Nuno Gomes: «Nesse Boavista-Benfica, ainda alguém disse que tentei chutar para fora»

18 fev, 09:25
Sanchez e Nuno Gomes no Boavista-Benfica de 1996/97 no Jamor

A tarde em que um ídolo da Luz teve de marcar ao Benfica

A História de Um Jogo é uma rubrica do Maisfutebol. Escolhemos um dos encontros do fim de semana e partimos em busca de histórias e heróis de campeonatos passados. Às quinta-feiras, de 15 em 15 dias.

A ponte Bessa-Luz já não era nova. Da Boavista para a Segunda Circular já tinham seguido alguns nomes sonantes e um deles, Jorge Gomes, até fez história na Luz. Bastou-lhe, para isso, lá chegar. Foi o primeiro estrangeiro da História do Benfica contratou. Nuno Gomes também fez a viagem, que teve uma última paragem demasiado incrível e que, certamente, faria correr muita tinta nestes dias que correm.

O Benfica volta a defrontar o Boavista nesta sexta-feira e nos muitos duelos entre ambos, há jogos absolutamente marcantes. No Bessa, na Luz, no Jamor. Há Paulo Sousa na baliza, há Paulo Futre em grande e há o orgulho profissional de Erwin Sanchez e Nuno Gomes. Isto apenas para falar dos anos 90, onde a história da final de 1996-97 não começa bem nesse 10 de junho, dia de Portugal, mas uns meses antes, na Amoreira, concelho de Cascais.

A negociação entre Damásio e Loureiro

Vamos já deixar a questão do resultado de lado: o Boavista venceu o Benfica por 3-2, numa tremenda final no Jamor (vídeo abaixo na página). Marcaram Sanchez (2) e Nuno Gomes, jogadores que, país inteiro o sabia, iam jogar pelos encarnados depois das férias. Traíram o futuro? Nada disso. Nada disso mesmo. Apenas foram o que os jogadores são sempre: profissionais.

Erwin Sanchez foi uma das grandes figuras do Boavista e chegou a ser treinador dos axadrezados

«Ainda não era jogador do Benfica, mas tinha um pré-contrato assinado.» Nuno Gomes lembra-se bem da derradeira vez que marcou um golo pelo Boavista. O Jamor seria o palco do último grito de axadrezado, mas quando os quartos de final da Taça terminaram, estava longe de pensar que teria de o fazer frente aos encarnados.

Sérgio Duarte marcou o único golo do Estoril-Boavista, pôs o Boavista na rota do Jamor e o Benfica no caminho de Nuno Gomes. Ele e o que se seguiria após o duelo na Amoreira.

«A final da Taça de Portugal foi a 10 de junho e eu tinha acertado as coisas com o Benfica em abril. Foi uma negociação muito fácil. Eu já sabia que havia interesse. Nessa semana de abril, o Boavista jogou para a Taça de Portugal com o Estoril e houve algumas movimentações nesse sentido. Houve interesse de outra equipa perante o Boavista e isso acelerou o processo com o Benfica. Eu não sabia quando iria acontecer, mas sabia que o Benfica estava interessado. Portanto, soube depois do jogo com o Estoril. Quando acabo de tomar banho e estamos para ir para o autocarro e regressar ao Porto, estava o meu empresário e o presidente do Boavista, João Loureiro, à minha espera. Disseram-me que não ia seguir viagem com a equipa e que íamos ficar em Lisboa porque tínhamos uma reunião. Fomos jantar primeiro e depois fomos encontrar-nos com o presidente do Benfica, Manuel Damásio, e o Toni, que era o diretor-desportivo.»

No mesmo dia em que o Boavista vencia no Estoril, o Benfica goleava na Luz: 5-0 aos Dragões Sandinenses. Ora, no final, Manuel Damásio deixou também o estádio para tentar convencer o jovem ponta de lança dos boavisteiros.

«Não foi muito difícil chegar a acordo, era a minha vontade também», recorda Nuno Gomes ao Maisfutebol. O antigo internacional iria para a Luz, mas revela que, durante muito tempo, esteve às escuras.

«Houve ali um período de negociação entre João Loureiro e Manuel Damásio do qual não participei, depois quando foi para falar comigo já os presidentes tinham acertado tudo e, portanto, eu também não tive muitas hipóteses de negociar o que quer que seja. Até porque o que me foi apresentado na altura para mim era muito bom, mas, acima de tudo, estava a realizar um desejo meu, que era jogar no Benfica», confessa.

«Era jogador do Boavista e não pensei em mais nada. Até ao momento em que pisei o relvado…»

Portanto, a partir de abril de 1997, Nuno Gomes tinha noção de que lá para julho desse ano iria usar a camisola 21, mas do Benfica. Quando o Boavista eliminou o Sporting e os encarnados o FC Porto nas meias-finais, o Boavista-Benfica do Jamor ganhou ainda mais interesse. Não só pelo duelo histórico, mas porque os adeptos encarnados iriam ver o futuro. Ainda assim, foi o passado e o presente do avançado que tiveram peso tremendo. Nuno Gomes e Sanchez vão fazer os golos da vitória, o último deles num penálti sobre o avançado que o boliviano converte.

«Aconteceu essa coincidência de jogar contra o Benfica. Fui o mais profissional que pude e consegui ser. Eu não vou sozinho para o Benfica, vou com o Sanchez que jogava comigo e que também já sabia que ia. Éramos dois na mesma situação e não pensei muito no que iria ser o futuro. Nessa semana, concentrei-me no jogo em si e em vencer um troféu em nível sénior. Eu tinha sido campeão nacional de juniores com o Boavista, mas não tinha vencido nada como sénior. O clube tinha vencido uma Taça uns anos antes, quando eu era juvenil ou júnior [1991-92 contra o FC Porto], e perdera outra com o Benfica numa grande exibição do Futre. Pensei que seria muito bom despedir-me do Boavista com um troféu. O Boavista foi o clube que me permitiu crescer como jogador, foi quem me foi buscar a Amarante. Gostei muito dos anos que lá passei, conheci gente muito boa. Tinha essa vontade de poder sair com um título. Concentrei-me mais nesse fator do que no futuro. Era jogador do Boavista e não pensei em mais nada. Até ao momento em que pisei o relvado…»

Quando deixa os balneários e sobe as escadas, Nuno Gomes tem por perto os adeptos boavisteiros. Mas são os do Benfica que o recebem a ele, e a Sanchez, de forma que ainda agora lembra.

«Percebo logo que o estádio está na maioria de encarnado e, quando entrei, todos aplaudiram. Senti aí a primeira vez o que seria jogar no Benfica», narra Nuno Gomes.

«Recordo-me de comentar com o Sanchez esse gesto, e apreciei o facto de nos receberem com palmas, mesmo como adversários. Mas aquilo foi um momento, porque estava a lutar por um troféu com a camisola do Boavista», sublinha, ainda que tenham passado quase 25 anos daquela terça-feira de 1997.

Vamos ao jogo, então. E aos golos. O Boavista já tinha duas ou três personalidades da equipa que viria a ser campeã. Ricardo, Litos, Mário Silva, Rui Bento… tinha também nomes consagrados, como Timofte, Jorge Couto e o inevitável Sanchez, que faz o 1-0 de livre. Nem Preudhomme conseguiu parar a especialidade do boliviano.

Jimmy Floyd Hasselbaink devia ser o ponta de lança titular do Boavista, mas desde a meia-final com o Sporting que o neerlandês não está apto. Regressa na final do Jamor, para o banco. O ataque fica para o rapaz de Amarante.

«O mister Mário Reis foi um grande treinador que apanhei, dava-nos muita confiança e foi o grande obreiro dessa taça. Por norma, eu jogava com o Jimmy na frente. Tivemos o Filipovic e o João Alves antes como treinadores e com o João Alves jogávamos sempre os dois. Marcámos alguns golos, o Jimmy mais do que eu [gargalhadas]. Não me recordo porque foi suplente, talvez estratégia para jogarmos mais fechados e sair no contra-ataque. Jogou o Simic que era muito rápido nas transições. O Mário Reis punha-nos muito à vontade e dava-nos liberdade criativa na frente.»

Estratégico ou por limitação de Jimmy, a verdade é que a dupla Simic-Nuno Gomes funciona e os dois conectam para pôr o resultado em Boavista, 2 – Benfica, 0. Um golo que Nuno Gomes, ídolo futuro do clube da Luz, celebra com paixão.

Nuno Gomes no Boavista (foto cedida pelo próprio)

«Esse festejo tem muito a ver com o que disse, que era a vontade de vencer um troféu pelo Boavista. O clube sagrou-se campeão uns anos depois, mas nessa altura os troféus pelos quais tenta lutar eram Taças de Portugal. Era muito mais difícil ao Boavista ganhar um título. Essa vontade é clara na forma como celebro», explica o 21.

Reação ao golo, Petit e Veríssimo

Os tempos eram outros, é verdade, mas traziam já prenúncio do que aí vinha e experimentamos hoje.

«Durante a semana, pontualmente, e digo mesmo pontualmente, porque ainda não existiam redes sociais, lembro-me de haver algumas vozes que não concordavam que eu e o Sanchez jogássemos porque já era público que íamos para o Benfica e podia haver um conflito de interesses. Se calhar hoje nem jogávamos», analisa Nuno Gomes.

Figura, campeão e capitão pelo Benfica, o antigo internacional português também tem bem presente como foi difícil marcar o 2-0 e não esquece uma ou outra análise ao lance.

«O meu golo é um cruzamento do lado esquerdo do Simic e eu atiro-me à bola, meio de “carrinho”, e encosto o pé na bola, em esforço, de baixo para cima e a bola entra na baliza a subir. Ainda houve uma ou outra pessoa que disse que eu queria chutar para fora da baliza! Imagino o que seria se fosse agora. Mas nós jogámos com essa vontade, o Sanchez acaba por marcar dois golos, eu um. Sabíamos que havia pessoas que estavam a olhar para nós à espera de nos apontar algo. Não tínhamos de provar nada, mas houve orgulho profissional e dizer às pessoas que não estávamos a pensar na época seguinte.»

O Benfica reduz com um grande golo de Calado, mas Nuno Gomes tenta o 3-1 e acaba derrubado. Penálti para o Boavista, golo para Sanchez, 3-1 no Jamor. El Hadrioui ainda faz o 3-2 final, mas são mesmos os jogadores que Manuel José queria na Luz que saem como heróis de uma tarde de terça-feira.

«Eu vou para o Benfica muito por culpa dele. Não foi a melhor altura para ele estar à frente do Benfica, mas naquele tempo não era fácil para nenhum treinador. Era um grande profissional, ensinou-me muitas coisas. No Boavista apostou em mim, em muitas coisas mudou-me o estilo de jogo», recorda Nuno Gomes.

Ídolo dos adeptos, Nuno Gomes foi capitão do Benfica e referência do clube

Curiosamente, o antigo comentador do Maisfutebol na TVI24 e atualmente na CNN Portugal também tem ligação com os dois treinadores que vão estar em duelo nesta sexta-feira.

Antes de uma pergunta final que o deixa hesitante, Nuno Gomes vê Petit e Veríssimo assim:

Sobre Petit

«Eu acho que o Petit tem provado que não é um treinador defensivo. Está a fazer o caminho que tem de fazer, nós sempre dissemos que ele ia ser treinador. Fui colega dele no Boavista, na seleção, no Benfica e fomos colega de quarto. Sempre soube que ele ia ser treinador. Sempre gostou de organizar os colegas e tinha qualidades de liderança. Percebia o jogo de modo diferente e perguntava para que é que os exercícios serviam, debatia com o treinador sobre o adversário que íamos defrontar. Só quem lidou com o Petit no dia a dia é que percebeu o jogador que ele foi. Muitas vezes diziam que ele era um pitbull e só dava porrada. Era muito inteligente e bom tecnicamente. Tinha agressividade natural, mas acho que ele necessitou de impor essa necessidade devido à fragilidade dele. Fiz formação com ele, ele era mais franzino, os médios são maiores por norma, mas ele nunca deixou de saltar a bola e lutar por ser pequeno. Além de ser agressivo e de ser chato e teimoso, era inteligente com bola.»

Sobre Nélson Veríssimo

«Conheço-o perfeitamente. Sempre foi um jogador muito inteligente para central. Não digo isto de forma depreciativa, mas tem a ver com a visão que havia antes de que os centrais serviam um para marcar e outro na dobra. O Veríssimo tinha qualidade para sair a jogar. Era mais reservado, apanhei-o também na formação do Benfica quando lá trabalhei. É uma pessoa muito dada a aprender, muito observadora, mais reservada, mas sempre com excelente relação.

Nuno Gomes tem muitas ligações ao jogo desta sexta-feira e até hesita quando lhe fazemos uma última pergunta: novo Bessa ou o antigo?

«No novo Bessa só joguei como adversário e a imagem que me vem à cabeça é de ver o estádio coberto de vermelho quando lá fomos campeões. No velho, ainda andava atrás do sonho de ser jogador da primeira equipa e ia aos jogos todos do Boavista em casa. Apanhei uma fase em que o Boavista fez alguns jogos europeus importantes e lembro-me de ambientes vividos no Bessa que foram fantásticos. Aquilo marca um jovem, mas escolho o novo por tudo o que representa para mim e porque tem a ver com a modernidade dos estádios, é melhor para adeptos e jogadores. Ainda assim, guardo num cantinho especial o estádio em que iniciei a minha carreira.»

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