizada com sucesso em dezembro. Atualmente, Claire está em reabilitação cardíaca e ansiosa por colocar as próteses - membros inferiores em forma de J de fibra de carbono que lhe permitirão correr numa pista pela primeira vez na sua vida.

Voltou também a ser modelo, orgulhosa de mostrar ao mundo como sobreviveu.

Claire voltou a ser modelo após as cirurgias. Brian James

El-Hamamsy não está surpreendido. "Disse-lhe no dia em que a conheci, naquela chamada de Zoom: 'Será um privilégio tratar de ti porque me inspiraste. Nunca conheci uma jovem com este nível de maturidade e perspetiva de vida'."

"De vez em quando penso na Claire, quando me deparo com dificuldades na vida ou no que quer que seja. É um lembrete de que a felicidade e a positividade são uma escolha. E Claire fez essa escolha".

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