O protesto pela habitação está dividido quanto à permanência na praça, depois de Carlos Moedas ter ordenado a mudança da acampada e de o mau tempo ter agravado as condições dos manifestantes. Uma assembleia marcada para este domingo à noite deverá decidir os próximos passos. No Porto, os ativistas também recusam abandonar a Praça D. João I, onde a Câmara pretende instalar uma pista de gelo
As tendas continuam no Rossio, mas já são menos do que na noite de sábado.
Renata Cambra, a ativista que conseguiu uma decisão judicial favorável à permanência de uma tenda na praça, defendeu a retirada dos manifestantes para evitar uma nova intervenção policial. A proposta dividiu o movimento, que decidiu permanecer no local durante a última noite e marcou para as 21h00 deste domingo uma assembleia popular que poderá determinar o futuro da acampada.
Renata Cambra propôs que as tendas fossem desmontadas e que, até quarta-feira, fosse escolhido outro local para manter o protesto. Alertou para o risco de uma nova operação policial e defendeu que a retirada deveria ser encarada como uma decisão estratégica, não como uma derrota.
"Sei que não estamos protegidos, a decisão é uma decisão tática", afirmou durante a assembleia de sábado, acrescentando que sair permitiria "tomar o controlo da narrativa" e estar "um passo à frente".
A proposta não reuniu consenso. Alguns manifestantes recordaram o esforço necessário para manter a ocupação do Rossio e consideraram que abandonar a praça nesta altura seria ceder às exigências da Câmara de Lisboa, que pretende instalar ali o mercado de Natal.
"Nem a chuva nem as nossas vidas nos vão permitir estar muito mais tempo aqui, mas não é sair numa altura que lhes convém", afirmou uma mulher que dorme no Rossio desde o início da acampada, citada pela agência Lusa.
Este domingo, a RTP noticiou que Renata Cambra retirou uma das três tendas que mantinha na praça. A ativista deverá participar na assembleia desta noite. Entretanto, o movimento publicou uma mensagem nas redes sociais a sublinhar que "a acampada não tem rosto nem líder" e que nenhuma posição individual substitui as decisões coletivas.
O diferendo com a Câmara de Lisboa agravou-se depois de Carlos Moedas ter determinado a deslocação do protesto para o Largo de São Domingos, o Martim Moniz ou os Restauradores. Renata Cambra contestou judicialmente a decisão, defendendo que a autarquia não procurou compatibilizar a manifestação com o mercado de Natal, como previsto na sentença do Tribunal Administrativo de Lisboa.
Essa decisão permite à ativista manter uma tenda no Rossio até 24 de novembro, incluindo durante a madrugada, mas não reconhece um direito geral de ocupação coletiva da praça.
A organização da acampada insiste em que pretende negociar com a autarquia e com o Governo. Adriana Lima, uma das porta-vozes do movimento, explicou ao Observador que Renata Cambra não integra a organização do protesto e que a sua proposta é apenas uma das possibilidades em discussão. "Queremos que o Governo nos ouça, queremos dialogar com esses órgãos, porque o único diálogo que tivemos até agora foram bastonadas", afirmou.
O mau tempo está também a pesar nas decisões. Na noite de sábado chegaram a estar montadas cerca de 70 tendas, algumas assentes em paletes para evitar o contacto com a água. Este domingo, os manifestantes deslocaram parte das atividades para as arcadas do Teatro Nacional D. Maria II, enquanto procuram lonas, toldos e outros materiais para enfrentar a depressão Bruna.
No Porto, a acampada decidiu igualmente manter-se na Praça D. João I, onde foram montadas mais de 60 tendas durante a última noite. A organização anunciou ter distribuído mais de duas mil refeições quentes desde o início do protesto, além de ter promovido debates, atividades culturais e assistência médica.
Também ali se prepara outro confronto com a autarquia. A Câmara do Porto pretende instalar uma pista de gelo na praça, decisão contestada pelos manifestantes. O presidente da Câmara, Pedro Duarte, considera que o espaço público "não é privatizável por determinado grupo", embora garanta que nunca defendeu o recurso à violência.
"Ninguém gosta de estar ao frio e à chuva numa tenda no meio de uma praça, isto é um protesto e nós queremos fazer-nos ouvir", afirmou à Renascença Maria João Calisto, da organização da Acampada do Porto.
O Governo garante que continua disponível para negociar. A secretária de Estado da Habitação, Patrícia Gonçalves Costa, revelou este domingo que a carta entregue pelos manifestantes do Porto ao ministro Miguel Pinto Luz está a ser analisada e que algumas das reivindicações já foram ou estão a ser concretizadas.
Os movimentos exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim dos despejos sem alternativa habitacional, limites à compra de casas por fundos imobiliários e rendas verdadeiramente acessíveis.