"A pergunta foi inesperada, não fui feliz, peço desculpa": bispo do Porto quer que o perdoem sobre o que disse dos abusos sexuais (e isso inclui o meteorito)

25 out, 18:24

"Fique muito claro que sofro e deploro liminarmente esse flagelo dos crimes de natureza sexual cometidos contra menores ou pessoas vulneráveis"

Vinte e três dias depois de ter dito que não existia obrigatoriedade de denunciar casos de abuso sexual na Igreja por não serem um crime público, Manuel Linda emitiu um comunicado no qual pede desculpa. "Assumo que não fui feliz na expressão e que, porventura, tornei incompreensível o meu próprio pensamento. E disso peço desculpa a todos e perdão às vítimas que, possivelmente, se sentiram feridas."

O bispo do Porto explicou que foi alvo de uma "pergunta inesperada" e lamentou ter deixado dúvidas "quanto à noção de "crime público"". Estas declarações a 2 de outubro surgiram depois de outras afirmações - feitas há mais tempo - sobre o mesmo tema ("Ninguém cria uma comissão para estudar os efeitos do impacto de um meteorito na cidade do Porto. É possível que caia aqui um meteorito? É. Justifica-se uma comissão dessas? Porventura, não"). O bispo também fez questão de as esclarecer.

"Há quase quatro anos, usei a expressão 'queda de um meteorito'. Nessa altura, embora se falasse da criação de comissões diocesanas para a receção de denúncias de abusos, a Santa Sé ainda não tinha ordenado a sua constituição. Ora, mal cheguei à Diocese, fui confrontado com uma denúncia que tratei juntamente com o Vigário Geral. Algo ingenuamente, estava convencido de que as estruturas existentes na diocese e eu próprio seríamos suficientes para receber e tratar os casos que viessem a surgir. Entretanto, quando essas comissões se tornaram obrigatórias, criei nesta diocese uma das primeiras em Portugal. Outra expressão que não caiu bem foi usar o termo 'asneiras' relativamente a esses casos. Ora, na minha zona de origem essa palavra designa qualquer ação perversa. Não era, pois, minha intenção menorizar o terrível crime dos abusos." 

"Realidade é muito mais sombria e dolorosa do que eu pensava"

Neste mesmo comunicado, Manuel Linda reforça ser preciso, ainda que "amarguradamente", "reconhecer que a realidade é muito mais sombria e dolorosa" do que aquilo que imaginava. "Fique muito claro que sofro e deploro liminarmente esse flagelo dos crimes de natureza sexual cometidos contra menores ou pessoas vulneráveis. E que tudo farei para lhes pôr cobro", garantiu. 

"Sobre isto não deve haver qualquer dúvida. A 'tolerância zero' que o Papa Francisco declarou para toda a Igreja é a que desejo igualmente na nossa Diocese. É tempo para escutar as vítimas, sofrer com elas e prestar-lhes todo o apoio." 

A 11 de outubro, a Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais revelou que tinha recolhido, desde 10 de janeiro, 424 testemunhos validados, dos quais oito foram comunicados à comissão por dioceses. O porta-voz, Pedro Strecht, disse que "a maior parte das situações encontra-se juridicamente prescrita". 

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