Long-covid: como se diagnostica, quais os maiores riscos e como fazer tratamento

31 mai, 07:00
Persistência de sintomas. (Pexels)

Uma em cada cinco pessoas que têm covid-19 fica com sequelas para lá dos três meses. Apesar de ainda se saber pouco sobre este problema de saúde, os médicos adiantam que os vacinados parecem ser menos afetados e que a reabilitação é decisiva na recuperação

Febre, dores no corpo, cansaço ou diarreia. São alguns dos sintomas que a covid-19 pode causar e que em muitos doentes se prolongam para além da infeção. Se em alguns casos duram quatro, seis ou mais semanas, noutros ultrapassam os três meses - e esse dado de tempo dever ser um sinal de alerta, garantem os médicos. Ter sintomas 90 dias após de ter sido infetado com Sars-Cov2 é um indicador de que pode estar em causa o que é conhecido como long-covid, uma síndrome decorrente da doença, e que um novo estudo do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos acredita que afeta pelo menos 20% das pessoas.

Apesar de esta complicação já ter sido identificada há vários meses, existe ainda muita informação desconhecida sobre a long-covid. O médico Miguel Toscano Rico explica à CNN Portugal que o diagnóstico terá de ser feito sempre de uma forma muito dirigida, dependendo de doente para doente.

“É um diagnóstico de exclusão. Temos quase de ir de sintoma em sintoma”, refere o médico responsável pela clínica pós-covid do Hospital Curry Cabral, explicando que, muitas vezes, essa exclusão também vai diferenciar doentes que efetivamente têm sintomas de long-covid dos que apenas têm sintomas de patologias isoladas.

Nesta altura o diagnóstico passa por perceber quais os sintomas de que o doente se queixa, dirigindo-se para cada um deles. O pneumologista Luís Rocha explica, por seu lado, que, na sua área, fazem-se exames relacionados com os diferentes sintomas. "Se forem questões respiratórias vou fazer exames aos pulmões, à função respiratória. Se forem questões cardíacas vou fazer exames para saber como o coração está a funcionar", refere o especialista, que também acompanha doentes com long-covid de forma regular.

No fundo, é possível haver doentes com sintomas que depois se revelam serem de insuficiência cardíaca ou depressão, por exemplo, e que não estão relacionados com a long-covid: “Se tivermos despistado as doenças todas que possam justificar aquela sintomatologia atribuímos a doença a pós-covid”, acrescenta Miguel Toscano Rico, admitindo a dificuldade desta tarefa.

“Não há um marcador para a doença. Isso não existe. Não há análises que nos digam se o doente tem long-covid ou não, e isto complica o diagnóstico”, admite o médico.

Há doentes de maior risco (que são acompanhados)

As pessoas que não tenham sido vacinadas (ou cuja vacinação possa não estar completa) e aquelas que tenham desenvolvido uma forma mais grave na fase aguda da infeção por covid-19 têm mais risco de virem a desenvolver long-covid.

Foi algo que Miguel Toscano Rico começou a perceber há “sensivelmente um ano”, altura em que chamou a atenção para a necessidade de se criar uma consulta específica para esta condição.

“Percebia-se que os doentes muitas vezes ficavam com sequelas a seguir à fase aguda”, afirma, explicando que, caso a caso, pode ser feita uma avaliação para lá do internamento.

Luís Rocha sublinha que obter um diagnóstico de forma precoce pode fazer diferente, sobretudo em pessoas imunossuprimidas, para as quais passa a ser possível fazer recomendações, nomeadamente terapêuticas, de forma mais rápida.

Miguel Toscano Rico refere que as pessoas cuja infeção foi mais grave são seguidas mais atentamente pelo hospital, sobretudo quando são identificadas sintomatologias específicas: “Fazemos uma consulta centrada em três pilares: pneumologia, medicina interna e enfermagem”, adianta, frisando que “esta condição não se reduz a um órgão ou a um sistema”, pelo que é importante ter a maior abrangência de sintomas possível, e que pode ir das especialidades de medicina de reabilitação até à nutrição.

“Nas pessoas que não foram vacinadas, a percentagem daquelas que manifestam esta sintomatologia é maior, e normalmente mais intensa”, afirma Miguel Toscano Rico, sinalizando que quem tem a vacina “normalmente tem menos sintomas pós-covid”. “Há essa correlação, entre gravidade da doença e a sintomatologia pós-covid, mas também há pessoas com doença aguda ligeira e que desenvolvem long-covid. É menos frequente, mas também pode acontecer”, conclui, explicando que, “quanto mais grave for a fase aguda, maior é a probabilidade de haver long-covid depois”.

Luís Rocha lembra a existência de consultas específicas para o acompanhamento da long-covid, como acontece no Curry Cabral, e diz que parte do médico especialista o acompanhamento de determinado doente, que tem uma maior probabilidade de vir a desenvolver esta condição: "Se olho para uma situação mais grave, se vejo exames com sintomas mais graves, vou fazer um seguimento para saber se aquelas sequelas vão agravar".

Quando se tem long-covid sem um teste positivo

Não é tão comum, mas é uma possibilidade, reconhece Miguel Toscano Rico, que já apanhou alguns casos, ainda que excecionais, de pessoas que desenvolveram long-covid sem nunca terem dado positivo num teste para a doença.

O médico refere que existe sempre a hipótese de se realizar um teste serológico, para confirmar se a pessoa teve a doença, algo que pode ser feito no limite para despistar se se trata mesmo de long-covid ou apenas de uma outra patologia.

“Não fechamos a porta a esse tipo de doentes, mas não temos muitos assim”, nota, referindo que, muitas das vezes, acabam por ser outras patologias que não long-covid.

Luís Rocha também já tratou de casos assim, mas explica que, para desenvolver long-covid, esse doente "terá tido alguma coisa de início", mesmo que tenha estado assintomático: "Se fizer uma investigação vai saber-se que esteve infetado. Conseguimos identificar um long-covid numa pessoa que nunca teve um teste positivo mas que teve covid-19".

Como tratar a long-covid

Tal como o diagnóstico, também o tratamento da long-covid é feito de forma dirigida, tendo em atenção os diferentes sintomas: “Assim como não há um marcador clínico para a long-covid, também não temos um tratamento único para a long-covid. Muitas vezes é um cocktail de intervenções, que podem ser terapêuticas, por exemplo”, explica Miguel Toscano Rico.

Na prática, é como no diagnóstico, o tratamento tem de ser também ele localizado para os sintomas em si. É normal, por exemplo, fazer tratamentos para sintomas cardíacos, enquanto se trata uma questão intestinal.

“É frequente termos de melhorar a parte respiratória e simultaneamente tratar um quadro depressivo”, indica o médico do Curry Cabral.

Seja como for, Miguel Toscano Rico deixa uma recomendação: “Antes dos três meses [após a recuperação da covid-19] recomendamos um bocado de paciência, aconselhamentos tratamento e a medicação a seguir a um processo de infeção aguda”.

O clínico destaca que, além da paciência, e se for confirmado um quadro de long-covid, existe um outro fator crucial: a reabilitação, “seja presencial ou à distância”. No Curry Cabral, por exemplo, faz-se muito acompanhamento através da telereabilitação: “É tão importante como os cocktails de medicamentos”, conclui.

Como diz Luís Rocha, "é preciso dar algum tempo" à questão, sobretudo quando ainda não passaram os tais três meses.

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