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Catarina Martins, a Joana d’Arc do costismo: uma análise

15 fev 2023, 22:12
António Costa e Catarina Martins

O convívio político com António Costa ‒ em proximidade ou à distância ‒ apresenta mesmo elevada taxa de mortalidade. Catarina Martins fica com a medalha de honra entre o longo leque de baixas provocado por António Costa. Sebastião Bugalho explica porquê

CATARINA E O COLECIONADOR DE OSSOS
por Sebastião Bugalho

Denzel Washington e Angelina Jolie protagonizaram há 23 anos um conhecido thriller intitulado “O Colecionador De Ossos”. Duas décadas mais tarde, numa entrevista igualmente célebre, António Costa admitiria idêntica vocação. À revista "Visão", o primeiro-ministro enumeraria a sua lista de vítimas no último ano. É ler. “Desde as eleições, quem se cansou foi um líder do PSD, um líder da Iniciativa Liberal e um líder do PCP. Eu ainda cá estou”, constataria, confiante.

Ora, aprofundando a alegoria e o raciocínio, o role de cabeças inimigas que António Costa carrega ao pescoço é bem mais vasto e relevador. Recuando em retrospetiva, tudo começou antes do início. Primeira cabeça: António José Seguro, líder do seu partido e vencedor ‒ sublinho: vencedor ‒ das europeias de 2014, seria prontamente decepado por Costa, que o desafiou a disputar primárias abertas a simpatizantes do PS. Segunda cabeça: assim que derrubou o governo dos 28 dias de Passos Coelho, tornando-se primeiro-ministro após perder ‒ sublinho: perder ‒ as legislativas de 2015, guilhotinou a mais emblemática figura da direita portuguesa dos 20 anos anteriores: Paulo Portas. E foi por aí fora.

Em 2017, com a maior vitória autárquica do Partido Socialista na sua história, colocaria Passos, que havia sobrevivido a quatro anos de troika, fora de jogo. Ele, ainda hoje o primus inter pares na área não-socialista, duraria apenas dois anos na oposição ao homem que lhe tirara a vitória da boca. Em 2019, sairia Assunção Cristas, depois de falhar em manter os 21% que conseguira na candidatura a Lisboa e, mais discretamente, Carlos Guimarães Pinto, que deixou a liderança liberal ao seu primeiro deputado, João Cotrim. Em 2020, as lides sossegariam, mas na primavera de 2021 seria o PAN a perder o seu deputado fundador ‒ André Silva ‒, então substituído pela hoje deputada-única Inês Sousa Real.

2022 seria um ano de particular convulsão, com as legislativas antecipadas a darem uma maioria absoluta não antecipada por ninguém, culminando no adeus imediato de dois líderes à direita ‒ Rui Rio, do PSD, e Chicão, do CDS ‒ e abrindo a porta de saída a Jerónimo Sousa, substituído por Paulo Raimundo em novembro, e a Catarina Martins, cuja despedida foi anunciada esta semana. Entre um e outro, a IL tornaria a perder um líder sem perceber bem por quê, num processo doloroso, demorado e de futuro incerto.

Noves fora nada, António Costa já sobreviveu à módica quantia de dez líderes partidários do outro lado do hemiciclo nos últimos sete anos. Mais: é provável que a quantia venha a alargar nas duas eleições intercalares até 2026 ‒ primeiro com europeias, depois com autárquicas ‒, não perdendo ele uma única desde que é primeiro-ministro.

Colecionador de ossos talvez seja excessivamente mórbido. Mas nem por isso exagerado. O convívio político com António Costa ‒ em proximidade ou à distância ‒ apresenta mesmo elevada taxa de mortalidade.

Catarina, a resiliente

E quem, do longo leque de baixas, mereceria medalha de honra? Talvez a última, sim. Qual Joana d’Arc do costismo, Catarina Martins durou, durou e durou. Das personagens originais da 'geringonça' só ela, além de Costa, ainda resistia. Sobretudo, poderia ter continuado que todos ‒ ou quase todos ‒ lhe teriam concedido o benefício da dúvida. A sua sucessão ‒ relativamente pacífica e evidentemente concertada ‒ serve como prova. O descontentamento interno no Bloco não melindra ainda a sua cúpula liderante.

Em dez anos, Catarina fez oposição ao PSD, apoiou o PS, desapoiou o PS, regressou à oposição e abandonou a liderança do seu partido com uma bancada reduzida mas sondagens em recuperação. É, sem dúvida, uma das tribunas mais eficazes da Assembleia da República, tanto por formação profissional como por experiência acumulada.

Do seu legado constam momentos marcantes da biografia do Bloco de Esquerda, como a integração de uma solução parlamentar, a aproximação aos movimentos sindicais, a penetração na administração pública, o aumento da participação na política local e uma elasticidade ideológica arriscada, mas útil.

Com Catarina, afinal, o Bloco aprovou três Orçamentos com metas de Bruxelas e declarou o seu programa “social-democrata” e “não de extrema-esquerda”. Com as causas mais fraturantes aprovadas antes do seu tempo, apostou numa agenda mais laboral e moralizadora (“Gente de verdade”, nos cartazes), o que contribuiu para o melhor resultado da história do partido, em 2015.

Mas, mais do que tudo isso, há um dado excecional no percurso de Catarina Martins na alta política nacional: a sua longevidade. Dez anos e três meses de centralidade num período da vida política portuguesa em que tudo mudou no seu partido e fora dele ‒ uma nova forma de chegar a primeiro-ministro, uma nova forma de exercer a Presidência, uma nova forma de ser de direita ‒ menos ela.

Nos próximos dez anos, dificilmente nos cruzaremos com algo semelhante.

Não contando, claro, com o nosso colecionador de ossos.

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