Como a solidão faz mal à saúde. Prepare-se: a lista de doenças e efeitos é longa (mas também há como preveni-la)

1 mai, 08:00
A solidão e o isolamento social - cada um por si ou um a intensificar o outro - é capaz de impulsionar uma série de problemas mentais e físicos, ao mesmo tempo que pode ser também consequência deles mesmos. (Pexels)

Saúde mental mais fragilizada, obesidade e problemas cardíacos. Estas são apenas algumas das consequências diretas da solidão, mas a verdade é que podem também ser um trampolim para que a pessoa se isole e sinta só. Duas psicólogas explicam à CNN Portugal quais os verdadeiros impactos da solidão na saúde.

Por definição, “a solidão é um sentimento subjetivo e relaciona-se com ausência de contacto e de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado”, escreve a Direção-Geral da Saúde. A solidão é uma das principais responsáveis pelo isolamento, mas pode também ser uma consequência direta dele mesmo, qual círculo vicioso em que a pessoa se isola por se sentir só e sente-se só porque está isolada.

Por ser um sentimento, a solidão varia muito de pessoa para pessoa e vê-se à mercê de vários fatores, intrínsecos ou extrínsecos, como explica um artigo publicado na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar em 2018. Mas uma coisa é certa: não olha a géneros, nem tão pouco a idades. E o percurso de vida, sobretudo quando marcado por “experiências negativas nas relações com os outros”, pode ser determinante para uma maior vulnerabilidade à solidão, diz Marta Calado, psicóloga na Clínica da Mente.

São vários os gatilhos que deixam uma pessoa mais vulnerável à solidão e à vontade de se isolar e a psicóloga Ana Valente dá exemplos: “viver sozinho, condições económicas mais frágeis, doenças que condicionam a mobilidade, ser cuidador informal, viuvez, desemprego, o local onde se vive, se está mais junto de outros ou não”. Mas, destaca, a solidão “muitas vezes tem a ver com a nossa saúde psicológica e com a nossa história de vida, que pode contribuir para que estejamos mais sozinhos e isolados e para que haja o desenvolvimento de sentimento de solidão”. 

E como se diagnostica a solidão? Avaliando o quão bem a pessoa está consigo mesma. “Os profissionais de saúde têm de saber distinguir uma tendência satisfatória para o isolamento, para o recatamento, para ter um tempo para desenvolver as próprias reflexões, daquilo que é sentir a solidão. Quando nos sentimos em solidão não queremos necessariamente estar sozinhos, sentimos no peito um aperto, um vazio, sentimos que a vida das outras pessoas está preenchida, temos de lidar com a emoção da tristeza, de decepção, de frustração”, esclarece a psicóloga Marta Calado.

Sentir-se só sem estar sozinho

Apesar de ser associada ao isolamento, a solidão pode afetar uma pessoa até mesmo quando está em casa, junto da sua família, perto dos seus amigos, no seu local de trabalho. Há quem se sinta só mesmo quando tem companhia e a pessoa consegue percebê-lo “quando não se sente integrada, se sente rejeitada”. 

Esta ‘solidão acompanhada’ “é uma das muitas experiências que faz com que o indivíduo ganhe mecanismos de defesa, de proteção e não se exponha tanto aos outros”, no entanto, “sem se aperceber, acaba por levar uma vida mais centrada em objetivos individuais ou restrita a grupos”, até porque a pessoa pode sentir-se só na presença apenas de determinadas pessoas ou grupos e não sempre que está acompanhada, diz Marta Calado. De acordo com a psicóloga, a pessoa pode carecer de um sentimento de pertença em casa junto da família, mas encontrá-lo “na família do coração, que são os amigos que escolheu”.

A psicóloga Ana Valente acrescenta que este sentimento de solidão quando não se está efetivamente sozinho foi notório em tempos de pandemia, sobretudo junto dos mais novos, que “não conseguiram ter sentimentos de pertença, não se conseguiram identificar” com quem dividiam teto.

O sentimento de solidão na presença de outras pessoas causa aquilo a que Marta Calado chama de “conflito interno”, uma “ambiguidade emocional, com impacto psicológico e comportamental”, especialmente quando a solidão é sentida junto de pessoas com que se está constantemente, como pode acontecer em ambiente familiar ou laboral. E qual o resultado disso? “A pessoa distancia-se mais, não fala tanto, não é tão interventiva, tenta ausentar-se dessas situações o mais rapidamente possível para se resguardar na sua bolha”, explica a psicóloga da Clínica da Mente.

Como a solidão afeta a saúde física e mental

A solidão e o isolamento social - cada um por si ou um a intensificar o outro - é capaz de impulsionar uma série de problemas mentais e físicos, ao mesmo tempo que pode ser também consequência deles mesmos.

“A solidão associa-se a psicopatologias, como ansiedade, depressão e stress, mas também a nível físico, como a hipertensão e problemas cardiovascasulares”, diz Ana Valente. E por “associa-se” entende-se que é causa e efeito, que pode levar ao sentimento de solidão, mas que este mesmo sentimento pode impactar a saúde física e mental da pessoa. Uma pessoa que lida constantemente com o sentimento de solidão pode apresentar “alterações de sono, como insónia, alterações no apetite, a pessoa pode chorar, ter uma maior desconcentração, sente tristeza, tem pensamentos intrusivos e constantes que a levam pensar porque não suficiente interessante para os outros”, continua Marta Calado.

Olhando para o impacto na saúde física, não faltam evidências científicas que comprovem a relação entre a solidão e o isolamento com problemas de saúde. Em 2019, um estudo publicado na PLOS One revela que o isolamento social está associado a uma maior propensão de inatividade física, má alimentação e uso de medicamentos psicotrópicos, fatores que podem desencadear problemas de saúde, como a obesidade ou depressão, por exemplo. “O isolamento social pode ser menos prevalente em idades mais jovens, mas é ainda mais fortemente associado a más condições de saúde e comportamentos do que em idades mais avançadas”, lê-se na investigação.

Já um outro estudo, do mesmo ano mas publicado na revista BMC Public Health, dá conta que também os mais velhos ficam mais vulneráveis com o isolamento social e consequente solidão. A investigação sugere que “o maior isolamento social em homens e mulheres mais velhos está relacionado com a redução da atividade física objetiva diária e um maior tempo sedentário”, dois fatores também com impacto direto na saúde física.

“O isolamento social percebido (PSI) (solidão) está ligado ao aumento do risco de doenças crónicas e mortalidade”, explica um estudo de 2015 publicado na PNAS, que dá conta de uma maior tendência para inflamação e uma menor capacidade para responder contra vírus. Um estudo publicado em 2017 pela Associação Americana de Psicologia dá um exemplo disso mesmo, afirmando que as pessoas solitárias que foram expostas ao rinovírus eram mais propensas a desenvolver sintomas de constipação do que as pessoas que não eram solitárias. Mas há outros impactos igualmente penosos, como uma maior propensão para doenças físicas, como hipertensão, doenças cardíacas, obesidade, sistema imunitário enfraquecido, ansiedade, depressão, declínio cognitivo, doença de Alzheimer e até a morte, revela o Instituto Nacional de Envelhecimento dos Estados Unidos, além de que deixa os idosos ainda mais vulneráveis aos efeitos do envelhecimento no cérebro: diz um estudo que os idosos em isolamento social ou num estado de solidão mostram função cognitiva pior quatro anos depois.

A nível mental, os efeitos da solidão e da saúde mental são igualmente notórios e não escolhem idades. “Sem dúvida que alguém que se sente em solidão não sente bem-estar e satisfação psicológica”, atira Marta Calado, explicando que, nos mais velhos, é comum a toma de antidepressivos quando o sentimento de solidão é uma constante. 

“É natural que pessoas que estão mais sozinhas tomem um antidepressivo para saberem tolerar mais facilmente esta gestão emocional, a falta de entusiasmo, alegria e de oportunidades de encontrar ânimo. Até porque esta situação de vida com estas repercussões psicológicas terá repercussões físicas, porque o isolamento faz com que pessoas tenham a tendência a não se movimentar tanto, a ter mazelas físicas, como contraturas musculares, dores, cólicas, tensão acumulada”.

Cientistas da Universidade de McGill, no Canadá, revelaram no ano passado uma espécie de assinatura nos cérebros de pessoas solitárias, espelhada em variações no volume de diferentes regiões do cérebro, bem como na forma como essas regiões se comunicam entre si nas redes cerebrais, lê-se no site da instituição de ensino.

Na prática, diz o estudo publicado na Nature Communications que as alterações cerebrais das pessoas solitárias estavam centradas naquilo a que se chama de “rede padrão”, um conjunto de regiões cerebrais envolvidas em pensamentos internos, como recordar, perspetivar ou pensar noutras pessoas. “Os cientistas descobriram que as redes padrão das pessoas solitárias eram mais fortemente ligadas e, surpreendentemente, o seu volume de massa cinzenta nas regiões da rede padrão era maior”, no entanto, as pessoas solitárias continuam à mercê de um declínio cognitivo mais precoce e do aparecimento mais rápido de sinais de demência, explica o Science Daily.

Apesar de ser uma associação já várias vezes feita pela ciência, a verdade é que ainda “é incerto” se os efeitos do isolamento social ou da solidão “são independentes ou se a solidão representa o caminho emocional pelo qual o isolamento social prejudica a saúde”, lê-se num estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Deixar prevenir a solidão e evitar o isolamento

“Cabe a todos nós ter o papel comunitário e dentro da sociedade”, diz Ana Valente. A psicóloga defende que “cuidar dos nossos, sejam família ou vizinhos” ajuda a que quem está só deixe de se sentir (pelo menos tão) só, seja porque está a ser ajudado ou porque está a ajudar. “Todos podemos fazer algo no combate à solidão, até porque isso é muito positivo para o bem estar e saúde mental de quem ajuda”, frisa.

Ana Valente considera ainda que o “autocuidado” deve ser o ponto de partida, incluindo-se nesta tarefa hábitos como “cuidar da saúde física e mental, fazer atividade física e ter uma alimentação saudável”. Mas é também preciso saber filtrar e, sobre isto, a psicóloga fala da importância de “ter algum cuidado e filtrar informação e programas de televisão”, sobretudo os que optam por conteúdos mais dramáticos e que podem levar a estados de tristeza - “faz com que vivamos as dores e sofrimento alheio”, acrescenta Marta Calado.

Um dos segredos para que a pessoa não sinta necessidade de se isolar é “fazer coisas de que gosta e isto é à medida de cada um, pode ser ouvir música, dar uma caminhada, fazer voluntariado, encontrar um papel ativo dentro da comunidade em que a pessoa está inserida”, sendo este último ponto mais vantajoso até para os mais velhos, sobretudo quando se reformam e perdem a rotina habitual e até, em alguns casos, o seu propósito. 

“Ter um papel ativo dentro da comunidade traz emoções positivas e faz com que os sentimentos mais negativos diminuam, incluindo a solidão”, frisa Ana Valente.

Manter as rotinas e ter planeamento diário “no sentido de ocupar as 24 horas do nosso dia com tarefas, seja ligar a um amigo ou a familiar, passear o animal de estimação, ter a tarefa de fazer as compras diárias, falar com vizinhos, acompanhar ou tomar conta dos netos do vizinho” é, para Marta Calado, também uma forma de fazer frente à solidão.

Apesar de as redes sociais serem associadas ao isolamento, em alguns casos podem ser a ferramenta essencial para manter contactos e encurtar distâncias, diminuindo a sensação de solidão - o isolamento físico mantém-se, mas manter ligações com outros, mesmo que digitais, pode ajudar a pessoa a sentir-se menos só. 

“Devemos fazer um uso saudável das nossas tecnologias, com costumo dizer, não há bela sem senão, mas [a tecnologia] pode ser um recurso muito positivo no combate à solidão, não ao isolamento mas à solidão. Devemos fomentar os contactos via tecnologias, não devendo ser a única forma de o fazer, mas permitem diminuir sentimentos de solidão”, conclui Ana Valente.

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