Perda de memória, dificuldades de concentração, alucinações visuais. Tem algum destes sintomas? Podem ser sequelas da covid-19

15 jan, 22:00
Persistência de sintomas. (Pexels)

A covid-19 nem sempre termina com o teste negativo: há quem recupere da doença e manifeste sintomas meses depois da infeção - e que podem demorar também vários meses a passar

Dificuldades de concentração, perda de memória, fraqueza muscular e até a chamada Síndrome de Alice no País das Maravilhas nas crianças. Se nalguns casos a covid-19 não vai além de uma doença ligeira que passou em poucos dias, noutros deixa sequelas que podem durar semanas ou meses. A comunidade científica tem vindo a provar que os efeitos da covid-19 nem sempre terminam com o teste negativo, e há casos em que os sintomas podem mesmo demorar meses a passar.

A enfermeira Neuza Reis, que coordena a Clínica de Atendimento Pós-Covid (CAP-Covid) do CHULC-Hospital de Santa Marta, acompanha doentes com a chamada síndrome pós-covid, isto é, um conjunto de sintomas permanentes que resultam da resposta do nosso organismo à presença do vírus e que, nalguns casos, podem aparecer meses depois da recuperação da covid-19. 

“Neste momento, os sintomas mais frequentes são uma fadiga muito intensa, ansiedade e depressão, que depois têm associados sintomas físicos, e dores muito inespecíficas, como mialgias [dores musculares], dores de garganta, tosse seca e irritativa. Nas fases mais graves, podem ocorrer alterações do ritmo cardíaco e alterações dermatológicas [aparecimento de manchas, perda de cabelo]”, enumera Neuza Reis, em declarações à CNN Portugal.

Estes sintomas podem manifestar-se em todas as pessoas que tiveram covid-19, mesmo naquelas que tiveram doença ligeira. “Pode haver doentes que não tenham sido hospitalizados, mas que, passado um mês ou dois meses após a infeção, começam a sentir uma fadiga mais intensa ou dores musculares, sem saber a causa”, explica Neuza Reis à CNN Portugal.

O conceito de síndrome pós-covid implica a persistência destes sintomas pelo menos 12 semanas após a infeção. Além disso, os sintomas também "podem ser oscilantes", ou seja, o doente tanto pode estar bem num dia, como no dia seguinte volta a apresentar os mesmos sintomas.

Enquanto pneumologista, Luís Rocha diz receber “muitas vezes” em consulta doentes com sequelas da covid-19, nomeadamente dispneias (falta de ar) e tosse persistente, que podem resultar numa doença pulmonar crónica, como a fibrose pulmonar. “Estamos a falar de um grupo significativo de doentes que podem apresentar estas sequelas, entre 10 a 12% dos doentes [com covid-19], e que podem necessitar até, no limite, de transplantes pulmonares”, indica.

Luís Rocha, dirigente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, salienta também os sintomas que podem manifestar-se ao nível do sistema endócrino, designadamente alterações no ciclo menstrual e disfunção da tiroide.

O sistema nervoso também é afetado pelos efeitos da covid-19, daí resultando sintomas cognitivos genericamente conhecidos como “brain fog” [névoa mental], nos quais figuram dificuldades de concentração e de raciocínio, perda de memória e sensação de confusão. “Para muitos doentes, este acaba por ser um sintoma incapacitante, na medida em que a sua atividade profissional pode ser afetada pela existência destas dificuldades de concentração e de memorização, e um processamento cognitivo mais lento”, salienta Filipe Palavra, neurologista do Centro Hospital da Universidade de Coimbra (CHUC) e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia.

A fadiga e a dificuldade de concentração e de raciocínio permanentes são alguns dos sintomas da síndrome pós-covid

Estes sintomas cognitivos e neurológicos também podem persistir durante vários meses, havendo mesmo quem os mantenha ao fim de um ano, como revela o neurologista: “Temos aqui pessoas que já acompanhamos há algum tempo e que mesmo um ano após a infeção continuam a apresentar queixas relacionadas com a ‘névoa mental’, como falta de concentração, etc."

As crianças e a Síndrome de Alice no País das Maravilhas

Embora a covid-19 geralmente não se manifeste de forma grave nas crianças, também elas têm apresentado alguns efeitos da infeção e consequente inflamação, nomeadamente a chamada Síndrome de Alice no País das Maravilhas - algo que o neurologista Filipe Palavra tem observado “com alguma frequência” em consulta.

“Temos visto na criança alterações que configuram o diagnóstico a que chamamos de síndrome de Alice no País das Maravilhas, que traduz a existência de alucinações visuais que consistem normalmente na perceção do tamanho aumentado dos objetos (macropsia), ou do tamanho diminuído dos objetivos (micropsia). Estas e outros tipos de alterações visuais estão associadas à infeção vírica ou ao estado inflamatório por ela motivado e podem persistir durante algumas semanas”, explica o neurologista.

Isto vai ao encontro das conclusões de um estudo publicado em novembro de 2022 na revista PLOS Medicine, que mostra que as sequelas da covid-19 mais frequentes nas crianças são "mau-estar, fadiga/exaustão, tosse, dores de garganta e no peito, distúrbios de ajustamento, seguidos da somatização [manifestação de fenómenos mentais como sintomas físicos], dores de cabeça, febre, ansiedade e depressão".

As crianças também podem ser afetadas pela síndrome pós-covid, ainda que de forma "menos pronunciada" do que nos adultos

Filipe Palavra ressalva, contudo, que estes sintomas, como a névoa mental ou a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, não são “exclusivos da covid-19”, estando associados também a outras doenças e infeções víricas já bastante conhecidas.

“Já conhecíamos a névoa mental como estando associada a outras infeções víricas e outras doenças, como é o caso, por exemplo, da esclerose múltipla ou de outras doenças autoimunes”, nota. A síndrome de Alice no País das Maravilha também já era associada ao vírus Epstein-Barr (que afeta cerca de 50% das crianças até aos cinco anos) e ao citomegalovírus, um vírus comum em todas as idades.

Ainda assim, e talvez porque a covid-19 "não é uma doença eminentemente pediátrica", o mesmo estudo revela uma menor incidência da síndrome pós-covid nas crianças do que nos adultos. No entanto, os autores salientam que "a síndrome pós-covid não deve ser descartada entre as crianças e adolescentes".

O neurologista Filipe Palavra faz a mesma ressalva, advertindo para a possibilidade de surgirem novas variantes que possam ser "mais agressivas" na idade infantil.

"As crianças habitualmente não têm uma forma de doença grave [da covid-19], o que não quer dizer que possa haver um ou outro caso em que tal aconteça. Não tem sido essa a nossa experiência, mas nunca é garantido que será sempre assim, na medida em que novas variantes do vírus podem causar doença de características diferentes e até mesmo mais agressivas para a criança e para o adolescente."

Como posso saber se tenho síndrome pós-covid?

Os doentes que chegam à CAP-Covid são submetidos a uma triagem de sintomas para se perceber se realmente se trata de um quadro de síndrome pós-covid ou de uma outra doença de base, que até pode ter sido exacerbada pela covid-19. 

"Se chegar um doente com sintomas respiratórios, mas que já tinha doença respiratória prévia, primeiro temos de descortinar se não há nada relacionado com o seu diagnóstico principal. Não estando associada doença prévia, pode-se dizer que é síndrome pós-covid", explica a enfermeira especialista em reabilitação.

Uma vez diagnosticada a síndrome pós-covid, o próximo passo é precisamente a reabilitação, um papel assumido pela própria Neuza Reis, que trabalha "no ensino e na capacitação da pessoa face aos seus hábitos de vida, quer ao nível terapêutico, quer ao nível do exercício físico". "Sobretudo do exercício físico, porque ainda é a intervenção que nos garante mais sucesso no padrão de fadiga da pessoa com covid-19", salienta.

Sendo a covid-19 uma doença sistémica, isto é, que afeta não exclusivamente o pulmão, mas também o coração, o sistema nervoso, etc., também a sua recuperação exige o trabalho de uma equipa multidisciplinar. Quer isto dizer que, consoante os sintomas e necessidades do doente, a CAP-Covid poderá referenciá-lo para a pneumologia, dermatologia, cardiologia, neurologia ou neuropsicologia e psiquiatria, entre outras especialidades do hospital.

Questionada sobre a mortalidade associada à síndrome pós-covid, Neuza Reis garante a CAP-Covid-19 não tem registo de "nenhum óbito pelo agravamento da situação pós-covid" e salienta o papel da vacinação na diminuição do risco das complicações decorrentes da doença.

"A vacinação mudou completamente o paradigma da doença", assinala a enfermeira. Daí que os casos que motivam agora mais preocupação sejam precisamente as pessoas não vacinadas, além dos doentes com patologias graves anteriores à covid.

O mesmo diz o pneumologista Luís Rocha: “O grupo da população que mais sofre com sequelas da covid-19 são os doentes que tiveram doença mais grave, ou seja, que estiveram hospitalizados e em unidades de cuidados intensivos, e acima de tudo aqueles que não estão vacinados. Daí a indicação para que se continuem a vacinar, porque é realmente a única forma de proteção para esta doença."

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