Por que Navalny incomoda tanto Putin?

22 mar, 22:15

Alexei Navalny, 45 anos, advogado de formação, opositor do governo russo de convicção, foi esta terça-feira condenado a nove anos de prisão por fraude, depois de mais de um ano detido e de ter recuperado de uma tentativa de envenenamento. A condenação, embora não esteja ligada à guerra na Ucrânia, surge depois de o maior opositor de Vladimir Putin ter apelado aos russos para que se manifestem contra a invasão

Navalny, um russo com raízes ucranianas

Nasceu Alexei Anatolyevich Navalny a 4 de junho de 1976 em Butyn, localidade rural na região de Moscovo. Filho de Anatoly Navalny, antigo militar e proprietário de uma fábrica de cestaria, e de Lyudmila Navalnaya, tem raízes ucranianas. O pai era natural de Zalissia, vila ucraniana junto à fronteira com a Bielorrússia, e era ali que passava, com a avó paterna, os seus verões. Formou-se em direito em 1998. É casado há mais de 20 anos com Yulia, com quem teve Daria e Zakhar.

Como ficou conhecido

Apesar de durante muito tempo ser um ativo organizador de protestos de rua e de ter exposto a corrupção do governo através das redes sociais, como no seu blog LiveJournal ou site RosPil, o nome de Navalny correu mundo apenas em agosto de 2020, depois de ter adoecido gravemente durante um voo de regresso a Moscovo, que o deixou em coma por suspeita de envenenamento.

Foi tratado na Alemanha, que confirmou que o opositor russo tinha sido envenenado com o agente nervoso Novichok, a mesma arma química que foi usada em março de 2018 contra o ex-espião russo Sergei Skripal e a sua filha, Yulia Skripal, que foram encontrados inanimados num banco de jardim em Inglaterra, junto à catedral de Salisbury. Navalny acabou por recuperar ao fim de alguns meses, tendo regressado à Rússia em dezembro desse ano e acabado detido à chegada a Moscovo.

Alexei Navalny na chegada à Alemanha, onde foi hospitalizado

Da advocacia à carreira política

É advogado de formação, profissão que está impedido de exercer desde 2014, na sequência de uma condenação em 2013, estando também impedido de concorrer a cargos políticos devido a essa mesma condenação.

Em 2000, com 24 anos, junta-se ao Partido Democrático Unido Russo, Yabloko, que se tornaria um forte opositor do governo de Vladimir Putin, seguindo uma linha política liberal, social-democrata e centrista. Seria expulso sete anos depois devido às suas tendências nacionalistas e depois de participar na Marcha Russa, um evento anual nacionalista. Em 2007 lançou o Movimento Russo de Libertação Nacional, conhecido como NAROD, que quer dizer “pessoas” em russo.

Navalny em manifestação anti-corrupção em 2011 (Sergey Ponomarev/AP)

Em 2009 torna-se assessor político do governador de Kirov e em novembro de 2010 denuncia um desfalque de milhões na empresa estatal de oleodutos Transneft, divulgando documentos comprometedores no seu blog. Em dezembro, ele próprio passa a ser alvo de investigação devido a um negócio de madeira quando era conselheiro em Kirov.

A longa luta contra Putin

A 5 de dezembro de 2011, ou seja, há mais de dez anos, junta-se aos protestos que levaram milhares de pessoas à rua contra o anúncio da candidatura de Vladimir Putin à presidência, naquele que seria o terceiro mandato. Foi detido mas acabou por ser libertado ao fim de 15 dias.

Fundou nesse ano a Fundação Anti-Corrupção (FBK), para denunciar a corrupção no governo através da divulgação de documentos comprobatórios.

O ano de 2011 não terminou sem que discursasse perante dezenas de milhares de manifestantes contra a corrida de Putin à presidência. Putin venceu as eleições de 5 de março de 2012 com cerca de 65% dos votos e Navalny acabaria detido no dia seguinte, juntamente com outros manifestantes, depois de protestarem contra os resultados eleitorais, que defenderam ainda ser o resultado de uma fraude.

Navalny detido em protestos após a vitória de Putin em 2012 (Maria Turchenkova/AP)

Um ano depois, Navalny, a 20 de março de 2013, é condenado, juntamente com o empresário Petr Ofitserov, acusado de peculato num negócio de madeira quando era consultor do governador da região de Kirov. Foi condenado a cinco anos de prisão, recorreu da decisão e permaneceu em liberdade, conseguindo candidatar-se a governador de Moscovo, eleição na qual ficou em segundo lugar com 27% dos votos.

Em outubro desse ano, Navalny e o irmão, Oleg, são acusados de fraude num outro caso, envolvendo a subsidiária russa da empresa francesa de cosmética Yves Rocher.

É obrigado a cumprir prisão domiciliária de 28 de fevereiro de 2014 a janeiro de 2015, e neste período é considerado culpado de fraude, com pena suspensa de três anos e meio.

A 23 de fevereiro de 2016, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos determina que Navalny e Ofitserov não tiveram um julgamento justo, atribuindo-lhes ainda 8.000 euros por danos, além de verbas adicionais para custos e despesas.

Envenenamento: ao terceiro, com Novichok, foi quase de vez

Ainda antes de ter sido envenenado com Novichok e que quase o matou, Navalny sofreu danos significativos na visão, após ter sido borrifado no rosto com um corante verde antissético. Foi em abril de 2017. Dois anos depois, sofreu uma reação alérgica aguda na prisão, depois de ter sido detido mais uma vez, desta feita por convocar manifestações contra a desqualificação dos candidatos da oposição às eleições municipais.

E agora o Novichok. A 20 de agosto de 2020 sente-se mal durante um voo entre a cidade siberiana de Tomskln. Teria sido envenenado através de um chá. Colocado em coma induzido, a família recebeu autorização para transferir Navalny para um hospital de Berlim. A 2 de setembro, o governo alemão confirma que Navalny foi envenenado com o agente químico nervoso Novichok, desenvolvido pela União Soviética em 1971.

Saiu do coma induzido a 7 de setembro e dias depois, a 23, tem alta.

Reportagens da CNN em dezembro de 2020 revelam que o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), agência governamental de segurança nacional, formou uma equipa de elite especializada em agentes nervosos que seguiu Navalny durante anos. Registos telefónicos e de viagens sugerem que esta unidade seguiu Navalny em pelo menos 17 cidades desde 2017.

A 17 de dezembro de 2020, Vladimir Putin diz na sua conferência de imprensa anual que se os serviços secretos russos quisessem matar Navalny teriam-no feito e que ele, presidente, acedeu ao pedido da mulher do opositor para que autorizasse o tratamento na Alemanha.

Também segundo uma investigação da CNN, conhecida pouco depois, um agente russo da FSB que pertencia à equipa de elite especializada em agentes nervosos, revelou detalhes sobre como Navalny foi envenenado.

O prémio Sakharov no regresso à Rússia

Após meses de tratamento na Alemanha, Navalny regressa à Rússia a 17 de dezembro, sendo detido à chegada a Moscovo.

E apesar de ter sido autorizado a sair do país, foi acusado, a 28 de dezembro, pelo FSIN, o Serviço Penitenciário Federal da Rússia, de violar os termos da sua liberdade condicional ao não comparecer às audiências programadas na Alemanha.

No dia seguinte, a procuradoria russa abriu ainda um processo criminal contra Navalny por acusações de fraude relacionadas com o alegado desvio vários milhões em donativos ao FBK, a fundação que financiava as suas atividades e cujo encerramento foi ordenado em 2018.

Na prisão fez greve de fome entre 31 de março e 23 de abril, chamando uma vez mais a atenção do mundo, que lhe respondeu sob a forma de prémio.

Recebeu o prémio Sakharov, atribuído pelo Parlamento Europeu, em outubro de 2021. 

Filha de Navalny recebe Prémio Sakharov em nome do pai (Jean-Francois Badias/AP)

Esta terça-feira, depois de vários pedidos para que os russos se manifestassem contra a guerra na Ucrânia, Alexei Navalny, líder da oposição ao presidente Vladimir Putin, foi condenado a nove anos de prisão por fraude em larga escala e injúria em tribunal.

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