Nos corredores da TAP fala-se que indemnização de Alexandra Reis “é a ponta do icebergue” e tripulantes nunca falaram com "diretora fantasma" contratada para negociar com eles

26 abr, 16:54
O presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Ricardo Penarróias (Lusa/Manuel de Almeida)

Dirigente do SNPVAC lembra que a falta de paz social na empresa é resultado de escolhas erradas da administração e do Governo, que põem em causa a companhia. E a comunicação interna falha muito: ao ponto de uma responsável contratada para negociar com os sindicatos nunca se ter reunido com este sindicato que os representa

O dirigente do sindicato que representa os tripulantes de voo da TAP acusa a administração da companhia aérea e o Governo de serem “o único culpado” pela falta de “paz social na empresa”, revelando que até hoje não têm conhecimento dos detalhes do plano de reestruturação.

Para Ricardo Penarróias, dirigente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), ouvido esta quarta-feira na comissão parlamentar de inquérito à gestão da TAP, os cortes (de pessoal e salariais) levados a cabo na empresa foram desajustados e comprometem a operação. Já sobre a comunicação com a administração aponta o dedo ao presidente Manuel Beja, com quem “nunca se reuniu”.

Assim como também não se reuniu com a polaca contratada pela TAP precisamente para negociar com os tripulantes: “infelizmente, nunca tive contacto com ela.”

Questionado sobre a existência de outras indemnizações como a de 500 mil euros paga a Alexandra Reis, diz que oficialmente não tem informação, mas que a mesma já circula entre os trabalhadores: “Nos corredores, fala-se que Alexandra Reis é a ponta do icebergue.”

“O problema da TAP não são os trabalhadores, foi ter sido sempre um joguete político”, lamentou, dizendo que a companhia foi encarada com um “trampolim” “para interesses individuais e não coletivos”, argumentou, sobre as influências estatais na gestão da empresa.

Ricardo Penarróias confirmou que o SNPVAC já se reuniu com o novo presidente executivo da TAP, Luís Rodrigues, numa “reunião de pessoas que conhecem a realidade TAP”. “Há potencial e muita competência”, elogiou.

(Lusa)

Culpas no Governo e na administração

Ricardo Penarróias começou por agradecer aos tripulantes o seu esforço e contributo para os “resultados históricos” da TAP, à custa de cortes nos seus rendimentos.

“O que me preocupa é a ausência de informação e de transparência que a anterior gestão apresentou. Hoje é dia 26 de abril e, infelizmente, desconheço o plano de reestruturação, eu e todos os trabalhadores do grupo TAP”, explicou aos deputados. No final, apresentou um documento para mostrar que "nunca houve imposição" de Bruxelas para cortes salariais".

Para o dirigente sindical, a realidade acabou por mostrar que o “despedimento não era necessário”, visto que hoje há voos cancelados por falta de tripulação. “Foi contraproducente para a companhia”, insistiu.

O sentimento dos trabalhadores, disse, é de que foram “enganados”. “Esta sala veio dar-nos razão. Aquilo a que temos assistido nesta sala é uma autêntica vergonha para o país”, destacou, sobre as revelações feitas na comissão parlamentar de inquérito.

“Hoje, se não há paz social, o único culpado é a administração e o Governo. Foram eles que de uma forma imperialista, aproveitando uma conjuntura desfavorável, impuseram medidas draconianas e cortes abusivos”, criticou.

Ricardo Penarróias foi questionado se foi explicado ao sindicato que, sem o plano de reestruturação, a TAP teria entrado em insolvência. “Isto foi a narrativa que nos apresentaram”, respondeu. E viria a acrescentar: “Mas nada me prova que sem a intervenção do Estado teria havido insolvência.”

“Quis-se limpar tanto, tanto, a empresa, torná-la apetecível para futuros compradores, que se esqueceu do principal, a operação”, juntou. Para esse processo futuro de privatização da TAP, Ricardo Penarróias defendeu que gostaria de ver uma participação do Estado na companhia e que “é exigível que os sindicatos sejam ouvidos e estejam presentes nas negociações”.

O dirigente apontou também culpas às opções políticas quanto à gestão do aeroporto da capital, apontando a TAP como vítima destas decisões: “Quem está na linha, já não tem cara para justificar os atrasos. E a razão muitas vezes não é da TAP, é do aeroporto de Lisboa. Mas é a imagem da TAP que fica manchada”.

(Lusa)

Comunicação falha na TAP, até com responsável para negociar com tripulantes

O dirigente sindical foi confrontado sobre os canais de comunicação entre sindicatos e administração da TAP- “Existiram, nem sempre construtivos”, admitiu. E com Manuel Beja, escolhido pelo Estado como presidente do conselho de administração? Nunca houve reuniões. “A atuação dele, na TAP, foi nula”, classificou.

Este sindicato assegurou também que não teve qualquer contacto com Karolina Tiba, polaca contratada pela TAP para ajudar a Direção de Tripulantes de Cabina na negociação com estes profissionais. “Eu gostava de falar muito, infelizmente nunca tive contacto com ela”, disse Ricardo Penarróias, classificando este caso como “um caso de diretores fantasma”. Filipe Melo, do Chega, mostrou o contrato assinado em dezembro de 2022. O dirigente sindical não sabe dizer se a polaca ainda está na empresa.

Já sobre a hipotética indemnização a pagar à presidente executiva Christine Ourmières-Widener, despedida com justa causa pelo Governo, coloca-a em segundo plano: “A minha preocupação não é a indemnização a pagar à Christine. É o regresso dos trabalhadores ao serviço e à operação. Se ela tiver razão, tem de ser indemnizada.”

Ricardo Penarróias defendeu também que a compensação milionária paga a David Neeleman é “o exemplo prático de como um processo é mal feito e mal conduzido”. Para o dirigente, “nada justificava a saída”, que foi resultado da “ânsia de capitalização política”.

Houve ainda oportunidade para falar do ministro João Galamba e do facto de ter anunciado que a greve dos tripulantes em janeiro passado seria desconvocada antes da assembleia-geral do SNPVAC. Ricardo Penarróias apontou um “desconhecimento da realidade TAP” e “lapso” ao governante, assegurando que “nunca foi transmitido” que a questão estaria resolvida, até porque a decisão final seria dos associados.

Ataque à Ryanair

Na audição, a bloquista Mariana Mortágua questionou porque motivo a Ryanair fez descontos para a Segurança Social no valor de 44 milhões de euros entre 2013 e 2023, enquanto a TAP atingiu os 1500 milhões.

Ricardo Penarróias lembrou que “custa” cumprir a lei e lembrou aquilo a que chama um acordo de empresa com “cláusulas inconstitucionais e ilegais”.

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