O golfe "não é" o problema da seca. Mas a seca pode ser um problema para o golfe

3 jul, 10:00

O Governo reconheceu oficialmente que todo o país está em seca severa ou extrema e disse que os portugueses que vão ter de se habituar a viver com menos água, deixando um aviso ao setor do golfe. A CNN Portugal falou com empresários e com a federação, que garantem que "não são o elefante na sala" e já têm em prática muitas medidas para poupar os recursos hídricos

Sempre que a água escasseia em Portugal, associações e partidos com maior vertente ambientalista apontam os holofotes na direção dos campos de golfe e pedem mais limitações ou proibições. Este ano não foi exceção, mas uma outra voz se ergueu, o próprio Governo. 

“Somos um bode expiatório. É fácil culpar o golfe, é fácil bater no golfe, porque somos só 16 mil praticantes federados”, explica à CNN Portugal Alexandre Barroso, presidente da Associação Gestores de Golfe de Portugal (GGP) e diretor do Troia Golf.

Na última semana, o Governo reconheceu oficialmente que todo o país está em seca severa ou extrema. No mesmo dia, o ministro do Ambiente afirmou que os portugueses vão ter de se habituar a viver com menos água. Duarte Cordeiro disse também que o Governo "não tem qualquer tipo de limitação na aplicação de restrições" de consumo de água, deixando um aviso ao setor do golfe. Em Portugal, existem 100 campos de golfe, desde o Norte às Ilhas, sendo o Algarve a região onde há mais, quase um terço do total (29). Mas não é por isso, defende a Federação Portuguesa de Golfe (FPG), que o consumo de água tem um peso desgovernado. A FPG cita, por exemplo, o Plano Regional de Eficiência Hídrica para o Algarve, de julho de 2020, onde o consumo da atividade pesou 6,4%, valor que que contrasta com os consumos agrícola (56%) e urbano (34%).

O presidente da FPG, Miguel Franco de Sousa, diz à CNN Portugal que "a escassez de água no Algarve não tem origem na rega dos campos de golfe", que, lembra, "representam benefícios económicos importantes com receitas que chegam aos 500 milhões de euros - uma parte importante do PIB". "São, ainda, responsáveis por cerca de 2.000 postos de trabalho, diretos e indiretos, e contribuem de forma determinante para o aumento da notoriedade de Portugal a nível internacional, tendo a região sido várias vezes eleita o “Melhor Destino Mundial de Golfe” pelos World Golf Awards", aponta também.

"Os campos de golfe, que consomem 6,4 % de água, não são o demónio, não são o elefante na sala e não deixam o país em seca”, garante.

A manutenção dos campos numa região problemática

Mas é precisamente a rega que faz com que todos olhem de lado para os campos de golfe, sobretudo numa região com falta de água permanente. “O grande problema será a enorme quantidade que os campos de golfe usam para a rega, sobretudo, numa região que é das mais afetadas pela seca”, explica Sara Correia, especialista em recursos hídricos da Associação Ambientalista ZERO, que defende que o uso de águas residuais tratadas seria uma alternativa viável para este tipo de complexos.

O Bloco de Esquerda avançou, na quarta-feira, com um projeto de lei para que a rega dos campos de golfe seja feita na totalidade com águas residuais reutilizadas, criticando a ausência de medidas do Governo perante a grave situação de seca.

Alexandre Barroso considera que existe "uma perseguição bloquista" ao golfe e diz que não esquece a campanha das legislativas de 2019, quando Mariana Mortágua, em entrevista à TVI24, pediu que os campos de golfe deixassem de pagar 6% de IVA para passarem a pagar 23%, algo que já estava a ser praticado há alguns anos.

Para além disto, o presidente da GGP garante que, “se houver vontade política, não há nenhum campo de golfe que se recuse a regar com águas não potáveis”.

“A única coisa que falta é alguém com vontade política que ligue as ETAR aos campos de golfe, algo que deveria custar uma ou duas dezenas de milhões de euros. Isto é perfeitamente fazível e é o caminho que temos de seguir”, indica Alexandre Barroso.

Também a FPG está aberta à mudança e salienta que "o uso de águas residuais reutilizadas é importante", realçando, no entanto, que será também de considerar "melhorar a gestão das origens e das capacidades de armazenamento, a interligação de sistemas, a cooperação com outros utilizadores de água e a sensibilização para o uso racional da água".

Porque não são os campos de golfe regados com águas residuais

Mas Miguel Franco de Sousa alerta que "não se pode simplesmente dizer que os investidores dos campos de golfe têm de ter cuidado e gastar menos, porque não vai haver água", questionando: "Então qual é a responsabilidade do Estado neste processo?" 

"Fator importante é a localização da ETAR relativamente ao campo de golfe suscetível de ser regado com efluentes tratados, já que, na maioria dos casos, será necessário investir e construir infraestruturas para transportar a água tratada desde a origem (ETAR) ao destino (campo de golfe)", lembra o dirigente.

Até que tal aconteça, tanto FPG como a GGP salientam que a maioria dos campos de golfe tem sistemas de rega altamente modernos, que permitem não gastar água a menos que seja absolutamente necessário. “Não há nenhum campo de golfe que não tenha um sistema de rega automático", diz Alexandre Barroso, dando como exemplo o Troia Golf onde "o sistema de rega só é ativado consoante as necessidades, através de uma análise de evapotranspiração do solo".

As duas organizações apresentam ainda a agricultura como um exemplo contrário, que na região do Algarve é responsável por 56% do consumo de água, segundo o Plano Regional de Eficiência Hídrica para o Algarve.

De acordo com a FPG, no Algarve, nos últimos anos, mais de metade dos campos de golfe reduziu a área total regada comparativamente com a área regada inicial. Também as relvas de estação fria, com maior necessidade de água, têm sido substituídas por relvas de estação quente, mais eficientes no aproveitamento da água disponível e mais tolerantes ao stress hídrico, sublinha a federação, o que permitiu uma redução do consumo de água em cerca de 30% a 40%.

Vai a seca condenar os campos de golfe?

O golfe já não é um desporto de ricos, se esse é um dos objetivos da ameaça de fechar a torneira. Segundo o presidente da GGP, entre os mais de 16 mil jogadores federados existem pessoas de “todos os setores e todas as classes sociais".

"O homem do talho, o dono do táxi, o engenheiro e o banqueiro são jogadores de golfe e jogam todos juntos”, diz Alexandre Barroso.

Já para o presidente da FGP só há uma forma de as proibições travarem o crescimento do golfe em Portugal, ou seja, "se comprometerem o regular funcionamento dos campos". Miguel Franco de Sousa recorda que "os clientes de golfe são muito sensíveis a questões ambientais e toda e qualquer medida que seja implementada no sentido de melhor gerir os recursos hídricos será bem acolhida".

"Não se pode comprometer a qualidade dos campos, que já é reconhecida internacionalmente", destaca Miguel Franco de Sousa, sugerindo ao invés que "podem, e devem, ser tomadas medidas no sentido de tornar o destino Portugal mais forte", como a redução da taxa de IVA que recai sobre os campos de golfe para a taxa mínima. No entender da FGP, isto iria contribuir para a sustentabilidade financeira dos operadores e, consequentemente, permitir que pudessem ser realizados investimentos nas requalificações necessárias nos campos de golfe, no âmbito da gestão dos recursos hídricos.

Novas medidas de combate à seca podem ser anunciadas este mês

O Ministério do Ambiente e Ação Climática disse à CNN Portugal que novas medidas de combate à seca podem ser anunciadas ainda este mês pelo ministro Duarte Cordeiro. Por enquanto, vigoram as normas decididas na 9.ª Reunião da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca.

Distribuição espacial da precipitação (em percentagem) em maio 2022 (esq.) e no ano hidrológico 2020/2021 (dir.) (Imagem IPMA, retirada do Documento de apoio à 9.ª Reunião da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca da APA).

Maio foi o mês “mais quente dos últimos 92 anos” e “o valor médio da precipitação no presente ano hidrológico 2021/2022, desde 1 de outubro 2021 a 31 de maio de 2022, é o segundo mais seco desde 1931”, sublinha a Agência Portuguesa do Ambiente, mas entre as normas em vigor poucas são as proibições ou limitações. Sara Correia da ZERO critica a postura da tutela. 

“Neste momento, devíamos ter medidas restritivas e não só para os campos de golfe, mas para vários setores. Temos de fazer um uso mais eficiente da água e isso passa por utilizar água proveniente de outras fontes. Não podemos continuar a assumir ou garantir que temos uma oferta suficiente para a procura”, alerta a especialista em recursos hídricos.

Para Sara Correia, “as primeiras medidas seriam restrições de consumo, sobretudo, ao nível agrícola, lembrando que “qualquer medida que permita poupar água na casa de cada português é bem-vinda, mas não é aí que estão os grandes consumos". E dá o exemplo da agricultura que "por si só é responsável por cerca de 60% do consumo de água a nível nacional”.

A culpa é de todos

Mas pior do que o consumo de água é o desperdício. “As perdas de água nas redes de abastecimento públicas são o suficiente para regar 400 a 500 campos de golfe”, argumenta Miguel Franco de Sousa.

Sara Correia alerta para o mesmo problema. "Idealmente, as pessoas têm de se habituar a viver com menos água", no entanto, lembra que esta mudança se complica quando "200 milhões de metros cúbicos de água são perdidos só na rede hídrica pública". "É muita água, não pode ser", insiste, lançando uma pergunta: "Como podemos pedir isso aos cidadãos quando, depois, grande parte da água é perdida no trajeto?”

O futuro pode passar pelo uso de águas residuais, dessalinização ou águas cinzentas - recursos hídricos usados nos banhos e na lavagem de loiça que podem ser reutilizados - como explica a ZERO.

Mas é do presente que se trata e para o qual "todos" contribuíram. 

“Na verdade, permitimos todos [esta situação], porque ainda não tínhamos tido falta de água. O problema é só pensarmos nele quando está à porta. Não houve nenhuma estratégia para uma prevenção a longo termo. E não nos parece que estejamos a mudar, é tudo uma questão de estratégia a longo prazo”, defende Sara Correia.

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