Tom Stoltman domina o “superpoder” do autismo e torna-se o Homem Mais Forte do Mundo

CNN , Will Edmonds
15 jan, 09:00
Tom Stoltman, o homem mais forte do mundo

A história de um jovem autista que seguiu os passos do irmão mais velho no atletismo de força até chegar ao pódio

Quando Tom Stoltman se baixou para pegar no quinto e último Atlas Stone, uma esfera colossal de 210 kg, ligeiramente mais pesada do que um piano vertical, e pousá-lo numa plataforma à altura dos seus ombros, ele soube que isso faria dele o “Homem Mais Forte do Mundo”.

Era o levantamento final, no evento final, depois de uma semana de obstáculos extenuantes, concebidos para testar os limites da força humana, desafiando gigantes de todo o mundo, em provas que vão desde empurrar um comboio de 20 toneladas até à velocidade máxima, fazer o máximo de repetições de agachamentos com 320 kg, atirar um barril de 15 kg o mais alto possível e inúmeros outros feitos inimagináveis de força.

No final, o título foi disputado por dois homens: o segundo classificado de 2020, Stoltman, da Escócia, e o quatro vezes campeão do título de “Homem Mais Forte do Mundo”, Brian Shaw. Stoltman derrotou o seu adversário americano e o título foi para o escocês.

Depois de Stoltman ter pousado a pedra titânica na plataforma, virou-se para ver o adversário americano com dificuldades em pegar na esfera colossal.

O escocês, de 27 anos, caiu de joelhos por exaustão, celebração e sensação de alívio. Soube que tinha alcançado o que parecia impossível: ele era o “Homem Mais Forte do Mundo”.

O gigante escocês não celebrou durante muito tempo. Foi imediatamente atirado ao chão pelo homem que ficou em sétimo na mesma competição, o irmão mais velho, Luke.

“Caímos de joelhos e trocámos algumas palavras. Esse foi o momento mais especial”, disse recentemente Stoltman ao CNN Sport, depois da sua vitória notável em Sacramento, na Califórnia, em junho. Uma vitória ainda mais notável tendo em conta o seu caminho extraordinário e improvável até ela.

Stoltman tem autismo, uma perturbação do desenvolvimento neurológico, caracterizada por dificuldades na interação social e comunicação, muitas vezes apresentada em padrões restritos e repetitivos.

“[Enquanto crescia] não fazia ideia de que estava a fazer algo errado”, relembra Stoltman. “Todos os meus comportamentos e as coisas que fazia, em casa, fora de casa, com os meus pais, irmãos, por aí fora, pareciam-me normais. Pensava que os miúdos é que faziam coisas diferentes”.

À medida que Stoltman entrou na adolescência, os seus problemas sociais intensificaram-se, até “se ter apercebido de algo” e ter decidido falar com os melhores amigos.

“Levantei-me e fui com sete ou oito dos meus melhores amigos para uma sala e disse-lhes que tinha autismo. Eles disseram que não havia problema nenhum, que iam continuar a gostar de mim pelo que era. Nesse dia, senti um peso a sair-me dos ombros e senti-me normal. Como um membro normal da sociedade. Senti-me normal ao pé de outras pessoas e eles trataram-me como se fosse igual a eles. Esse dia mudou a minha vida. Foi quando fui sincero sobre ter autismo.”

Ganhar músculo

O adolescente Stotlman acabou por seguir o seu irmão mais velho, Luke, que já entrava em competições de atletismo de força, até ao ginásio.

“Eu era um rapaz magro, sem muita confiança, e o Luke disse para ir com ele ao ginásio. Por isso, fui ao ginásio local e odiei todos os segundos que lá passei. Não gostei de ter pessoas a olhar para mim, mas continuei a esforçar-me e o Luke continuou a puxar por mim.

Sabia que ele era o melhor do país, portanto estava sempre a tentar aproximar-me dele. Ele era um irmão mais velho e eu tentava desafiá-lo em todas as sessões”.

Stoltman podia ser magro, mas não era pequeno. Com 2,03 metros, o jovem escocês tinha um apetite voraz, que depressa se tornou essencial no seu novo estilo de vida, dada a necessidade de “ganhar músculo”.

“Mesmo quando era mais novo, levava quatro ou cinco sandes para o almoço da escola, muita fruta e também doces. E ainda levava dois ou três lanches”.

Uma década depois, para preparar o seu corpo para o rigor implacável do treino e da competição, Stoltman costuma comer até 10 mil calorias por dia.

À medida que se começou a concentrar em aumentar a sua força, Stoltman descobriu que o autismo era uma característica valiosa.

“Autismo e (ir ao) ginásio estão de mãos dadas”, reflete Stoltman. “Quando estamos no ginásio, precisamos de uma rotina. E descobri que o mais importante no atletismo de força é a rotina.

Acordamos todos os dias. Comemos as mesmas refeições todos os dias. Fazemos as mesmas coisas todos os dias. E vamos ao ginásio à mesma hora, todos os dias”.

Contudo, a sua demanda incansável para melhorar o seu desempenho teve os seus desafios.

“Por vezes, se falhasse um levantamento, ficava a pensar nisso durante 24 horas ou não falava com a minha mulher. Ficava muito mal psicologicamente. Há aspetos positivos e negativos e ainda tenho problemas com o lado negativo das coisas”.

“Teria gritado do céu”

Em 2016, a mãe de Stoltman, Sheila, foi diagnosticada com cancro. Como era a sua maior fã, Stoltman fez-lhe uma promessa antes de ela falecer.

“Prometi à minha mãe, antes de ela falecer, que iria ganhar o Homem Mais Forte do Mundo por ela e que, fora do desporto, também seria um cavalheiro e um homem amável”.

O gigante com mais de 180 kg sorri, enquanto imagina como ela teria reagido à sua vitória.

“Ela teria gritado e perdido a cabeça”, diz ele. “Ela teria gritado do céu”.

A ascensão de Stoltman ao topo do atletismo de força fez parte de uma estratégia de três anos, um plano que ele concretizou com uma precisão infalível.

Em 2019, disse o seguinte na digressão de atletismo de força “Giants Live”: “Vou ganhar daqui a dois anos. Quero chegar ao pódio no próximo ano e ganhar no seguinte”.

Apesar dos obstáculos interpessoais, emocionais e físicos que Stoltman teve de superar para alcançar os objetivos, a sua jornada é um marco positivo que pode transmitir a outras pessoas com autismo.

“Digo sempre às crianças e aos pais delas para o usarem como um superpoder. Nós somos diferentes. Mas, agora, temos uma vantagem sobre as pessoas que não são diferentes. Nós temos um superpoder, eles não”.

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