Vulneráveis, sem retaguarda familiar e um constrangimento para o SNS. Em todos os hospitais, idosos internados desesperam por vaga em lar

17 set, 10:12
Estrutura de Retaguarda Covid-19 no Porto

REVISTA DE IMPRENSA. No caso mais grave já registado em Portugal, um utente ficou 495 dias no hospital sem qualquer quadro clínico que o justificasse

O problema não é novo. Melhorou durante a auge da pandemia de covid-19, mas o número já voltou a aumentar. De norte a sul, os casos de idosos esquecidos nas unidades hospitalar repetem-se. O problema custa milhões de euros ao Estado e coloca em causa o funcionamento desejado do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A notícia foi avançada pelo Jornal de Notícias (JN), na edição deste sábado, e dá conta de casos em que o tempo de espera foi mesmo superior a um ano. No caso mais grave, o utente ficou 495 dias internado sem qualquer motivo aparente. 

O tema tem traços comuns em todos os casos: tratam-se de idosos, deram entrado nos hospitais por questões de saúde e acabam por ficar internados vários meses sem qualquer condição que o justifique, porque não têm vaga em nenhum lar ou unidade de cuidados continuados e não têm condições para voltar a casa.

"Regra geral, são idosos vulneráveis, com parcos recursos e sem retaguarda familiar que lhes permita regressar a casa", pode ler-se na publicação do JN.

O fenómeno custa milhões de euros ao SNS, congestiona os internamentos e acaba com o prejuízo dos outros doentes. A situação arrasta-se há várias décadas, melhorou com a pandemia, mas já voltou a intensificar-se. Os hospitais pedem soluções integradas e urgentes.

Problema transversal de norte a sul, no litoral e no interior

O JN fez uma ronda pelos principais hospitais do país e constatou que este é um problema transversal de norte a sul, decorrente do paradoxo entre uma população e a falta de respostas sociais e de cuidados continuados.

No Hospital de Braga, no final de agosto, estavam internados 33 utentes que apenas aguardavam uma vaga nos cuidados continuados, 11 num lar e um que se encontrava numa situação de abandono familiar.

"O número de doentes nestas circunstâncias condiciona as vagas de internamento disponíveis para o tratamento de doentes agudos", referiu o hospital ao jornal.

Também em agosto, no Hospital de São João, no Porto, havia 24 doentes internados por questões sociais, entre eles 21 estavam à espera de resposta de uma estrutura residencial para idosos e três de centros de acolhimento em emergência social.

Idoso internado 495 dias sem justificação clínica

Na unidade hospitalar de Gaia, o número de internados sem necessidade clínica era de 20 utentes e no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, foram identificadas "27 situações de protelamento de alta por motivo social", duas das quais já se arrastavam há mais de um ano.

No Centro Hospitalar Lisboa Norte, o Hospital de Santa Maria, no final de agosto, existiam 30 pessoas apenas a aguardar uma resposta social e no Hospital de São José, em média, também são acompanhados 30 casos nas mesmas circunstâncias. "São casos de estadias quase sempre bastante prolongadas", reconhece a unidade de São José.

O JN identificou ainda o mesmo paradigma no interior do país. O Centro Hospitalar do Médio Tejo - composto pelos hospitais de Abrantes, Tomar e Torres Novas - teve 47 doentes com alta protelada por motivos sociais.

Em média, estes utentes ficam 61 dias à espera de respostas, sendo que o caso mais grave foi de um idoso que permaneceu internado 495 dias sem qualquer tipo de quadro clínico que o justificasse. 

Em 2022, o casos de protelamento de alta demorou 123 dias a ser solucionado. Em 2021, o recorde foi de 240 dias, por falta de vaga em cuidados continuados de saúde mental. Perante as questões colocadas pelo JN, os Ministérios da Saúde e do Trabalho, Segurança Social e Solidariedade não apresentaram qualquer reposta.

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