Médicos alertam: atrasar a vacina do sarampo deixa bebés vulneráveis e pode causar surtos. "Existe um risco real"

28 abr, 07:00
Vacinação de bebé (Paul Hennessy/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

Apesar de a cobertura vacinal em Portugal continuar elevada, a Direção-Geral da Saúde (DGS) alerta para um “descuido” no cumprimento do prazo das imunizações que devem ser feitas aos 12 meses. À CNN Portugal, três especialistas alertam para os riscos e voltam a dar o exemplo dos surtos de sarampo em França, que podem vir a ser uma realidade em Portugal se a tendência se mantiver.

Adiar a vacinação das crianças, nem que seja alguns meses, pode aumentar o risco de contágio, sobretudo em berçários e creches, e impulsionar o aparecimento de surtos, incluindo de sarampo, alertam os médicos.

As vacinas até aos doze meses são as doses iniciais, faz todo o sentido dar nesse timing para proteger os bebés, porque o sistema imunitário ainda está imaturo, é uma altura em que se está a desenvolver e importa reprograma-lo corretamente”, começa por explicar Hugo Rodrigues, pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo.

Manuel Ferreira de Magalhães, pediatra da Unidade de Pneumologia Pediátrica do Centro Materno Infantil do Norte, destaca que “há uma razão clínica e biológica para se fazerem as vacinas nas idades indicadas” e que, no caso das crianças com 12 meses, “estar desprotegida” aumenta o risco de contrair doenças, sobretudo se frequentarem berçários e infantários.

Imagine que várias crianças não cumprem o esquema vacinal e os pais adiam e atrasam a vacinação. Estando várias crianças desprotegidas é mais fácil que a doença se manifeste”, continua o médico.

Em 2022, 18% das crianças não foram imunizadas ou não receberam atempadamente as vacinas contempladas no Programa Nacional de Vacinação (PNV) aos 12 meses, como é o caso da primeira dose da vacina contra o sarampo, parotidite epidémica e rubéola (VASPR). Os dados do boletim de vacinação 2023 da Direção-Geral da Saúde (DGS) indicam que estas vacinas atingiram uma taxa de cobertura de 98% aos 24 meses, mas os especialistas alertam para os riscos de adiar a imunização dos mais novos.

De acordo com o Jornal de Notícias (JN), a DGS diz que “há aqui algum descuido” temporal e que há riscos envolvidos, sobretudo no caso do sarampo, que, após 30 anos de erradicação, começa a fazer soar os alertas em alguns países da Europa com taxas de cobertura vacinal abaixo do recomendado. De acordo com aquele boletim de vacinação, “a meta dos 95% é crítica para o sarampo, por ser altamente transmissível e por estas crianças estarem em infantários, facilitadores da sua transmissão”.

Adiar a vacinação aumenta o risco de surtos de sarampo? Sim. Mas especialistas descartam alarmismos

Apesar de, “neste momento verificamos que não aconteceu nada de extraordinário, não houve surtos”, Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, alerta para os riscos caso este adiamento se torne uma tendência. 

Daqui para frente, se esta tendência se mantiver, podemos estar a permitir que as crianças fiquem vulneráveis mais tempo e que ocorram surtos, existe um risco real de não estarmos a proteger de forma atempada as crianças, não há motivo para adiar a vacinação”, atira o médico de Saúde Pública.

A infeção que dá origem ao sarampo é a que mais preocupa e Gustavo Tato Borges, embora descarte alarmismos, diz que Portugal não está imune a eventuais surtos. “O cenário em França é pior do que em Portugal, têm cobertura vacinal mais baixa devido a movimentos anti-vacinas, mas se mantivermos esta tendência podemos caminhar para uma situação parecida, não tão grave, mas com surtos”, adverte.

Da mesma opinião é o pediatra Hugo Rodrigues, também autor da página Pediatra Para Todos, que olha “com alguma reticência e preocupação” para a questão. “Não acho que tenhamos de estar verdade alarmados, ainda recentemente tivemos o exemplo de países europeus com surtos de sarampo, mas mantivemos altas taxas de cobertura”, diz, advertindo, porém, que “se atrasarmos a vacinação contra o sarampo, vamos manter uma franja da população suscetível a esta doença, podemos ter um aumento de casos”.

Sendo o sarampo um dos vírus mais contagiosos do mundo, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) traçou como meta a necessidade de uma cobertura de 95% ou mais de duas doses de vacina para criar imunidade coletiva.

“Não faz sentido adiar”

“A grande vantagem de vacinar aos 12 meses é que estamos a vacinar o mais depressa possível e a aquisição de defesas acontece mais precocemente. Assim, a proteção das crianças é mais rápida e mais depressa podemos ter imunidade”, explica o médico de Saúde Pública Gustavo Tato Borges. 

O pediatra Manuel Ferreira de Magalhães é perentório: “O calendário vacinal não é para adiar, não faz sentido adiar”. E apressa-se a dizer que a falta de literacia é, muitas vezes, um dos motivos pelos quais estas falhas no cumprimento dos prazos acontecem. “São muito raras as situações onde se deve adiar, mesmo que as crianças estejam constipadas, com febre, a tomar antibióticos”.

O médico do Centro Materno Infantil diz ainda que não faz sentido ‘repartir’ a vacinação. “Aos 12 meses há imunizações e muitas vezes os pais decidem separar [a toma], mas não faz sentido.  As vacinas são desenhadas para serem dadas ao mesmo tempo. Ao separar, estamos a expor o bebé a dois momentos de stress, que causa dor, desconforto e medo”, frisa Manuel Ferreira de Magalhães.

Apesar de a DGS reconhecer que ainda está a estudar os motivos para que no ano passado tenha havido menos pais a vacinar os filhos aos 12 meses, os três especialistas admitem que o que pode estar em causa é ainda um rescaldo da pandemia, com centros de saúde a reorganizarem-se e profissionais de saúde a gozarem dias de férias e folgas que tinham ficado por gozar nos dois anos anteriores.

Manuel Ferreira de Magalhães destaca  ainda: “Por outro lado, as pessoas ficaram com dúvidas sobre a vacinação e, em termos sociais, estamos a passar por um período conturbado, uma crise social e económica e as pessoas ficam com outras preocupações e não se lembram da vacinação”.

Em Portugal, as únicas vacinas obrigatórias são as contra a difteria e o tétano. Segundo o site do Serviço Nacional de Saúde (SNS), “as pessoas que recusem a vacinação, com todas ou alguma vacina incluída no Programa Nacional de Vacinação, deverão expressá-lo claramente, de preferência, por escrito, ficando a informação registada e arquivada na Unidade de Saúde”. E devem afastar a criança da escola e de outras atividades e notificar o centro de saúde de que não foi vacinada.

 

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