Anticiclone dos Açores está em "expansão sem precedentes” e isso pode explicar seca histórica em Portugal e Espanha

5 jul, 08:16
Seca (EPA/Jorge Zapata)

No século XX, ocorreram 15 eventos extremos e em todos eles o anticiclone dos Açores estava até 50% maior. O fenómeno intensificou-se durante os invernos das últimas décadas. Cientistas norte-americanos alertam que estas alterações podem tornar períodos de seca mais intensos e frequentes

Maio foi o mês “mais quente dos últimos 92 anos” e 2022 já é apontado como o segundo ano mais seco desde 1931, em Portugal, de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, e alterações no anticiclone dos Açores podem ajudar a explicar estas mudanças. Isto porque este é um sistema de alta pressão atmosférica que é fundamental para o clima da Península Ibérica, moldando também grande parte da meteorologia do resto da Europa Ocidental e da costa leste dos Estados Unidos.

Um estudo partilhado pela revista Nature Geoscience, e agora pelo jornal espanhol El País, conclui que, nos invernos das últimas décadas, o anticiclone foi maior e mais intenso. Os responsáveis teorizam que esta anomalia não tinha sido registada no último milénio e que é uma das que está a afetar ou modificar os padrões de precipitação na Europa Ocidental, com especial incidência na Península Ibérica.

No século XX, ocorreram 15 eventos extremos e em todos eles o anticiclone dos Açores estava até 50% maior. O fenómeno intensificou-se durante os invernos das últimas décadas. Em comparação, nos 1.100 anos anteriores, a média era de nove eventos climáticos extremos por século.

“A nossa análise mostra que invernos com um anticiclone dos Açores especialmente grande coincidiram com condições de seca pouco usuais na Península Ibérica durante o inverno”, explica Caroline Ummenhofer, desenvolvendo ainda que “por contraste, as tempestades no Atlântico Norte intensificam-se à medida que segue para norte no globo, com a Noruega e o Reino Unido a experienciarem condições húmidas pouco usuais”.

Anticiclone dos Açores e a depressão da Islândia: uma simbiose perfeita

De modo simplificado, o anticiclone dos Açores é um sistema de altas pressões que está centrado no Oceano Atlântico e que, por outro lado, está diretamente ligado à depressão da Islândia - um sistema de pressão baixa e origem da maior parte das frentes atmosféricas que transportam humidade para o continente europeu -, ambos os fenómenos contrabalanceiam-se e afetam-se mutuamente. O anticiclone dos Açores e a depressão da Islândia formam assim um conjunto de polos opostos que é conhecido como Oscilação do Atlântico Norte.

No verão, o complexo sistema desloca-se para norte, diminuindo os níveis de humidade atmosférica, levando ao clima seco, quente e estável que usualmente se sente em toda a Península Ibérica durante estes meses. Já no inverno, o anticiclone dos Açores encolhe dando espaço à depressão da Islândia, que é responsável pelas chuvas, mas, aparentemente, esta padronização de comportamento está a alterar-se.

Anticiclone dos Açores já terá ultrapassado os limites e a frequência usual

O estudo da Nature Geoscience sustenta agora que o anticiclone dos Açores está em expansão geográfica e ultrapassou tanto os limites como a frequência tradicionais, acrescentando ainda que as pressões atmosféricas registadas no fenómeno também estão a aumentar para além das médias do passado.

Caroline Ummenhofer, cientista da instituição Woods Hole Oceanographic nos Estados Unidos, laboratório que investiga variações climáticas, é a autora principal do estudo e explica: “O nosso estudo foca-se sobretudo nos meses de inverno, porque é a estação em que a Península Ibérica é mais atingida por chuvas”.

“Alterações ao tamanho e à posição do anticiclone dos Açores, durante estes meses de inverno, têm um impacto significativo na humidade que é transportada desde o Atlântico para os ciclos da chuva”, explica Caroline Ummenhofer.

Os responsáveis utilizaram vários modelos climáticos para estimar efeitos em invernos em que as altas pressões ultrapassavam o limite normal. Os parâmetros foram ajustados consoante as várias estações meteorológicas espalhadas pela região. Mas estes dados, no caso de Lisboa e dos Açores, por exemplo, só remontam até 1850.

Para recuar mais atrás no tempo, foi necessário recorrer a informações climatéricas indiretas, registadas em estalagmites de uma gruta portuguesa afetada pelo anticiclone. A conclusão é que o número de anticiclones nunca parou de aumentar.

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