opinião
Embaixador e Comentador da CNN Portugal

Antes do Brexit

31 jan, 14:05

Faz hoje três anos que o Reino Unido abandonou a União Europeia. Muitos balanços se farão, em Londres e pelo mundo, sobre os efeitos dessa drástica decisão britânica. 

A maioria das análises concluirá pelo efeito negativo do Brexit sobre a economia britânica e também, de certo modo, sobre a própria União Europeia - embora, com o tempo, comece a criar-se a sensação de que o clube europeu não foi tão afetado como, à partida, se temia.

A figura britânica tida como o principal responsável pela ocorrência do Brexit foi David Cameron, o primeiro-ministro conservador que, curiosamente, terá pretendido, ao ter a iniciativa de convocar um referendo, ancorar, de uma vez por todas, o Reino Unido à União Europeia.

Cameron tinha medido mal o sentimento da população do seu país e, nos meses que antecederam o escrutínio, esforçou-se por obter dos seus parceiros europeus um conjunto de concessões que pudessem vir a funcionar como argumentos para convencer os eleitores da bondade da permanência na União. Portugal foi, naturalmente, um dos países alvo desse lóbi.

Um dia, o então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico veio a Portugal, no tempo da transição do PSD para o PS. “Dividir para reinar” é, teoricamente, uma boa divisa para ser seguida por países com monarcas. Os britânicos confiavam que, numa sociedade politicamente tão polarizada como era então a portuguesa, ser-lhes-ia possível introduzirem uma fissura entre os dois maiores partidos políticos portugueses.

Na noite da sua passagem por Lisboa, o governante britânico reuniu, à volta de um jantar na sua embaixada, quatro figuras que tinham tido responsabilidades políticas em governos PS e PSD, duas de cada área política, todas com experiência internacional relevante. Nessa escolha, a embaixada britânica terá partido da assunção de que essas pessoas podiam ter algum papel de aconselhamento das respetivas áreas políticas.

Nenhum dos convivas sabia que os outros iam lá estar, pelo que ninguém tinha combinado rigorosamente nada, nem com o setor político do qual estava mais próximo, nem, em especial, com o outro parceiro da sua área que ali estava sentado. Seguramente que isto havia sido assim pensado.

O ministro britânico elencou então algumas questões que, dias depois, Cameron iria propor aos seus homólogos, uma lista de concessões europeias que, muito em especial, fragilizariam alguns direitos futuros dos cidadãos dos restantes “vinte e sete” no Reino Unido. 

Cada uma das pessoas, à volta da mesa, foi depois convidada a pronunciar-se sobre o que ouvira. O espetáculo foi digno de se ver. 

Os quatro convidados, sem a menor combinação entre si, cada um a seu modo, explicaram ao chefe da diplomacia britânica a impossibilidade do que ele solicitava vir alguma vez a ser aceite por parte de Portugal. Não dispunham de nenhum mandato para o que afirmavam, mas todos tinham a perfeita consciência de que nenhum governo português, com o mínimo sentido de responsabilidade, aceitaria tais concessões. 

O responsável de Londres pareceu ter ficado surpreendido com a sintonia total de posições. Dias depois, o seu primeiro-ministro, em Bruxelas, iria confirmar isso mesmo. E, não tendo convencido os seus eleitores, David Cameron, a partir daí, viria a perder a cadeira onde se sentava, não apenas em Bruxelas mas também em Downing Street.

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