Imigração, pensões e "um pequeno sacrifício da banca": Ventura evoca Sá Carneiro e fecha convenção a distribuir promessas

14 jan, 21:01
André Ventura e deputados cantam o hino no encerramento da 6.ª Convenção Nacional em Viana do Castelo (Estela Silva/Lusa)

Houve promessas para todos os gostos na 6.ª Convenção do Chega. Muitas levantam dúvidas sobre contas certas, mas o presidente do Chega garante que há solução: deslocamento de fundos alocados à identidade de género, acabando com subsidiodependência e com mão pesada sobre a corrupção

Terminou a Convenção Nacional do Chega em Viana do Castelo e no discurso de encerramento André Ventura não esqueceu nenhuma das antigas bandeiras do partido: as pensões demasiado baixas, os créditos à habitação demasiado altos, a imigração desmesurada, a corrupção sem consequências, os problemas na Saúde, os protestos das forças de segurança, a extinção do SEF e a reposição do tempo dos professores. Houve propostas, promessas, duas evocações a Sá Carneiro e uma certeza deixada por Ventura: “Estou pronto para ser primeiro-ministro e mudar Portugal”.

As promessas de Ventura apareceram em todas as frentes, com o líder do Chega a garantir que as medidas propostas são possíveis de pagars graças ao deslocamento de fundos agora alocados à identidade de género, acabando com subsidiodependência e, por fim, se com os “20 mil milhões que a corrupção” retira todos os anos à economia nacional.

VI Convenção do Chega (FOTO: Joana Moser)

Créditos à habitação pagos com lucros da banca

Sobre a resolução da crise da Habitação em Portugal, André Ventura defendeu que a solução passa pela alocação dos lucros excessivos da banca – gerados em grande parte pela subida das taxas de juros - para o pagamento dos créditos à habitação das famílias portuguesas. Quer isto dizer, que cada português, todos os meses, pagaria menos na prestação da casa. “Será a banca e os seus lucros excessivos a pagar o crédito à habitação das famílias portuguesas”, garantiu o presidente do Chega.

A justificação do Chega para esta cobrança aos bancos passa pelos anos em que o Estado e os contribuintes portugueses foram obrigados a injetar centenas de milhões de euros em bancos como o BES e BPN e questiona: "Pergunto com honestidade e objetividade, não será tempo de uma vez na vida, a banca fazer um pequeno sacrifício e ajudar os portugueses comuns a pagarem menos nos seus créditos à habitação?".

Pensões obrigatoriamente acima do salário mínimo

Uma das propostas mais sonantes de André Ventura focou-se nas pensões. Durante o seu discurso, o líder do Chega recordou que, devido às baixas pensões, existem vários idosos obrigados a escolher entre a alimentação e a medicação e que tal cenário tem de acabar. A solução, adianta, passa por garantir que nenhuma pensão paga em Portugal fique a baixo do valor do salário mínimo. A medida faria disparar os gastos públicos, mas o líder do Chega diz ter a solução para fazer frente à necessidade de mais dinheiro - e só precisa de seis anos de Governo para atingir o objetivo. 

“Os nossos eternos inimigos dirão sempre que é uma promessa impossível. Não é Pedro Nuno Santos, não é. Se cortarmos na ideologia de género, iremos buscar dinheiro para quem precisa. Se cortarmos em fundações e observatórios, nas subvenções vitalícias dos políticos, na enormidade de cargos políticos que há em Portugal, se cortarmos nos 20 mil milhões que a corrupção tira, então sim, será possível”, defendeu André Ventura.

(FOTO: Joana Moser)

Recuperação do tempo dos professores

O Chega falou também para os professores, que, nos últimos meses, continuam a protestar por melhores condições. "Em quatro anos, o Chega recuperará o tempo de serviço dos professores”, garante Ventura, que se dirigiu diretamente aos docentes, dizendo que são o “futuro das crianças e jovens”, trabalhem nas escolas públicas ou nas escolas privadas.

"O compromisso - este é claro e vale ouro ao contrário de Pedro Nuno Santos - em quatro anos o Chega recuperará o tempo de serviço dos professores", comprometeu-se.

O líder do Chega disse saber "o que é estar do lado certo e do lado errado", considerando que o partido tem que "ser essa voz" na defesa dos professores "porque PS e PSD deixaram de ser". André Ventura afirmou também que, na próxima legislatura, proporá na Assembleia da República, que os políticos que sejam condenados por corrupção "fiquem impedidos para sempre que exercer cargos públicos".

A subsidiodependência

É uma das grandes bandeiras do partido e André Ventura não deixou o tema escapar. Mais uma vez, o Chega prometeu apertar a fiscalização à subsidiodependência no país se vencer as eleições. André Ventura diz que, todos os anos, o Estado gasta, em média, 400 milhões só em rendimentos de inserção social.

"Todos os anos, milhões dos nossos impostos para muitos que não querem fazer nada, em Portugal. (…) Um terço para aqui, outro para ali e outro bocadinho ainda tem de ser dado ao Governo. Não, não é para a Saúde, não é para a Habitação, não é para a alta velocidade, é para continuar a sustentar uma classe que vota no PS e, por isso, eles vão continuar a dar subsídios atrás de subsídios a toda a gente”, exclama André Ventura.

SNS o "maior falhanço" do PS

André Ventura considerou que a “a Saúde é o rosto do maior falhanço do PS”, que recorrentemente enaltece e evoca a criação do Serviço Nacional de Saúde. Depois de oito anos no poder e das promessas de um SNS eficiente para todos e gratuito, Ventura diz que António Costa deixa o cargo e o cenário está exatamente como estava em 2015. “Saúde não há, mas tachos para o PS há todos os anos, todos os meses e todos os dias”, disse Ventura.

O presidente do Chega dá ainda o exemplo de Braga ou Cascais, onde o PS "quis acabar com as PPP e hoje essas cidades estão muito piores em termos de acesso à Saúde".

(FOTO: Joana Moser)

Reversão da extinção do SEF e da lei da nacionalidade

André Ventura garantiu que a 10 de março, se o Chega vencer as eleições legislativas, vai reverter a extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiros. O fim da polícia responsável pela fiscalização das fronteiras foi decidido pelo anterior governo de António Costa, no seguimento do escândalo da morte de Ihor Homenyuk, cidadão ucraniano morto no Aeroporto de Lisboa por agentes do SEF.

André Ventura insiste ainda que a imigração é hoje um fenómeno comum e que se tornou "numa questão central da sociedade nacional. No entanto, para o presidente do Chega “só deve vir quem vem por bem, quem sabe dizer ‘Olá, bom dia’”. Ou seja, o Chega promete reverter a lei da nacionalidade "para que ninguém possa entrar, estar ou ser português sem saber falar a língua e conhecer a cultura portuguesa".

“Por isso sim, nós temos de regular alguma imigração em Portugal. Nós não podemos deixar entrar todos de qualquer maneira e de qualquer forma, porque isso pressionará ainda mais a Saúde, a Habitação e levará a que todos ficaremos mais pobres em vez de mais ricos”, sintetiza Ventura.

Corrupção, o grande vírus de Portugal

O presidente do Chega diz que não foi a presidência da República ou a Assembleia que fez cair o Governo e obrigou à realização de eleições antecipadas a 10 de março, mas sim a corrupção. 

“Dinheiro em caixas ou em livros, malabarismos ou leis malandras, a queda do PS não é mais do que um símbolo do vírus que se espalha pela sociedade portuguesa: a corrupção”. Para André Ventura a corrupção é o grande vírus da sociedade portuguesa e não a covid-19.

“Sou absolutamente radical. Absolutamente radical contra a corrupção. Absolutamente radical contra o compadrio que tomou contra deste país e que nós vamos acabar no dia 10 de março”, afirmou Ventura.

Para combater "o grande vírus", o líder do Chega anunciou que o partido vai propor ao Parlamento que "todos os políticos condenados por corrupção fiquem impedidos para sempre de exercer cargos públicos no nosso país".

Protestos das Forças de Segurança

Ventura considera que o subsídio dado pelo Governo de António Costa aos elementos da PJ é "justo", mas ao não ter sido aplicado também às outras forças de segurança "humilhou e desautorizou" esses polícias.

O líder do Chega acusou ainda Pedro Nuno Santos de tentar aproveitar as manifestações das forças de segurança para retirar proveitos políticos. O presidente do Chega disse ainda que sindicatos e associações de polícias nada mais têm feito do que desmentir o secretário-geral do PS.

Ataques a Pedro Nuno Santos e o desprezo por Luís Montenegro

Horas antes do discurso de encerramento, Pedro Nuno Santos classificou a Convenção Nacional do Chega como “o congresso da mentira e da manipulação”, durante uma visita à Madeira. Ventura visou o secretário-geral do PS em várias ocasiões ao longo do discurso, mas dispensou alguns minutos para verbalizar a seguinte responder:

Este é congresso da mentira e da manipulação, disse Pedro Nuno Santos.

Mas, que autoridade tem um homem que por WhatsApp governava as instituições, que atribuiu indemnizações de meio milhão de euros a funcionários claramente não qualificados com o nosso dinheiro, que fazia negociatas com o BE e PCP para gastar dinheiro português em ações dos CTT que não valiam para nada.

Que autoridade tem um homem que um dia acordou e disse que a localização do aeroporto ia ser esta e à tarde o primeiro-ministro o desautorizou.

Caro Pedro Nuno Santos, a mentira e a manipulação não cabem neste congresso, mas caem que nem uma luva em si e no PS que tem governada Portugal nos últimos anos”.

Já quanto ao PSD e a Luís Montenegro, só houve uma breve referencia: “Não temos de ter medo das palavras, porque para politicamente correto já temos o PSD”, disse André Ventura.

(FOTO: Joana Moser)

André Ventura, a reencarnação de Sá Carneiro

Tanto no início como no fecho do discurso André Ventura evocou Sá Carneiro, ex-primeiro-ministro, fundador e líder do PPD/PSD, que morreu num desastre aéreo, em Camarate. Ventura disse que, tal como em 1979 era o PPD/PSD, “hoje o Chega é a alternativa ao PS”, citando ainda Sá Carneiro: “O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me sob que pretexto for para lutar contra a injustiça. E esse é o nosso trabalho”, disse o presidente do Chega.

Em tom de encerramento, André Ventura afirmou que “este não é o prometido país de Abril" e que “pela primeira vez, o Chega pode vencer as eleições legislativas nacionais”. O líder partidário voltou a falar Sá Carneiro para assegurar: “Eu estou preparado. Sei que nós estamos preparados para mudar Portugal”.

“Sinto-me tão pronto hoje, como sei que Sá Carneiro se sentia para ser primeiro-ministro, em 1979. E estou tão pronto a dar a minha vida por este país como ele estava para transformar Portugal. Estamos prontos. Vamos vencer e vamos ganhar as eleições de 10 de março”, enalteceu Ventura.

Chega e os históricos de outros partidos

André Ventura destacou ainda as recentes entradas de históricos militantes de outros partidos no Chega.

“Henrique Freitas, antigo secretário de Estado [do PSD]; Simões de Melo, da IL; Diogo Prates, um dos fundadores da IL; Miguel Matos Chaves do CDS e António Pinto Pereira [do PSD] são um símbolo do nosso crescimento. Queria deixar claro o agradecimento deste partido à vossa força e ao vosso testemunho”, lembrou Ventura.

Rita Matias e Pacheco de Amorim, ex-militante do CDS-PP (Fotografias de Joana Moser)

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