opinião
Diretor executivo CNN Portugal

O “último grito de decência pela pátria” de Ventura é contra “o neto de sapateiro”. Isto vai ser entre eles os dois

13 jan, 16:10
André Ventura (Lusa/Estela Silva)

Forças de segurança para aqui, ex-combatentes para ali, torniquetes para os imigrantes, salários para os jovens que amam o país e pensões para os velhos nos trouxeram aqui: o primeiro discurso de André Ventura na convenção trouxe o "business as usual" do Chega mas projectou uma ideia de força: Ventura é o líder da direita, Pedro Nuno Santos é o líder da esquerda, Costa é coisa do passado e Montenegro é ostracizado do futuro. O combate eleitoral vai ser entre AV e PNS. À navalhada.

A vitória nas eleições pode até vir a ser de Luís Montenegro, mas a campanha vai ser entre André Ventura e Pedro Nuno Santos. Eles assim o querem. E, embora se desprezem, não será por ódio pessoal, mas por estratégia política. Como a luz precisa da sombra para desenhar o seu contorno, AV e PNS precisam um do outro para se definirem (ainda que pela negativa), precisam um do outro para arregimentar militâncias, para convencer indecisos, para ganhar votos. Sabe aquele filme foleiro “Duelo Imortal”, segundo o qual “só pode haver um”? É ao contrário: “só pode haver dois”, porque eles tornaram-se eleitoralmente dependentes um do outro. Não será um duelo, será uma batalha campal.

O facto de ambos estarem a falar ao mesmo tempo este sábado de manhã – uma sobreposição, não uma coincidência – é uma imagem disso mesmo. Ambos pouco nomeiam Luís Montenegro, assim intencionalmente desvalorizando-o, antes falam “da direita” e “do PSD”. O PSD, diz Ventura, que fica em silêncio ante os escândalos, por “conluio”, por estar comprometido, por vazio de alternativa, que não tem força para travar o PS, que vai ter de engolir o Chega como se engole um sapo. “Portugal precisa de uma limpeza”, diz Ventura, para logo a seguir entrar em modo de anúncio de iogurte, “e se nós não o fizermos, quem o fará?”.

Ventura há de ter guardadas as munições mais potentes para o discurso de domingo. No de sábado de manhã, disparou a metralha habitual do Chega. Dito de outra forma: falou aos seus, aos devotos, aos que aqui estão em Viana do Castelo, não falou ainda aos que quer converter. Se "convenção" quisesse dizer "convencer", estava ganho: os que aqui estão são mais que convertidos, são crentes, são os que vibram com Ventura, fremem com o Chega, gritam “hurra!” e gritam “chulos!”, riem-se em coro de Pedro Nuno e de Mariana Mortágua, desprezam o sistema, desprezam pessoas do sistema, declaram amor saudosista à pátria e à história e à tradição e à cultura.

Neste nada-de-novo, André Ventura é um orador encantatório. Ele dá “o último grito de decência pela pátria!” onde Sócrates está por julgar e Salgado anda a passear; ele fala dos 75 mil euros encontrados “na casa do primeiro-ministro” (sic), do privilégio de gémeas com medicamentos “de quatro milhões” que o Brasil recusou dar “e o contribuinte português a pagar”, ele saca vaias a João Galamba, “Buh!”, a Mariana Mortágua, a Paulo Raimundo, a Pedro Nuno Santos, a António Costa, que “ainda ontem ameaçou um professor, mas a nós não ameaça!” (gritos).

Neste nada-de-novo há também promessas e alvos eleitorais.

Logo a abrir, as forças de segurança (palmas), “a todos os que dão a sua vida”, um suplemento salarial para todos; depois, a imigração, contra a qual “o Chega nunca esteve”, está sim “contra a desregulação” e contra aqueles que vêm "para obrigar as nossas mulheres a andar de burca", não para amar Portugal mas para destruir a sua bandeira, história e cultura; e depois a emigração, desses sim que “amam Portugal” mas saem porque não têm oportunidades e quando saem são o orgulho de Ventura porque não procuram do subsídio mas oferecem o seu trabalho; e se para os jovens é preciso mais e há Rita Matias (“Rita! Rita! Rita!”), para os velhos é preciso tudo, pensão mínima igual ao salário mínimo, “sim, isto terá impacto orçamental” – são para aí uns impossíveis dez mil milhões por ano, digo eu mas não diz ele; e como é que isto tudo se paga?, começa-se por cortar aqueles 400 milhões todos para a igualdade de género, "nem um tostão!" (palmas!), e os 34 milhões para um museu em Angola, “são uns traidores!, traidores à pátria!” (palmas, palmas de pé!).

E foi isto, isto e muitas palmas e gritos, isto e de novo o ataque a Pedro Nuno Santos “que mente” porque está a favor da reposição do tempo de carreiras dos professores mas votou a favor do Orçamento do Estado que impede, Pedro Nuno que “governa por Whatsapp e mal” (gargalhadas), e “que garantias temos de que o neto de sapateiro” não vai ser amigos dos banqueiros?, etc. etc. etc.

O cisma de Ventura com o PS e a catatonia de Pedro Nuno Santos com o Chega são formas óbvias de agregar pessoas a seu favor por estarem contra o outro, o inimigo, o pérfido, o mal encarnado e muito encarniçado. Os dois são muito diferentes, inclusive no populismo e nas “verdades”, mas ambos são agressivos e ambos estão a excitar os seus e incitar contra os outros. Cada um se assume como o único líder capaz de derrotar o outro. Só pode haver um, “there can be only one”? Não, pode até dar-se o caso de ganharem os dois. Esse é até um perigo muito particular destas eleições. Até lá, vão-se esgadanhar, vai ser feio e vai ser à bruta, vai sacrificar a verdade e a decência, afinal, ambos querem ganhar e ganhar já – e talvez pensem, como a banda sonora do filme, “Quem quer viver para sempre?”

 

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas

Patrocinados