Alice tinha um ano quando foi abandonada num banco para escapar à morte. Sobreviveu ao Holocausto e reencontrou a família 79 anos depois

CNN , Lianne Kolirin e Ivana Kottasová
19 nov, 19:00
Sobrevivente do Holocausto

Quando Alice Grusová era bebé, os seus pais deixaram-na num banco da estação de comboios, sem saberem qual seria o seu destino.

Era junho de 1942 e esta foi a última medida desesperada de Marta e Alexandr Knapp para salvar a sua filha, já que a sua tentativa de escapar, ao que era na altura a Checoslováquia, tinha terminado em desastre.

O casal tinha fugido de Praga, mas quando o seu comboio chegou a Pardubice, no leste da Boémia, os soldados nazis embarcaram em busca de judeus em fuga.

Grusová - o seu nome de casada - nunca mais viu os seus pais. Foram presos e enviados para o campo de concentração de Theresienstadt, de onde foram mais tarde deportados para Auschwitz e assassinados. O seu irmão do casamento anterior do seu pai também foi morto no mesmo local.

A mãe de Alice, Marta, na fotografia acima, foi assassinada em Auschwitz depois de ter sido detida pelos nazis enquanto tentava fugir da Checoslováquia com a sua família

Poderia também ter sido este o destino da sua filha mais nova, se não tivessem tomado aquela decisão de enorme risco. Este ano, Grusová celebrou o seu 81.º aniversário - assim como o seu 60.º aniversário de casamento com o marido Miroslav. A viver em Praga, têm três filhos, seis netos e três bisnetos.

Grusová sempre sentiu que esta era a soma total da sua família, mas, no início deste ano, a enfermeira pediátrica reformada viajou para Israel, onde se conectou com a sua herança judaica e conheceu o seu único primo em primeiro grau sobrevivente - bem como uma família mais vasta que ela não sabia que existia.

“Fiquei muito chocada quando descobri, aos meus 80 anos, que tinha uma família tão grande”, contou ela numa videochamada emocional com a CNN.

“Só estou triste por isto não ter sucedido mais cedo”, acrescentou Grusová, que lutou contra o cancro, a hepatite e uma cirurgia à coluna.

A reunião ocorreu graças aos esforços de uma mulher curiosa a 8.000 quilómetros de distância na África do Sul, durante as fases iniciais da pandemia. A incrível história foi agora partilhada pelo site de genealogia online MyHeritage.

Com tanta vida posta em espera, Michalya Schonwald Moss mergulhou na história da sua família no site MyHeritage. Ela sempre soube que a sua família tinha sido dizimada no Holocausto, mas nada a preparou para descobrir que 120 dos seus parentes tinham sido assassinados em Auschwitz.

No entanto, da escuridão inimaginável, surgiu um pequeno e mais inesperado raio de esperança. Com a ajuda de genealogistas profissionais, tanto na Eslováquia como em Israel, ela desenterrou a incrível história de uma das sobreviventes: Grusová.

Os pais de Grusová com o seu meio-irmão René. Os três foram assassinados em Auschwitz

Ao ser encontrada no banco da estação, a menina de um ano de idade foi inicialmente colocada num orfanato. Grusová, que não tem memória dos seus pais, foi mais tarde transferida para Theresienstadt. “Havia uma senhora simpática que estava a tomar conta de nós. Só me lembro de vislumbres daquela época”, disse.

“E depois lembro-me de quando fiquei doente com tifo e os funcionários tiveram de me proteger dos alemães. Lembro-me que me diziam para ficar em silêncio ou os alemães maus vinham e matavam-nos.”

Por incrível que pareça, ela sobreviveu e depois da guerra reuniu-se com a irmã mais nova da sua mãe, Edith - ou Editka como ela a chama - que sobreviveu a Auschwitz ao ser transferida para um campo de trabalho.

Grusová em criança, com a irmã mais nova da sua mãe, Edith, que sobreviveu a Auschwitz

Com a sua voz a tremer de emoção, Grusová recordou a sua tia que, como muitos sobreviventes do campo nazi, tinha o seu número de identidade tatuado no braço. “Ela era tão bonita, era magra, tinha a tatuagem. Mas eu não compreendia o que aquilo significava na altura.”

No início, a dupla vivia junta na Checoslováquia, mas em 1947 a sua tia emigrou para o que era então a Palestina. Por razões que permanecem pouco explícitas, Grusová foi deixada para trás e entregue para adoção.

“Eu tinha seis anos quando a minha tia deixou a Checoslováquia e vim viver com os meus novos pais”, disse. “Em criança, fiquei muito triste por a minha tia se ter ido embora. Não percebi porque é que ela não me levou com ela.”

“Mantive contacto com ela durante algum tempo. Ela casou e teve um filho, que vi pela última vez numa fotografia quando ele tinha dois anos.” Mas a correspondência com Edith esmoreceu e, em 1966, “perdemo-nos uma da outra”, lamentou.

Grusová nunca soube o que aconteceu à sua tia - até que o seu filho Jan, que fala inglês, traduziu um surpreendente e-mail que os seus pais receberam de Schonwald Moss em 2021. Jan e a sua mulher tinham passado anos a tentar localizar o primo da sua mãe, sem sucesso.

Mas com a ajuda de investigadores profissionais, Schonwald Moss não só tinha descoberto a incrível história de Grusová, como também tinha descoberto o tal primo - o filho de Edith, Yossi Weiss, agora com 67 anos e a viver na cidade israelita de Haifa.

Weiss e Grusová “conheceram-se” virtualmente no ano passado, juntamente com outros membros da árvore genealógica recém-descoberta. Weiss não sabia nada da sua prima e a sua própria vida tinha sido arruinada pela tragédia - tendo perdido, tanto a sua mãe, como o seu filho, para o suicídio.

Durante o verão, Grusová voou para Israel com o seu marido, o seu filho Jan e a sua esposa Petra para conhecer Weiss e os membros da sua família mais vasta, incluindo Schonwald Moss, que tinha viajado da África do Sul para a ocasião.

“Queriam encontrar-se comigo e vir visitar-me, mas o meu primo tem cancro e não pode viajar”, disse à CNN Grusová.

“Tive medo da longa viagem com a minha idade”, explicou. “Agora estou tão contente por ter ido. Só estou triste por isto não ter sucedido mais cedo. Se não fosse a covid, nunca teria descoberto que tenho uma família tão grande.”

Grusová - que não fala nem hebraico nem inglês - comunicou com os seus familiares recém-descobertos através de um intérprete. Juntos visitaram o túmulo da sua falecida tia, o museu de Theresienstadt e o Centro Mundial de Memória do Holocausto em Yad Vashem, onde ela gravou o seu testemunho pessoal e também foi filmada para um canal de notícias israelita.

Os primos em primeiro grau, Alice Grusová e Yossi Weiss, tiveram um encontro emotivo em Israel durante o verão

Simmy Allen, chefe dos media internacionais de Yad Vashem, estava lá na altura. Contou à CNN que foi um “encontro muito emotivo”, acrescentando: “A ideia de que aquela família se estava a unir e que os diferentes lados da família estavam finalmente a descobrir as suas raízes e a visitar Yad Vashem para solidificar esse acontecimento, para que os seus antepassados tivessem um lugar onde eles os possam recordar perpetuamente.”

Grusová afirmou que a sua família "aumentou muito em tamanho". "E Michalya continua a encontrar cada vez mais parentes.”

Weiss disse à CNN que tinha sabido pouco sobre a vida anterior da sua mãe e que era incapaz de explicar porque é que ela deixou a sua prima para trás quando se mudou para o que era então a Palestina.

“Do pouco que me contou, soube que trabalhava numa fábrica e voltou para a cidade depois da guerra e teve sorte em sobreviver”, recordou. “Soube que ela foi casada antes e o seu marido foi morto na frente russa, mas não conhecia o capítulo no qual ela encontrou Alice.”

Do seu reencontro, Weiss assegurou-se "de que tinha algum tempo privado com a Alice”. “Falámos sobre a questão de a minha mãe ter vindo para Israel e Alice ter ficado para trás e concordámos que as coisas eram complicadas.”

A questão permanecerá para sempre sem resposta, embora Weiss tenha tentado dar-lhe sentido. “A minha mãe foi uma sobrevivente do Holocausto, uma pessoa que regressou dos campos de concentração aos 25 anos e tinha acabado de perder o marido. Alice tinha cinco anos. A minha mãe não conseguia fornecer-lhe casa, escola, comida e tudo”, explicou.

Talvez ela tenha pensado que a sua sobrinha iria ficar melhor com pais adotivos, acrescentou.

“Custa-me muito a nível pessoal porque às vezes fantasio com o ‘e se...’”, disse.

Grusová sentiu o mesmo. “Claro que pensei sobre como poderia ter sido a minha vida. Quando era criança, fiquei muito triste por a minha tia se ter ido embora. Não percebia porque é que ela não me levou com ela.”

“O meu primo tentou explicar”, acrescentou. “Era jovem, a sua vida foi salva por milagre. Não estou a culpá-la por nada.”

Weiss contou também que Grusová "queria muito ver o túmulo" da tia. "Era muito importante para ela e fazia parte do seu processo de encerramento deste capítulo.”

Estar no Yad Vashem com Grusová quando ela registou o seu testemunho foi particularmente pungente, afirmou ainda. “Foi muito emotivo e não foi fácil para ninguém.”

(Da esquerda para a direita) Miroslav Grus (marido de Alice), Jan Grus (filho de Alice), Michalya Schonwald Moss, Petra Grusová (esposa de Jan), Alice Grusová, Yossi Weiss

Schonwald Moss concordou. “Foi uma das experiências mais extraordinárias, íntimas e emocionalmente curativas da minha vida”, disse à CNN.

A família está agora em conversações com a Fundação USC Shoah de Steven Spielberg, que planeia gravar o testemunho em vídeo de Alice no novo ano.

“Descobrir que um membro da nossa família, do qual nunca tínhamos tido conhecimento, tinha sobrevivido e que ela ainda estava viva e a viver em Praga, foi como se tivéssemos encontrado um fantasma vivo. E depois descobrir a sua história foi muito desolador”, afirmou Schonwald Moss.

“Ao tê-la de novo nas nossas vidas, ela ensinou-nos como é viver. Todos os dias funcionam como um remendo na nossa família. E graças à Alice e ao brilho nos seus olhos e ao amor que emana, tornámo-nos novamente uma família.”

Roi Mandel, diretor de investigação de MyHeritage, saudou o resultado para Grusová e a sua família. “A história de Alice é a história de muitos que sobreviveram à guerra e assumiram que foram deixados sozinhos no mundo, sem saber que havia outro ramo que sobreviveu”, disse.

“Décadas de desconexão como resultado da Cortina de Ferro que foi erguida na Europa de Leste, chegaram ao fim graças à tecnologia que torna possível ligar peças de um puzzle que pareciam nunca vir a juntar-se.”

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