Militares chineses e russos partilham um potencial ponto fraco

CNN , Brad Lendon
19 set, 22:00
Exército de Libertação Popular (Getty Images)

Dois dos maiores exércitos do mundo partilham a mesma fraqueza, mas os analistas alertam: não subestimem a China e tenham cuidado com as comparações com os fracassos russos

Os líderes militares da China partilham um potencial ponto fraco que tem minado os seus homólogos russos na Ucrânia e pode dificultar a sua capacidade de travar uma guerra semelhante, segundo um novo relatório da Universidade de Defesa Nacional dos EUA.

O relatório identifica a falta de cross-training como um possível calcanhar de Aquiles no Exército de Libertação Popular (ELP), mas os analistas são cautelosos em subestimar as capacidades da China e alertam para que não se façam comparações com a Rússia.

O relatório investigou os antecedentes de mais de 300 oficiais de topo do ELP nos seus cinco ramos - exército, marinha, força aérea, força de foguetes e força estratégica de apoio – nos seis anos que antecederam 2021.

Constatou que, em cada um dos ramos, os líderes só tinham experiência operacional no ramo em que iniciaram as suas carreiras.

Por outras palavras, soldados do ELP permanecem soldados, marinheiros permanecem marinheiros, aviadores permanecem aviadores. Raramente se aventuram fora desses silos, diz o relatório, observando-se um acentuado contraste com os militares norte-americanos, onde o cross-training é um requisito legal desde 1986.

O relatório de 73 páginas revela que esta "rigidez poderia reduzir a eficácia da China em futuros conflitos", sobretudo em conflitos que exigem ações conjuntas, e sugere que as forças do ELP seriam atingidas pelo mesmo tipo de problemas que tem afetado os seus homólogos russos na Ucrânia, "onde a coesão global das forças foi reduzida".

O exército chinês e as unidades navais realizam um exercício de fogo real na cidade de Zhangzhou, na China, a 24 de agosto de 2022.

Desde o início da invasão russa ao seu vizinho há sete meses, as lacunas na estrutura militar russa tornaram-se evidentes para observadores externos.

Na recente derrota das forças russas devido a uma contraofensiva ucraniana, as forças terrestres de Moscovo não tiveram cobertura aérea, dizem os analistas, mas no início da guerra os problemas logísticos causaram danos na capacidade da Rússia de reabastecer as suas forças – os seus camiões não tinham pneus adequados ao terreno e avariavam devido à falta de manutenção.

Segundo o autor do relatório, Joel Wuthnow, os altos dirigentes do ELP podem enfrentar problemas semelhantes devido à sua falta de treino.

"Os comandantes operacionais, por exemplo, raramente têm experiência em logística", refere o relatório de Wuthnow, um investigador sénior do Centro de Estudos de Assuntos Militares Chineses da Universidade.

"Os comandantes operacionais que nunca precisaram de obter um alto nível de conhecimento de logística ou de manutenção, poderão não usar essas forças da melhor forma, paralelamente a outra falha russa em 2022."

Uma brigada do Exército do ELP sob o Comando do Teatro Oriental, juntamente com um departamento da marinha, força aérea e aviação do exército, organizam um exercício de combate em Zhangzhou, China, a 2 de setembro de 2022 (Getty Images)

Uma brigada do Exército do ELP sob o Comando do Teatro Oriental, juntamente com um departamento da marinha, força aérea e aviação do exército, organizam um exercício de combate em Zhangzhou, China, a 2 de setembro de 2022.

Numa comparação com comandantes de quatro estrelas em 2021 – como o presidente do Estado-maior ou o Chefe do Comando Indo-Pacífico dos Estados Unidos ou líderes da Comissão Militar Central ou comandos de teatro na China – todos os 40 oficiais dos EUA tinham experiência de serviço conjunto em comparação com 77% dos seus 31 equivalentes chineses, apurou o relatório.

Também observou outra diferença fundamental: nos EUA, quase todos os comandantes de quatro estrelas tinham experiência operacional. Na China, quase metade eram "comissários políticos profissionais".

Não subestimem o ELP

Carl Schuster, um antigo diretor de operações do Centro de Inteligência Conjunta do Comando do Pacífico dos EUA, no Havai, disse que o novo relatório "é a melhor avaliação da situação atual da China".

Mas alertou para não se usar como uma previsão de como o ELP se poderia sair numa guerra semelhante à da Ucrânia, dado que tinha muitas outras vantagens sobre os militares russos.

A China dá melhor formação a novos recrutas e já não depende de alistados, disse ele, enquanto o exército russo "conta com recrutas de sete meses para 80-85% do seu pessoal alistado".

E, ao contrário da Rússia, a China tem um corpo profissional de sargentos e cabos, acrescentou.

Schuster, que agora leciona na Hawaii Pacific University, estimou que a China está cerca de quatro ou cinco anos atrás dos EUA em termos de capacidade de operações conjuntas, mas alertou que os recentes exercícios "sugerem que estão a recuperar".

Ele citou operações recentes chinesas como as de Taiwan, depois da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, ter visitado a ilha no início de agosto, como prova disso.

"A implicação não declarada do estudo de que o ELP poderá não ser capaz de fazer operações conjuntas eficazes é descabida", disse Schuster.

O relatório de Wuthnow, que também é professor adjunto na Universidade de Georgetown, em Washington, também encontrou diferenças demográficas entre líderes chineses e norte-americanos.

"Os oficiais seniores (chineses) eram homogéneos em termos de idade, educação, género e etnia", dizia o relatório.

Quanto aos oficiais de quatro estrelas, os oficiais chineses eram mais velhos, em média, do que os seus homólogos americanos (64 vs. 60) e tinham mais anos no exército (46 vs. 40).

"A liderança dos EUA também era mais diversificada, com duas mulheres e três afro-americanos, em comparação com uma liderança homogénea do ELP (inteiramente masculino e 99% de chineses Han)", refere o relatório.

Os recém-recrutados são submetidos a formação militar em Zaozhuang, China, a 3 de setembro de 2022. (Getty Images)

E uma última diferença: 58% dos oficiais americanos serviram num país estrangeiro, enquanto nenhum dos oficiais chineses tinha experiência no exterior.

O fator Xi

O relatório também observou que o líder chinês Xi Jinping reforçou o seu controlo sobre a liderança do ELP desde que assumiu o controlo do Partido Comunista Chinês em 2013.

Através do seu papel como presidente da Comissão Militar Central da China, Xi tem estado pessoalmente envolvido na seleção de altos oficiais, referia o relatório.

"Todos os oficiais do ELP são membros do Partido Comunista Chinês e devem possuir perspicácia política suficiente para demonstrar lealdade a Xi e à sua agenda", dizia o relatório, referindo que Xi transfere os principais oficiais por toda a China para impedir que desenvolvam "redes de apoio" que um dia possam ameaçar a sua liderança.

Mas também notou que Xi tem tido o cuidado de recompensar a lealdade e a paciência dos oficiais superiores.

À medida que os oficiais mais velhos atingem a idade da reforma de acordo com o seu cargo – com 68 anos para os da Comissão Militar Central – os seus sucessores trarão mais experiência ao campo de batalha moderno, incluindo as mais recentes tecnologias, refere o relatório.

Mas espera-se que os silos, reforçados pela tradição e pela cultura organizacional, permaneçam, referia o relatório.

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